Adélia Prado festeja seus 80 anos com 'Poesia Reunida'

Escritora se apoia no cotidiano e no religioso para criar poemas surpreendentes

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2015 | 05h00

Adélia Prado comemora 80 anos neste domingo, 13. “Comemora” é força de expressão - uma das principais poetas contemporâneas do Brasil, a mineira dispensa qualquer tipo de festa, preferindo ficar ao lado da família em Divinópolis, cidade onde nasceu, sem qualquer badalação. 

A data só não passará totalmente em branco graças ao lançamento de uma nova versão de Poesia Reunida (Record), luxuoso volume onde se encontram todos os poemas de seus oito livros. Lidos em sequência, os versos de Adélia tanto flertam com a metafísica como se atêm aos detalhes do cotidiano, mas, acima de tudo, apostam na grandeza das pequenas coisas. E principalmente estabelecem um diálogo com Deus.

“Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: está à lei, não dos homens, mas de Deus”, escreveu Carlos Drummond de Andrade, em um artigo publicado no Jornal do Brasil em 1975 e reproduzido com posfácio do livro, que conta ainda com um texto de Affonso Romano de Sant’Anna, que serviu de prefácio da primeira edição de O Coração Disparado (1978), e um alentado ensaio inédito de Augusto Massi.

Nascida em 1935, Adélia trabalhou como professora durante anos até se formar em Filosofia. Os primeiros versos foram escritos aos 15 anos, mas o primeiro livro, Bagagem, foi lançado apenas em 1976, quando estava com 40 anos. Aparentemente tardia, a estreia, na verdade, revelou uma poeta já formada. “Não existe transcendência sem passar pela cozinha e o banheiro, por isso que a literatura é suja, incompleta, com excrementos”, disse ela em Ouro Preto, em 2010. Por isso, não inventa poemas, apenas os recolhe. 

Há figuras que te assombram e que a senhora utiliza na poesia?

A vida me assombra. Qualquer coisa é a casa da poesia.

A senhora disse que sua poesia vem da memória do passado e do futuro. Por que?

Memória do futuro são desejos. Realidades que intuímos e ainda não se fazem presentes. Temos saudades delas. A meu ver, trata-se de experimentar a poesia fora do poema.

A senhora pensa na morte?

Penso na morte todo santo dia. Ela me ajuda a viver do melhor modo possível. Não há nisto nenhuma morbidez, pelo contrário, estimula bastante. É parte intrínseca da vida. Como ignorá-la sem prejuízo para nós?

Por que vivemos tempos tão cheios de desgosto? 

Porque um tempo ausente de valores espirituais é um tempo de fastio e desatenção. Alimenta-se de amargura e tédio, que tentamos neutralizar com a estridência de tiros e espetáculos de sangue.

O mal é aliado da literatura?

O mal é aliado de si mesmo. Pertence-nos de maneira original. Nascemos com ele. É constitutivo de nossa humanidade. Deve ser combatido primeiro em mim. Uma literatura que o ignore não pode ter este nome. Como contraditório do bem, possibilita o nascimento da consciência. 

Observando a própria obra em Poesia Reunida, como se sente? 

Eu me sinto como leitora e às vezes me pergunto admirada: como fui capaz de escrever isso, tão melhor que eu? Acho que mais propriamente os versos codificam a experiência. Toda arte faz isso, para que a vivência de cada autor possa ser oferecida sem as vicissitudes do tempo, cristalizada na ‘forma’, na sua unidade, portanto. E o faz não apenas com os momentos chamados importantes. A poesia tem a ver com a morte, que faz parte da vida. Tudo lhe diz respeito.

POESIA REUNIDA

Autora: Adélia Prado. Edit.: Record (544 págs., R$ 70)

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