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Cena de 'A Hora da Estrela' Transvídeo

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A prosa íntima de Clarice Lispector traduzida para a linguagem do cinema

Conheça os filmes baseados na obra de Clarice Lispector, cujo centenário de nascimento será celebrado no dia 10 de dezembro

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

Atualizado

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Não é fácil levar a obra de Clarice Lispector (1920-1977) ao cinema. O cinema mostra. É dependente da concretude da imagem. Os textos de Clarice, de modo geral, são intimistas, interiorizados, e mesmo abstratos. Passam-se na subjetividade das personagens, muitas vezes em monólogos interiores. É desafio tão grande quanto adaptar James Joyce ou Virginia Woolf. Difícil, mas não impossível. Tanto assim que várias obras de Clarice, homenageada agora em seu centenário de nascimento, receberam versões audiovisuais competentes - e algumas de muito sucesso. 

Até agora, por certo, nenhuma teve tanto êxito quanto A Hora da Estrela (1985), longa dirigido por Suzana Amaral. O filme ganhou todos os prêmios possíveis no Brasil e ainda um Urso de Prata no Festival de Berlim pela interpretação impecável de Marcélia Cartaxo. Marcélia vive Macabéa, migrante nordestina semianalfabeta que, na cidade grande, dá início a um desajeitado namoro com Olímpico (José Dumont). Mas nada dá certo para Macabéa, literalmente devorada pela cidade grande. 

Também teve êxito O Corpo, de José Antonio Garcia, adaptado do conto homônimo de A Via Crúcis do Corpo. Venceu o Festival de Brasília de 1991 com uma história de “poliamor”, o casamento de Xavier (Antonio Fagundes) com Bia (Claudia Jimenez) e Carmem (Marieta Severo). O tom é o de uma comédia negra (e sarcástica), bastante parecido com o espírito do próprio conto. José Antonio Garcia, clariceano declarado, tinha ideia de adaptar outro conto de Via Crúcis do Corpo, Ele me Bebeu, a ser estrelado por Carla Camurati. Mas morreu em 2005, antes de o projeto se concretizar. 

A mais recente adaptação de uma obra de Clarice, do romance homônimo O Livro dos Prazeres, foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo e deve estrear no próximo ano. Dirigido por Marcela Lordy, põe em cena a problemática personagem Lóri, vivida por Simone Spoladore. Lóri é uma professora de crianças, que se mudou há pouco para um cinematográfico apartamento com vista para o mar, herança do pai. Ela parece entediada e sem rumo. Sexualmente livre, envolve-se com vários homens em casos rápidos, até conhecer Ulisses (Javier Drolas), um professor de filosofia que significará outra coisa em sua vida. 

Como tantas histórias saídas da pena de Clarice, esta também é a de uma personagem em crise e em busca de algum tipo de ascese. Ulisses será ao mesmo tempo objeto de desejo e também estímulo dessa problemática epifania capaz de resgatar a personagem feminina de uma angústia profunda. O filme busca nas nuances de claro e escuro as alterações de humor de Lóri e usa outros recursos da linguagem do cinema para dar conta da enxurrada linguística do original. 

O universo de Clarice chegou também aos curtas-metragens. Clandestina Felicidade, de Marcelo Gomes, de 1998, inverte o título original do conto Felicidade Clandestina. Evoca uma passagem da meninice de Clarice no Recife, com o despertar de sua grande paixão pela literatura. A menina (Luisa Phebo) morre de inveja de uma coleguinha de escola que possui um tesouro - o livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. 

A história é o gosto da leitura na futura escritora, mas também a de outra descoberta, a da maldade humana. Quando, por fim, a garota Clarice se apoderar do seu tesouro, este será sua “felicidade clandestina”, bonita conjunção de duas palavras, substantivo e adjetivo, que define uma vocação secreta. Literária, por certa, mas algo além: “A felicidade sempre iria ser clandestina para mim”, escreve Clarice no original. 

Outro curta é Ruído de Passos (2012), de Claudia Marafeli. O conto em que se baseia encontra-se em Via Crúcis do Corpo e aborda um tema-tabu até hoje: a sexualidade na velhice. A personagem principal, dona Cândida Raposo (Miriam Mehler), tem 81 anos e se surpreende com a sobrevivência do desejo em seu corpo desgastado. Queixa-se ao ginecologista: isso vai até quando, o desejo de prazer? Com franqueza, o médico responde: não há remédio, minha senhora, vai até morrer. 

A dificuldade, nesta narrativa breve, era conciliar a força do tema com a delicadeza no tratamento, desafio vencido pela diretora. 

Essas obras realizadas são amostras de como o rico universo de Clarice Lispector pode vencer a barreira de linguagens e ser transposto para o audiovisual. A sexualidade, a busca de sentido da existência, a opressão masculina, a hostilidade da sociedade, a solidão – tudo isso está nessa prosa íntima, que parece se dirigir diretamente à subjetividade do leitor. Todo esse mundo à espera de cineastas sensíveis, capazes de traduzi-lo para outra linguagem – a do cinema – sem perder sua força na transposição. 

