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A suavidade épica do poeta Marco Lucchesi é reunida em ‘Clio’

Coletânea de poemas incisivos adentra as entranhas da história e da imensidão do tempo refletindo sobre o sentido da existência

Mariana Ianelli , O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2015 | 03h00

Num estudo sobre as Musas na poesia homérica, o crítico Pietro Citati chega a dizer que, seja qual for a matéria dessa poesia - batalhas, ilha de amores, viagem ao mundo dos mortos, saudades de casa, naufrágios -, sua forma tem “o dom da suavitas”. Longe de ser inocente ou apaziguante, esta suavidade, que tudo envolve como um véu ou vapor, em tempos modernos, Proust a chamou de “pátina dos mestres”. Pois este é o dom, conhecido das Musas de Homero, que brilha nos poemas de Clio, novo livro de Marco Lucchesi.

Prólogo Febril, Clio e Insônia, abrangendo poemas de 2007 a 2014, escritos entre Oriente e Ocidente, surgem como partes do todo fluido e vaporoso que congrega a poesia de Lucchesi, uma poesia de sutilezas, sensualidades bíblicas, geografias insufladas pela história das navegações portuguesas e pelo tesouro do império de sua língua. Com prefácio de Alfredo Bosi e orelha de Ettore Finazzi-Agrò, o livro conta ainda com breves notas sobre as seções. A respeito do poema título, o autor adverte: “Trata-se de um poema único, dividido em microrregiões. Deve ser lido sem interrupção”. É preciso deixar que se revele, em sucessivas releituras, esta chave: que a superfície marítima em que o poeta vai imerso, “esta / e não outra” é sua profundidade. 

“Como chegar / ao tempo-quando / de todos / os meus ondes?”, é a pergunta que navega. É a procura. Procura esta que se refaz para o poeta, livro a livro, como razão mesma de ser da poesia. Procura que seduz pela incerteza da conquista, que se nutre da iminência do fracasso. Como diz o Lucchesi ensaísta, em A Memória de Ulisses (2006), sobre o Empíreo de Dante: “Uma espécie de épica das lacunas. Uma épica da falta”. Ou ainda, sobre a geografia vieiriana: “Os mares de Vieira, Camões e Plotino confundem-se na mesma pátria espiritual, que se conquista nos mares do ser, na distância de outros portos e de outras ilhas. Máquina do mundo. Máquina do uno”. Uma épica e uma pátria em que também se confundem os mares do poeta Lucchesi, contando não apenas com Clio, musa da História, mas, sobretudo, com a sutileza de seus mensageiros invisíveis, seu “maço / de ausências malferidas”, seu “feixe / de prodígios e visões”: Prestes João, Dom Sebastião, o Desejado, o “Cristo-Capitão”, “capitão-mor / das analogias del-rei”.

Outro mensageiro mítico que participa nos segredos de marear de Clio, em seu vapor que tudo envolve, é Hermes, sedutor, multiforme, que se insinua para o poeta no que é febre e insônia, cimo e abismo, ouro e sangue. É Hermes que rouba o sono do poeta e lhe dispensa os sonhos. Hermes que lhe inspira os maravilhosos paradoxos, que remete indícios e confunde pistas, que o escolta na viagem ao “delta / feminino / da linguagem” e “nas águas do golfo / da infância”. Como convém a um deus sem reino, peregrino, afeito à invisibilidade e ao feitiço, ele aparece no livro sem ser citado, apenas sugerido, num acréscimo de sutileza, entre os “deuses que se apressam / do ser para o não ser”.

Numa épica de enevoadas geografias do antigo sonho português, Dom Sebastião reina num mundo de palavras, no quinto império da poesia. Marco Lucchesi, que é um viajante do mundo, também ele, como poeta, “rei de Algures e Nenhures”, sabedor de tantas línguas, do Oriente e do Ocidente, alcança o graal dos eruditos despojando-se. Vem desse despojamento difícil (dificílimo) seu elogio maior à língua portuguesa. Um elogio que se afina, em sua forma suave, e em seu brilho, com a matéria de celebração de Jorge de Lima no Oitavo Canto de Invenção de Orfeu: “Amo-te ‘idioma vasco’, sempre ouvido / no clima dessas quíloas afogadas, / (...) / sebastianismos vendo irreais reinos / (...) / Língua remota, língua de presenças, / de suscitadas ressonâncias, amo-a, que me deu a experiência dos abismos / e também das realidades inefáveis / e também da saudade amarga e doce / e também das verdades mais ardentes”.

MARIANA IANELLI É POETA E AUTORA DE O AMOR E DEPOIS

CLIO

Autor: Marco Luchesi

Editora: Globo/Biblioteca Azul (96 págs., R$ 29,90)

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