A propósito de Kafka

Lendo agora, no texto integral, o diário de Kafka, encontro uma passagem dessas que forçam o leitor à meditação, tantas são as suas decorrências psicológicas e estéticas. Confessa ele não amar a mãe como devia, porque a chamava de "Mutter", em alemão: "A mãe israelita não é uma "Mutter", e esse modo de tratá-la como que a ridiculariza; damo-lhe o nome da mãe alemã, esquecidos da contradição que vai nisso e se pode profundamente insinuar no sentimento. Para os judeus, a palavra "Mutter" é especialmente alemã, encerra a despeito deles tanto a frieza quanto o esplendor cristãos, tornando não apenas ridicula, mas estranha a mulher judia à qual se aplica".

Lucia Miguel Pereira,

25 Junho 2011 | 10h35

 

Como um biombo de vidro, translucido porém intransponivel, a maneira pela qual se dirigia à mãe dela o afastava, impedindo a intimidade, a fusão, embora proviesse do idioma que era afinal o seu, que manejou como grande escritor. Mas para designar a criatura a quem se devia sentir instintivamente, entranhadamente unido, precisava de outro vocativo que, não envolto em tradições cristãs, e, ao contrario, enriquecido de atavicas ressonancias hebraizantes, se vinculasse peculiarmente à figura da mãe israelita. A falta desse elo verbal enfraquecia a cadeia afetiva.

 

Experimentarão a mesma inibitoria sensação todos os meninos judeus que, pelo mundo em fora, chamam suas mães nas linguas dos países aos quais pertencem? Não parece provavel, que o mal-estar, em Kafka, proviria talvez menos da não coincidencia de origem e nacionalidade do que do temperamento nervoso, agravado ainda pela vocação literaria, manifestada, em ultima analise, por uma sensibilidade mais aguda para as palavras. Que Kafka a possuía intensamente, mostram-no varios trechos deste diario. Ora, sofrendo por não conseguir combinar umas com as outras as que escreve, ouve "as consoantes se atritarem com um ruido metalico, e as vogais as acompanharem cantando"; ora, ao emprega-las para fins alheios à criação artistica, não as logra pronunciar e na bôca as revolve "como se fôssem de carne crua, de carne cortada de seu proprio corpo"; ora tanto se abisma numa só que "a primeira e a ultima letra se tornam o começo e o fim" de tudo; ora, ouvindo a leitura de uma historia sua, se desespera diante da narrativa desordenada; "cheia de buracos onde caberiam as duas mãos; tal frase ronca, tal soa falso, atabalhoadamente; esta esbarra naquela, como a lingua num dente furado ou postiço". Varias outras notações neste sentido se poderiam colhêr ao longo do diario, reveladores de quanto Kafka cuidava da forma, de quanto dava valor a cada palavra.

 

A quem, todavia, só por traduções o conhece, ele não dá a impressão de ser tão exigente, tão minucioso na escolha de seus meios de expressão. Mas é preciso haver feito pessoalmente a experiencia de passar para outro idioma um texto literario para se verificar a impossibilidade de lhe conservar, além do sentido e de estilo, as imagens afetivas de que o uso impregna os vocabulos, revestindo-os, adoçando-os, alterando-os como o musgo às pedras, Lendo-se Kafka em francês, como o fiz, adivinhe-se na sua escrita a intenção predominante de sugerir outra realidade além da visivel, de obter a "verdadeira descrição, a que se desliga do solo dos sucessos reais", o que já exige, é certo, sutil mestria verbal, porém não a angustiante sensibilidade ao som, que chega a fazer ouvir rangidos de consoantes e cantos do vogais.

 

Sem duvida ser escritor é sempre viver na intimidade das palavras, e a simples preferencia dada a esta ou aquela já se prende a motivos esteticos; mas como a arte literaria se distingue das demais por ser seu instrumento usado por toda a gente e nos intuitos os mais anti-artisticos, uma tal ou qual confusão se estabelece, permitindo a distinção, impossivel na musica ou na pintura, entre forma e conteudo. E' o que acontece sobretudo e de algum modo se justifica no romance, tão estreitamente ligado à vida. O romancista capaz de criar um mundo pode ser mediocre ou descuidado no tocante ao elemento verbal de que se serve, e sem maior prejuizo desde que ajuste ás cenas e personagens. E' o caso, no Brasil, de Aluizio Azevedo, cuja força geradora sobrepujou os recursos propriamente literarios. Cuidava eu ser também esse o caso de Kafka, no que me convence de erro este diario. Erro que atribuo a não lhe haver podido a tradução reter as caracteristicas do estilo.

