Walter Craveiro/Flip 2017
Walter Craveiro/Flip 2017

Abertura da Flip se torna ato político e social

Palestra de Lilia Moritz Schwarcz e Lázaro Ramos sobre Lima Barreto ressalta assuntos que já incomodavam o escritor há 100 anos

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2017 | 23h14

PARATY - Foram dois momentos apoteóticos – o primeiro aconteceu no final da palestra de apresentação da 15.ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, na noite de ontem, na cidade fluminense: emocionado, o ator Lázaro Ramos jogou para o alto as páginas da leitura que acabara de encerrar, ao lado da historiadora Lilia Moritz Schwarcz, sobre Lima Barreto, escritor homenageado do evento.

Foi dentro da Igreja Matriz, onde acontecem agora os debates. Minutos depois, diante de uma multidão de cerca de mil pessoas, que rodeavam o Auditório da Praça (onde as palestras serão transmitidas gratuitamente em um telão), Lázaro começaria a falar quando, entre as pessoas, ecoaram gritos de “Fora, Temer”. “Lima Barreto, se aqui estivesse, também estaria gritando ‘Fora, Temer’”, disse o ator, para delírio da plateia.

Mais enxuta (o orçamento foi reduzido para R$ 5,7 milhões contra R$ 6,8 milhões em 2016), a Flip inaugurou um novo espaço de debates (o interior da Igreja Matriz foi adaptado para receber os 450 lugares do agora Auditório da Matriz) com um discurso forte – Lilia Schwarcz e Lázaro Ramos apresentaram um misto de palestra e leitura dramática para narrar a trajetória de Lima Barreto (1881-1922), autor cuja força literária o alçou à condição de principal estrela desta edição, fato inédito na história da festa literária.

Enquanto a historiadora descreveu cronologicamente os infortúnios pessoais e profissionais de Barreto, o ator leu trechos de suas obras, comprovando que, nesse caso, ficção e realidade se fundiram.

“Nosso país pode ser repensado hoje pelas palavras de Lima”, disse a nova curadora da Flip, Josélia Aguiar, que estreou com pé direito – sua programação gira em torno dos temas tratados com urgência por Barreto e que continuam modernos. “A obra de Lima é clássica porque nunca acabamos de lê-la”, comentou Lilia, ao final da palestra inaugural.

“Talvez nesse momento estejamos prontos para a atualidade de Lima Barreto, que buscava uma República menos falha, uma democracia mais plena, menos racista e com menos feminicídios.” 

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