Donald Johnson/The New York Times
Donald Johnson/The New York Times

'A Suprema Corte agora é o tribunal de Trump', diz John Grisham

Seu novo romance é um elegante suspense sobre a caçada a um serial killer que também é juiz

Entrevista com

John Grisham

Adam Liptak, The New York Times

19 de outubro de 2021 | 12h22

John Grisham é um inveterado mestre dos best-sellers que você lê de uma vez só. Seu mais recente, The Judge’s List, que sairá pela Doubleday na terça-feira, é um elegante romance de suspense sobre a caçada a um serial killer que também é juiz.



Falando por telefone no mês passado de Aspen, Colorado, onde acabara de dar uma palestra, Grisham reconheceu que seu principal objetivo é entreter um enorme público que conta com ele para entregar um thriller judicial todos os anos, a tempo de levar o livro para as férias.

“Sempre fui honesto”, disse ele. “Isto não é literatura. Não é ficção literária. É ficção popular e, com sorte, ficção popular de alta qualidade. É isso que quero escrever. Prefiro vender livros do que ter críticas boas”.

Mas os interesses de Grisham são mais variados do que parece. Ex-advogado criminal e de danos pessoais, ele é um estudioso das deficiências do sistema de justiça dos Estados Unidos.

Grisham, por exemplo, trabalhou duro para chamar a atenção para as condenações injustas, dizendo que se inspirara no trabalho de Jim Dwyer, repórter e colunista do The New York Times que morreu no ano passado. Grisham, 66 anos, também disse coisas incisivas sobre a eleição de juízes e promotores, uma prática comum em muitos estados americanos e quase desconhecida no resto do mundo.

Também conversamos sobre a Suprema Corte – assunto que cubro para o jornal. Grisham traçou uma linha ligando o caso Bush vs. Gore, a decisão de 2000 que entregou a presidência a George W. Bush, aos esforços do senador Mitch McConnell, republicano de Kentucky, para garantir as nomeações dos três indicados do presidente Donald Trump. A Suprema Corte, disse Grisham, “é um tribunal muito político”.

O que se segue são trechos de nossa conversa, os quais foram editados e condensados.


 

O gênero que as pessoas associam ao seu nome é “suspense judicial”. O livro novo se encaixa nesse gênero?

Não sei de onde veio esse termo. Eu mesmo o usei mil vezes porque parece funcionar. Para mim, é suspense à moda antiga.

A coisa do thriller judicial só dura porque alguém o inventou trinta anos atrás, quando publiquei A Firma. Scott Turow publicou Acima de qualquer suspeita em 1987 e meio que reescreveu todo o livro para fazer dele um grande suspense judicial. Era um livro brilhante. Realmente me inspirou a terminar meu primeiro romance, mas não me lembro de pessoas descrevendo o primeiro livro de Scott como um thriller judicial. É um grande romance de suspense que se passa dentro de um tribunal. Então não sei de onde veio o termo. Acho que funciona bem. Com certeza me fez vender um zilhão de livros.

 

Não é o primeiro de seus livros a apresentar um juiz corrupto, criminoso ou caído em desgraça. Isso sugere algo sobre sua visão geral do judiciário americano?

Tenho muito respeito pelos juízes, mas não gosto da maneira como os escolhemos. Quinze anos atrás, li sua série de reportagens sobre os juízes da Suprema Corte do estado de Ohio. Naquela mesma época, eu estava pesquisando para escrever um livro que viria a ser O Recurso, sobre a compra de juízes da Suprema Corte no Mississippi. Mais de trinta estados elegem juízes de suas Supremas Cortes, o que é uma estupidez. Basta ver a loucura da Virgínia Ocidental, onde se compravam juízes a torto e a direito.

Fico muito aborrecido com os casos de inocentes em que trabalho por meio do Innocence Project, porque existem muitas condenações injustas que poderiam ser evitadas. Com muita frequência – vemos isso milhares de vezes – os juízes simplesmente não estão de olho e permitem que entrem no testemunho coisas que não têm nada que ver com o caso, o que é muito prejudicial.

 

Não posso deixar de fazer essa pergunta à luz do meu trabalho: você tem alguma opinião sobre a atual Suprema Corte?

É uma questão muito angustiante. Acho que a Suprema Corte perdeu muita credibilidade em 2000, quando cinco republicanos na corte viram a chance de eleger um presidente republicano – e foi exatamente isso que eles fizeram. E, nesse ponto, virou um tribunal muito político – e isso não mudou ao longo dos anos, certamente não nos últimos quatro anos. A maneira como McConnell conseguiu sequestrar a Suprema Corte foi política pesada. E provavelmente não vai mudar por muitos, muitos anos. Agora é o tribunal de Trump.

 

Você mencionou seu trabalho com o Innocence Project. Fale um pouco mais sobre o que essa experiência lhe ensinou sobre o sistema de justiça criminal americano.

Nunca pensei que me envolveria nisso. Trabalhei com direito penal por dez anos e tínhamos um sistema muito bom no meu cantinho lá no Mississippi. Eu conhecia os policiais, conhecia os promotores, conhecia os juízes e era um sistema muito eficiente. Todo mundo jogava limpo. Tive muitos clientes que foram para a prisão. Eles mereceram. Nunca tive um cliente que achasse que tivesse sido condenado injustamente. Nunca me ocorreu que essas coisas pudessem ocorrer até... você conhece o Jim Dwyer?

 

Jim era um cara extraordinário.