 

O mais habil tradutor obtém apenas uma aproximação do texto original, embora realize muitas vezes obra valiosa, reescrevendo as alheias concepções, executando por conta propria o trabalho de artifice que completa o do artista, tornando-se assim uma especie de colaborador, e não o passivo espelho a que se deveria reduzir. Aliás, um tradutor da consciencia de Paulo Ronai já afirmou, no seu excelente ensaio Escola de Tradutores, que nem ao menos a pontuação pode ser inteiramente respeitada na transição de um idioma para outro. Há pois nessa tarefa, que á primeira vista parece depender apenas de paciente engenho, uma verdadeira criação, ou recriação, que, ainda completa em si mesma, não logra, senão nos raros casos de correspondencia total não só entre duas linguas mas entre a psicologia coletiva de dois povos, guardar as cargas poeticas ou efetivas que se acumulam em determinadas palavras - em "mutter" por exemplo, como o prova Kafka. Não se conclua daí que não se deva traduzir, sendo, ao contrario, preferivel conhecer imperfeitamente a perfeitamente ignorar os livros essenciais.

 

A lição a tirar será porventura outra: a da importancia primordial da palavra, não somente adequada, mas também empregada de medo a poder ser seguida por toda a esteira de resonancias espirituais que a realçam e prolongam. Se um menino judeu não pôde amar sem reserva a mãe, porque a chamava por um nome germanico, é que o verbo se faz realmente carne, isto é, sentimento, idéia, emoção, é que a expressão influi no que exprime, é que a linguagem tem função criadora.

 

Assim sendo, muitas das deficiencias da literatura talvez corram por conta menos dos escritores do que do instrumento verbal de que dispõem, e há da ser afinado pelo uso, não só de quem escreve, mas sobretudo de quem fala. Será essa a explicação de um certo retardamento que se pode notar no nosso romance? Sem esquecer o que tem de grande, devemos convir que de modo geral o sobrepujam a poesia e a prosa positiva. Ensina-nos a historia literaria que o precederam, que já ostentavam acentos seguros quando ele mal balbuciavam na geração nascida nas proximidades da independencia, que começou a surgir entre 1840 e 1850, a primeira geração rigorosamente brasileira, há uma inegavel distancia a separar Joaquim Manoel de Macedo (nem vale mencionar Teixeira e Souza de Gonçalves Dias ou João Francisco Lisboa. Não direi que essas posições se houvessem sempre mantido, que Machado de Assis não se medisse, com vantagem, com seus contemporaneos de outros generos, que não tenhamos, hoje, romancistas de merito indiscutivel. Mas, se é possível conceber-se tal abstração, direi que a produção media de romances é entre nós inferior á produção media de poemas e ensaios. E que, de modo geral, aqueles se realizam melhor, quando regionalistas, quando, portanto, exprimem conflitos e sentimentos mais simples, mais primitivos, quando podem legitimamente recorrer á linguagem liberta de preceitos vernaculos, diversas da empregada pela gente educada. Ora, desta também se desprendem, noutro rumo - o do maior apuro - a poesia e o ensaio, ao passo que, quando não regionalista, dela depende o romance. Não será essa a razão de seu mais dificil desenvolvimento? Talvez porque o português o português ainda esteja, aqui, em fase de transformação para o brasileiro, talvez por maus habitos culturais, o fato é que falamos mal. Descuidamos na conversa, tornamo-nos ataque quando buscamos precisão e correção. O que se torna muito grave, e de consequencias perigosas para a ficção que pretende fixar a vida em todos os seus aspectos, se, como sugere Kafka, a palavra inadequada pode constranger ou mesmo sufocar o sentimento.

 

A nossa linguagem coloquial, viciada e pobre, não sofre a transposição para a escrita, o que sobremodo tolhe a liberdade do romancista. O dialogo, essencial para a completa personalização das figuras, oferece obstaculos poderosos a quem deseje mais ou menos respeitar as convenções gramaticais, só sendo natural quando mistura as segunda e terceira pessoas e, o que parece mais serio, curiosamente se adapta a qualquer debate mais elevado. Deveremos aceitar que não esteja maduro para o romance o povo que ainda não forjou uma lingua bastante maleavel para poder ser usada tanto oral quanto graficamente? Ou caberá aos escritores resolver a situação pelo abandono corajoso de regras de sintaxe, pelo reconhecimento de expressões espurias, porém legitimadas pelo habito? Não aludo ao teatro, cujos problemas pouco conheço, mas quer-me parecer que ainda mais do que o romance sofrerá das inibições resultantes das diferenças entre a linguagem cotidiana e a gramatical.

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