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A presença de Simone de Beauvoir nos 30 anos de sua morte

Escritora e feminista continua a influenciar novas gerações de leitores e sua atualidade impressiona

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

13 de abril de 2016 | 16h18

Há 30 anos, em 14 de abril de 1986, a  escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) morria, vítima de pneumonia. Consagrada por um livro  fundamental para o movimento feminista, O Segundo Sexo, publicado em 1949, Beauvoir, companheira do filósofo Jean-Paul Sartre, volta a ser discutida dentro e fora do mundo acadêmico, atraindo a atenção de novas gerações de ativistas no Ocidente. O mais recente produto que atesta esse interesse acaba de ser lançado: é o DVD Simone de Beauvoir e o Feminismo (Versátil Home Vídeo), que reúne três documentários fundamentais sobre sua obra e seus  princípios filosóficos.

O mais recente, Uma Mulher Atual (Une Femme Actuelle, 2077), de Dominique Gros, tenta resumir em pouco menos de uma hora a trajetória de Beauvoir desde seu encontro com Sartre na École Normale Supérieure até seus últimos anos, quando se dedicou a relatar o período final de convivência com o filósofo (A Cerimônia do Adeus) e a publicar suas cartas. Nessa docuficção de Gros, a encenação do cotidiano da escritora, embora pareça um tanto artificial, aproxima a autora do espectador, dividindo com ele suas reflexões sobre o existencialismo e o ativismo político que marcou sua vida.

A honestidade intelectual de Beauvoir impressiona. No epílogo do filme, ela caminha em direção à câmera e o balanço que faz de sua experiência existencial não permite uma conclusão otimista: a vida, diz a escritora, é algo “que passa”. É, portanto, ilusória a sensação que sejamos senhores absolutos de nosso destino, como acreditava nos anos 1950, ao conceder uma entrevista histórica à Rádio Canadá, na época censurada pelo arcebispo de Montreal.

Nessa rara entrevista de 40 minutos, Simone de Beauvoir Fala (1959),  ela dribla seu interlocutor Wilfrid Lemoine, que tenta inutilmente expor as contradições entre o pensamento filosófico da autora e seu ativismo político em defesa de regimes não democráticos. Na época, confundia-se existencialismo com moda e “atitude” artística (a cantora Juliette Gréco era a “musa existencialista”). Beauvoir mostra seu desprezo por essa simplificação e reafirma o credo exposto em seu livro A Ética da Ambiguidade (1947) na absoluta liberdade garantida pela autonomia do indivíduo disposto a confrontar a sociedade.

Ainda no DVD foi incluída a entrevista que Jean-Louis Servan-Schreiber fez em 1975 com Beauvoir para seu programa de televisão, Questionnaire. Em Porque sou Feminista, a escritora fala mais longamente sobre seu livro O Segundo Sexo, discutindo a ressonância da obra entre ativistas da “segunda onda” feminista que eclodiu nos EUA nos anos 1960 e atingiu a Europa e a Ásia no anos 1970. Beauvoir, que teve influência determinante sobre o feminismo norte-americano (Betty Friedan e companhia), mostra-se mais lúcida e realista, ao defender os direitos das mulheres que trabalham em casa e cuidam dos filhos, ela que não casou, não teve filhos e defendia o amor livre.

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