Para finalizar, lembremos do maior dos desafios nessa tarefa, agora enfrentado por Luiz Fernando Carvalho, que levou para a tela a considerada obra-prima da escritora, A Paixão Segundo G.H. A protagonista é Maria Fernanda Cândido, no papel da mulher de classe média alta que, ao visitar o quarto da empregada doméstica, passa por uma experiência existencial das mais radicais. Ainda sem data de estreia, o filme está sendo esperado com ansiedade neste ano de centenário de Clarice Lispector

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A escritora Clarice Lispector Acervo Paulo Gurgel Valente

No centenário de Clarice Lispector, veja 10 frases que revelam fragmentos de seu pensamento

Clarice Lispector, uma das principais escritoras brasileiras, é homenageada em seu centenário de nascimento, no dia 10 de dezembro

Imagem Ubiratan Brasil

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

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A escritora Clarice Lispector Acervo Paulo Gurgel Valente

Uma das mais amadas escritoras brasileiras, Clarice Lispector (1920-1977) deixou uma obra ardente, enigmática e responsável por um movimento ficcional absolutamente novo que ainda desperta paixões. Clarice nasceu na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920. Em comemoração ao centenário da data, diversos eventos estão previstos, entre shows de música, debates com autores, exibição de filmes.

A estreia oficial de Clarice na literatura aconteceu em 1943, quando, aos 23 anos, ela teve publicado Perto do Coração Selvagem, romance que inaugurou uma nova linguagem nas letras brasileiras, na trilha de Virginia Woolf. Foi o ponto de partida de um estilo que se notabilizou pelo modo anticonvencional de organizar uma narrativa, valendo-se de uma escrita intimista, em que “as personagens não são seres excepcionais, antes são pessoas comuns, vivendo em um mundo, por assim dizer, mágico; mas de uma magia diferente, clariciana, feita de enigmas e perplexidades – uma magia nascida da exacerbação da palavra”, no entender do poeta Ferreira Gullar.

Nascida em Tchechelnik, Ucrânia, Clarice chegou ao Brasil com apenas 2 anos, acompanhada dos pais e duas irmãs, fugindo da guerra civil que assolava seu país. A família passou por Maceio e Recife até se fixar no Rio de Janeiro. Entre 1943 e 1959, período em que esteve casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, a escritora o acompanhou em suas missões, vivendo em lugares tão distintos como Belém do Pará, Nápoles (Itália), Berna (Suíça), Torquay (Inglaterra) e Chevy Chase, localidade próxima de Washington (EUA).

As viagens ao lado do marido nem sempre foram proveitosas. Vivendo em uma Europa já desgastada pela 2ª Guerra Mundial, cujo final se aproximava, Clarice e Maury foram obrigados a viver em hotéis e consulados brasileiros durante muitos meses. A impossibilidade de montar sua própria residência e, principalmente, o fato de viver longe das irmãs, com quem manteve uma extremada relação de amor e ternura, fizeram com que Clarice sofresse, prejudicando o próprio trabalho da escrita. Mesmo assim, ela estabeleceu novos parâmetros para a literatura brasileira. Especialmente na relação tempo e espaço. Ainda que colaborasse para jornais e revistas, meios de comunicação que se pautam exclusivamente pela realidade, a escritora utilizou as páginas de imprensa também para suas reflexões.

“Sua produção é, a certa altura, chamada por ela mesma de ‘pulsações’, e está pautada pelo questionamento de valores, desconstrução de regras e certezas, movida pelo desejo dramático de narrar aquilo que, no fundo, constata ser inenarrável”, já observou Nádia Battella Gotlib, professora da USP e reconhecida como uma das maiores especialistas na obra de Clarice.

Como diversos outros escritores, também Clarice era obrigada a se desdobrar em outra profissão, notadamente a de jornalista. No início, foram colaborações ocasionais, mas sua fama se estabeleceu no fim dos anos 1960, quando foi convidada a fazer entrevistas para a revista Manchete. E, como se tratava de Clarice, as perguntas, por vezes, eram mais reveladoras que as respostas – ela surpreendia ao fazer questões mais abstratas, estranhas até:  “Qual é a coisa mais importante do mundo?”, “O que é o amor?” e “Qual é a coisa mais importante para uma pessoa como indivíduo?” eram suas favoritas.

Passados 43 anos de sua morte, acontecida em 9 de dezembro de 1977, Clarice continua um enigma – um estimulante enigma. Sua obra ainda inspira criadores a transformar palavras em imagens, ações, sensações, como comprovam os diversos eventos programados para celebrar seu centenário. E é por meio de suas frases que se consegue elaborar um esboço de quem foi essa mulher.

Veja dez frases, ditas ou escritas, em que Clarice revelou fragmentos de seu pensamento

“Escrevo como se somam três algarismos. A matemática da existência”

“Vivo ‘de ouvido’, vivo de ter ouvido falar”

“Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto.”

“Se uma pessoa fizesse só o que entende, jamais avançaria um passo.”

“Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos.”

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

“Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.”

“Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.”

“Fique de vez em quando sozinho, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.”

“Escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos.”

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