A trajetória de Julio Cortázar na Argentina, antes de ida à França

Governo autoritário de Perón facilita sua viagem em 1951 para Paris, de onde só voltaria 33 anos depois, já adoecido

AP, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2014 | 03h00

BUENOS AIRES - Julio Cortázar iniciou sua vida profissional como professor de escolas secundaristas nas pequenas cidades de Bolívar e Chivilcoy, no interior da província de Mendoza. Na época, segundo o escritor Emilio Fernández Cicco relata no livro O Segredo de Cortázar, ele era “inibido, sempre doente e de cultura eurocêntrica. Quem poderia imaginar que essa descrição se encaixaria na exuberante personalidade de Cortázar?”.

A obra, que esquadrinha a juventude e os primeiros anos de vida adulta do escritor, indica que Cortázar não tinha jeito para falar com as mulheres e que dedicava-se mais à poesia do que aos contos. No entanto, os amigos em Chivilcoy o orientaram para um destino literário diferente. “Por que você não volta a escrever aqueles contos tão bons?”, lhe disseram, afastando-o irremediavelmente da poesia.

Em 1944, foi contratado pela Universidade de Mendoza para dar aulas de literatura francesa. Os Aliados haviam liberado Paris e a universidade fervilhava de ideias políticas. Em 45, Cortázar participou junto com os alunos da ocupação da Universidade. No fim da ocupação, ele foi preso. Decepcionado com o crescente poder do então coronel Juan Domingo Perón (futuro presidente), a quem considerava autoritário, voltou a Buenos Aires.

“Mãe, renunciei a tudo. Não tenho um centavo sequer”, disse, ao entrar inesperadamente na casa. “Onde come um comem dois”, respondeu a mãe. Segundo Cicco, a partir dali “Cortázar começou a ser Cortázar”.

A mudança na vida do escritor se aprofundaria a partir de 1951, quando mudou-se para Paris, para trabalhar na Unesco como tradutor. Ali se instalaria pelo resto de sua vida. Nos 33 anos seguintes, voltaria a Buenos Aires só sete vezes, embora grande parte de seus contos no exílio transcorresse na capital argentina.

Em 66, começa a militar ativamente a favor dos movimentos revolucionários na América Latina, especialmente em Cuba. No entanto, em 71 o poeta cubano Herberto Padilla foi preso, acusado de “subversão”. Diversos intelectuais, entre eles Jean Paul Sartre e Cortázar, protestaram contra essa prisão, fato que esfriou sua relação com o governo de Fidel.

Em 73, publica Livro de Manuel, com o qual obtém o Prêmio Médicis em Paris. Um ano depois, desata-se o terror político na Argentina com a Tríplice A, organização de extrema direita, enquanto que a guerrilha do grupo Montoneros, de esquerda, também espalha a violência. “Em 1975, Cortázar me enviou uma carta na qual ele diz que, para me proteger, ia deixar de me escrever. Segundo ele, suas cartas eram perigosas na época”, explica Manuel Antín, cineasta e amigo do escritor.

Em 76, os militares protagonizam um golpe militar, instaurando uma ditadura que duraria até 83. Cortázar, crítico do regime, cede os direitos de autor para ajudar organizações de defesa dos direitos humanos que tentavam conseguir a liberdade dos prisioneiros políticos argentinos.

Em dezembro de 1983, após a queda da ditadura militar, viaja a Buenos Aires para visitar sua mãe, Maria Hermínia Descottes (ela morreria 9 anos depois de seu filho, em 1993). Cortázar, que padecia de leucemia, sabia que estava em seus últimos dias de vida. Além disso, estava triste pela morte da última mulher, Carole Dunlop (que morrera em 1982).

Barba. Entre as mudanças sofridas após sua partida para Paris está uma alteração física que chamou a atenção da família, pois havia passado a ser um imberbe de 37 anos a exibir uma vistosa barba. “Não tinha barba. E subitamente lá na França tinha barba! Não sei o que aconteceu. Nunca lhe perguntamos se fez um tratamento. Mamãe surpreendeu-se, porque antes ele só tinha um bigodinho, e nada mais”, explicou Ofélia Cortázar, irmã do escritor, nos anos 1990./A.P.

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