'A política não está em primeiro lugar na obra de Havel'

Entrevista: Eva Batlickova, tradutora

Jefferson Del Rios - O Estado de S. Paulo,

25 Junho 2011 | 10h30

 

SÃO PAULO - Eva Batlickova é mestre em Filosofia e Literatura Portuguesa pela Universidade Masaryk, de Brno, República Checa. Em 2004, ela veio ao Brasil com uma bolsa para estudar seu conterrâneo, o filósofo Vilém Flusser (1920-1991), presença marcante na vida intelectual paulista durante 20 anos - colaborou com o Estado -, até 1972, quando regressou à Europa.

 

A rápida identificação com a cultura nacional, o casamento e uma filha definiram seu novo país. Vivendo em São Paulo, Eva está à frente, com o marido, José Roberto Barreto Lins, da editora Annablume, fundada por ele. A esta jovem de temperamento discreto se deve, finalmente, o conhecimento do teatro de Havel por aqui - o que atualiza o leitor/espectador brasileiro com a dramaturgia checa, até então visível pelo clássico O Bravo Soldado Schweik, sátira à 1.ª Guerra Mundial, de Jaroslav Hasek (1883-1923). Na entrevista a seguir, Eva, autora de A Época Brasileira de Vilém Fluser (Annablume, 2010) fala da obra de Václav Havel e relata o que significou passar a infância e a juventude em um regime fechado.

 

Na sua percepção, o que em Havel é mais evidente como crítica ao regime comunista em termos de enredo e personagens?

 

Para mim, é o clima de absurdo e constrangimento que estão nas peças. Havel começou a atuar intelectual e artisticamente nos anos 60, período de grande expectativa, que desaguou na chamada "Primavera de Praga", de 1968, e, em seguida, na derrota das forças democráticas pelo Pacto de Varsóvia, tropas dos países do Leste Europeu liderados por Moscou. Aí veio a segunda fase, a chamada "normalização", que nunca atingiu a violência dos processos stalinistas dos anos 30/40. A opressão tornou-se menos evidente, mais tolerável com o discurso demagógico sobre a ditadura do proletariado, sobre as fábricas pertencerem a todos, sobre a exploração do homem em países capitalistas. A isso se juntaram concessões sociais na área do ensino e da saúde pública e desemprego zero. Criaram uma situação que muitas pessoas aceitavam como normal.

 

Além da política, o que chama sua atenção na obra dele como estilo e poética?

 

Embora o papel de Havel como crítico do regime socialista seja incontestável, para mim a política em sua obra não está em primeiro lugar. Seu pensamento é profundamente filosófico ao abordar a existência humana que se depara, convive, luta ou se acomoda com as condições de opressão. Quando Havel conseguiu reconhecimento internacional, observou aos encenadores que "tudo o que parecer ao espectador de que a peça não tem nada a ver com ele, será contra o sentido dela."

 

A tirania comunista é contínua em suas obras, mas o leitor pode substituí-la por qualquer ditadura - seja militar ou de opressão econômica. A grandeza dessa dramaturgia não está só no conteúdo, mas na excepcional maestria formal. O trabalho com a linguagem é impressionante, inesperadamente divertido.

 

O que havia de pior para sua geração sob o stalinismo e como se manifestava a revolta?

 

Eu tinha 13 anos quando chegou a Revolução de Veludo e com ela o fim da ditadura. O medo acompanhou minha infância, mas nessa idade a revolta se restringia à circulação de livros e discos proibidos. O que teve importância fundamental na época da Revolução foi o movimento dos estudantes das grandes universidades em manifestações nas quais eles não se preocupavam com as consequências individuais - e, muitas vezes, o engajamento significou o fim dos estudos e a prisão. Foram eles, os estudantes, com dissidentes como Václav Havel, que deram a maior contribuição para a redemocratização da Checoslováquia.

 

Como surgiu o interesse pela língua e literatura portuguesa em Brno, a segunda maior cidade da então Checoslováquia?

 

Desde criança eu era atraída pela América do Sul. Na adolescência, a filosofia se tornou minha paixão. Comecei a estudá-la na Faculdade de Filosofia e Letras, porém, como não queria passar a vida na academia, escolhi mais um curso, o de Língua e Literatura Portuguesa, para poder viajar, traduzir, descobrir coisas novas, viver um pouco de aventura. Um dia, eu soube da possibilidade do intercâmbio com a PUC do Rio, prestei o concurso e ganhei a bolsa de estudos para um ano no Brasil. Assim conheci José Roberto e, agora, trabalhamos juntos na editora e nos divertimos com nossa filha checo-brasileira, Teresa. Nunca me arrependi de vir para cá - nem de ficar.

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