Ele escreveu um obituário em dezembro de 2004. Adoro os obituários do New York Times. E era um obituário de dia de semana. A história principal era de um cara da minha idade, minha raça, minha formação, minha religião, minha terra – ele era de Oklahoma; eu sou de Arkansas. E ele foi chamado para jogar no Oakland A’s em 1973, um ano em que eu mesmo achei que poderia ser chamado. Mas nunca me chamaram. E esse cara foi convocado, mas, de todo jeito, nunca foi muito longe. Voltou para sua cidade natal em Oklahoma, acabou condenado por assassinato e mandado para o corredor da morte pela mesma cidade que sempre o idolatrara como um herói do esporte. Ele cumpriu 11 anos de sentença, saiu cinco dias antes da data da execução.

Então estou lá lendo seu obituário. Ele tinha acabado de morrer depois de ser inocentado por um teste de DNA. A história foi um tapa na cara para mim. Pouco depois eu já estava numa cidadezinha de Oklahoma. Foi meu único livro de não ficção. Saiu em 2006 e realmente me levou ao mundo das condenações errôneas, algo em que eu nunca tinha pensado de verdade. Assim que comecei a pesquisar para escrever O Homem Inocente, percebi quantas pessoas inocentes estão na prisão – milhares, dezenas de milhares. Barry Scheck me convidou para fazer parte do conselho do Innocence Project, e eu fui. Entramos com recursos de costa a costa para tirar nossos clientes inocentes da prisão por meio de testes de DNA. Já temos 375 absolvições por DNA, algumas dessas pessoas estavam no corredor da morte.

É um trabalho que vicia porque você fica ligado a esses clientes. Você fica sabendo que eles são inocentes, mas passaram vinte ou trinta anos na prisão pelo crime de outra pessoa, então a injustiça é uma coisa que ainda me incomoda muito. É uma batalha sem fim que espero lutar pelo resto da vida.

 

Você acha que sua formação jurídica ajudou ou prejudicou seu estilo de prosa?

Acho que foi crucial, porque eu nunca teria escrito nada sem o conhecimento jurídico.

Para sobreviver à faculdade de direito, você tem que lidar com a linguagem e não ter medo da linguagem ou do ato de escrever – e muitas pessoas têm medo. Mas, quando você termina a faculdade, já escreveu muito. Aí, nos seus primeiros anos de advocacia, você percebe o quanto tem para escrever.

Dá para saber se o autor é advogado ou não só pelas primeiras dez páginas de um livro de drama de tribunal. Algumas coisas acontecem naturalmente. Você conhece a terminologia, a fraseologia, as teorias jurídicas, os procedimentos do tribunal. Como advogado, você conhece esse tipo de coisa – e fico irritado quando leio thrillers judiciais ou dramas jurídicos escritos por pessoas que não são advogados, porque sempre dá para perceber a falta de autenticidade.

 

Como é o ritmo do seu ano? Eu li que você dedica parte do ano a escrever um livro e o restante a diferentes atividades...

Durante muito tempo, era um livro por ano. Comecei em 1991 com A Firma e foi pelo menos um livro por ano desde então. Por muito tempo, era o grande suspense judicial que saía na primavera, porque ninguém mais publicava na primavera, e as livrarias adoravam. Então eu estava ocupado criando filhos e sendo técnico na Little League Baseball, você sabe, vivendo uma boa vida. Depois que meus filhos saíram de casa, tive mais tempo. Depois de cerca de uma dúzia de thrillers, comecei a me perguntar: será que você consegue escrever outra coisa? Será que consegue escrever um livro sem advogados? Aí comecei a fazer isso. Escrevi uma série infantil e livros de esportes. Minha agenda agora é: começar o suspense judicial em janeiro. Primeiro de janeiro. Eu me forço a começar em primeiro de janeiro. E me dou seis meses para terminar, até primeiro de julho. Aí passamos seis semanas fazendo toda a edição, reescrita e todo o trabalho chato. Meu Deus, como odeio essa parte, mas não tem jeito. Depois o livro vai para a impressão, com data de publicação no final de outubro, para pegar o mercado de Natal, porque agora é nessa época que todas as editoras querem que os grandes livros saiam.

E, invariavelmente, no Dia do Trabalho, fico entediado de novo e procuro outra coisa para escrever, aí vou escrever um livro infantil ou um livro esportivo.

Ainda escrevo todas as manhãs das sete ao meio-dia, cinco dias por semana, e ainda valorizo aquelas primeiras horas do dia, com café forte e uma grande tela em branco para olhar e só para criar histórias e entreter as pessoas. Ainda me sinto muito feliz por poder fazer isso e não tenho planos de desacelerar tão cedo.

 

Seus livros são extremamente populares. Mas às vezes há uma desconexão entre esse fato e as críticas que você recebe. Nem sei se você lê as resenhas dos seus livros, mas me pergunto se você acha que a primeira coisa influencia a segunda... Você acha que é popular demais para ser levado a sério?

Eu fiz as pazes com isso trinta anos atrás. Fiz as pazes com os críticos literários há muito, muito tempo. Eles foram muito duros com os primeiros dois ou três livros. Mas você não pode deixar a crítica ditar o que você escreve.

Tom Clancy me disse há muito tempo, antes de morrer, ele me disse: “Finalmente cheguei ao ponto em que sou à prova de crítica”. É um lugar muito bom para se estar. Quando você está à prova de crítica, os críticos ignoram seu trabalho e simplesmente o deixam em paz. E não importa porque você tem seu público. Seu objetivo é escrever um livro que sempre vai satisfazer o seu público, que vai entregar o prometido, que vai entreter. E isso é tudo que eu quero fazer.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU.

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