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A peste e o confinamento em Daniel Defoe

Defoe descreve a peste de seu tempo com três adjetivos recorrentes, monótonos: “Horrenda, atroz, lúgubre”

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2020 | 05h00

A covid-19 e os seus congêneres, vírus, bactérias ou micróbios, têm uma estranha propriedade: eles elevam ao paroxismo a atividade literária de suas vítimas. O confinamento é uma dádiva para tais criadores. Nestes momentos, imagino bandos de escribas curvados sobre o papel, fomentando uma avalanche de livros a serem publicados daqui a um mês ou um ano. Pouco importa. A maioria destes escritos desaparece assim como nasce. Foi desse modo que o pior livro de Albert Camus, A Peste, conheceu um sucesso póstumo.

Já dediquei duas crônicas a dois grandes escritores: Boccaccio, cujo livro sobre a peste negra em Florença, em 1349, O Decameron, marca o nascimento do “romance italiano”. E outra, a um dos maiores escritores franceses, La Fontaine, e sua fábula Os Animais Enfermos da Peste.

Hoje, há outro, o inglês Daniel Defoe (1660-1731), sucessivamente aventureiro, comerciante, agente político e grande escritor. Sobre o nosso infortúnio atual, ele escreveu não um, mas dois livros. O primeiro, Diário do Ano da Peste, e o segundo sobre o confinamento, Robinson Crusoe, lido no mundo inteiro e alçado à categoria de mito.

Na realidade, Defoe não chegou a conhecer a peste, que ambienta em Londres. Ele o compõe a partir de suas lembranças da peste de Marselha, alguns anos antes. Mas Defoe nem esteve perto da peste. Naquela época, a peste grassava o tempo todo. Londres sofreu quatro seguidas no século 17. Na do diário de Defoe morreram 70 mil pessoas. No mesmo século, a peste apareceu praticamente em todos os países da Europa.

Assim como a nossa covid-19, a de Defoe é uma doença ainda desconhecida. Ela é “arredia, a ponto de as vítimas morrerem sem saber por que morrem.” Língua nenhuma poderia nomeá-la, “esta febre é indizível“. É por isso que gera “inúmeros rumores insensatos”. Defoe a descreve com três adjetivos recorrentes, monótonos: “Horrenda, atroz, lúgubre”

Sendo um bom escritor, ele esboça cenas terríveis em poucas palavras: “Um homem queimou sobre o seu leito pela doença. Acho que ele mesmo ateou o fogo”. Ou ainda um quadro sucinto: “Uma família de nove pessoas morreu em algumas horas”. Ou ainda: “Um sujeito corre em direção ao Tâmisa, seguido por uma enfermeira aos gritos. O guarda se recusa a tocá-los com medo do contágio. O sujeito volta para a sua casa. Deita-se. E eis que é curado por seu próprio medo”.

Defoe desconfia dos boatos. Mas há um que considera ter fundamento. “Sou favorável a que se acendam grandes fogueiras nas ruas para exterminar o invisível”.

“Uma mulher sai para a rua aterrorizada. Um homem a detém e a abraça violentamente. Ela se debate. Ele a aperta cada vez mais, depois a solta. Conta que está com a peste. Ela cai desmaiada”. E uma observação de Defoe: Os relatos do contágio são mais cruéis do que o próprio contágio. Ele observa que muitos atrelam os cavalos às carroças e se dirigem para as florestas, onde acreditam que encontrarão a cura.

Defoe é um homem das “Luzes”,

Mas é um protestante e, como tal, quem sabe ainda não se curou totalmente dos vaticínios da Idade Média. Estes castigos são desencadeados por “aqueles que não podem ser conhecidos” para punir os homens “por suas paixões desregradas, suas cóleras violentas”.

Dentro de um século começará outra época, a das ciências, do microscópio, de Pasteur e de seus discípulos, das vacinas, da higiene, etc. Surgem então, mesmo nos espíritos esclarecidos novas explicações das catástrofes de hoje em dia, não pelo furor dos deuses contra os homens impuros e ímpios, mas por uma reação da natureza contra os suplícios aos quais os homens a submetem, a espezinham, a conspurcam, a humilham. É o que afirma o mais ilustre ecologista francês, o notável Nicolas Hulot, que se demitiu do cargo ao se dar conta de que Emmanuel Macron sempre se inclinará às ordens dos grandes poluidores, como por exemplo, os fabricantes, entre muitos outros, de fertilizantes devastadores. É a natureza que toma o lugar dos deuses. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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