Janerik Henriksson/TT News Agency via AP
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Academia Sueca não entregará Nobel de Literatura em 2018

Decisão de adiar a entrega foi tomada em meio à crise desencadeada por um escândalo de violações e agressões sexuais; vencedor deve ser anunciado em 2019

Guilherme Sobota, Roberta Pennafort e Marina Dayrell, O Estado de S. Paulo

04 Maio 2018 | 04h15
Atualizado 04 Maio 2018 | 15h04

ESTOCOLMO - A Academia Sueca anunciou na madrugada desta sexta-feira, 4, que não entregará o prêmio Nobel de Literatura em 2018, pela primeira vez em quase sete décadas, em razão de um escândalo de violações e agressões sexuais. A Academia disse que adia a premiação de 2018, "com intenção de entregar o prêmio em 2019".

Isso já ocorreu em outras sete ocasiões, mas nunca por conta de um escândalo ou com a decisão envolta numa polêmica semelhante. A última vez havia sido em 1949 — o vencedor daquele ano, William Faulkner, foi premiado em 1950.

+ Entenda: O escândalo sexual na Academia Sueca

A decisão agora foi tomada durante uma reunião semanal em Estocolmo, com base na explicação de que a Academia não está em posição de escolher um vencedor após a onda de escândalos de assédios sexuais e crimes financeiros.

“Nós achamos necessário dedicar um tempo para reconquistar a confiança do público na Academia antes que o próximo vencedor possa ser anunciado”, declarou o secretário permanente da instituição, Anders Olsson. Ele também alegou que a decisão é uma forma de respeitar os que já ganharam e os que ainda ganharão o prêmio.

O presidente do conselho da Fundação Nobel, Carl-Henrik Heldin, disse em comunicado que a crise na Academia Sueca afetou "adversamente" o Prêmio Nobel de Literatura deste ano. "A decisão deles sublinha a seriedade da situação e vai ajudar a preservar a reputação de longa data do Prêmio Nobel", disse Heldin.

A resolução não afeta a entrega do Nobel nas outras categorias.

"A Fundação Nobel presume que a Academia Sueca vai agora colocar todos os esforços na tarefa de restaurar sua credibilidade como uma instituição e que vai informar sobre as ações concretas que estão sendo tomadas", prosseguiu Heldin. "Também assumimos que todos os membros da Academia entendam que tanto os extensos esforços de reforma e a sua futura estrutura organizacional devem ser caracterizadas por uma maior abertura em relação ao mundo."

A maneira com que a Academia escolhe o vencedor sempre foi pouco transparente. A cada mês de fevereiro, os membros avaliam uma lista de cerca de 200 indicações e depois disso o processo eliminatório ocorre até que eles escolham o vencedor, que deve atender ao desejo de Alfred Nobel de premiar "o trabalho mais destacado em uma direção ideal".

O Nobel de Literatura só deixou oficialmente de nomear vencedores durante as duas guerras mundiais (1914, 1918, 1940 a 1943) e em 1935, neste caso por motivos nunca esclarecidos pela Academia.

A polêmica envolvendo o Nobel de Literatura

Em novembro, 18 mulheres acusaram uma conhecida personalidade da cultura francesa, com quem a prestigiada instituição tinha vínculos estreitos, de violência e/ou assédio sexual. O episódio foi motivado por uma onda de escândalos sexuais envolvendo Jean-Claude Arnault, uma grande figura cultural na Suécia e marido da poeta Katarina Frostenson, membro da Academia.

Diante das circunstâncias, sete de um total de 18 membros da Academia renunciaram, incluindo a secretária permanente, Sara Danius. Eles eram designados de forma vitalícia e não tinham "autorização" para renunciar, mas poderiam optar por não participar das reuniões e decisões.

O escândalo provocou especulações nos meios de comunicação sobre o destino do prêmio de Literatura, que foi entregue em 2017 ao autor britânico-japonês Kazuo Ishiguro, e no ano anterior ao cantor e compositor americano Bob Dylan.

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O rei da Suécia, Carlos XVI Gustavo, que é o principal responsável pela Academia fundada em 1786, concordou em modificar os estatutos para permitir que os membros renunciem e sejam substituídos, garantindo assim a sobrevivência da instituição. / Com REUTERS, AP e AFP

Repercussão

O presidente da Academia Brasileira de Letras, Marco Lucchesi, considera que a decisão "é extremamente radical, mas vem demonstrando uma tendência importante desses últimos anos, que é a de não subordinar a perspectiva ética a outras questões que a relativizem".

"Hoje, cada vez mais, se trava uma luta ferrenha, sem descanso contra qualquer tipo de abuso", diz Lucchesi ao Estado. "Apesar do vácuo, é uma atitude que me parece corajosa e necessária."

O escritor não descarta a perspectiva política do Nobel. "Então lamentamos a não-concessão do prêmio, mas isso faz parte de um movimento forte de respeito à alteridade, à mulher. Ao não dar o Nobel de Literatura, eles dão um Nobel da ética. Com isso, se reforça o lugar das mulheres no mundo”, afirma o presidente da ABL.

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