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A persistência da memória

O jovem protagonista de 'Deserto', romance premiado de Luis S. Krausz, faz uma viagem entre o Brasil e Israel e de lá para a Inglaterra para conhecer a cultura, a religião e a história de sua família

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2022 | 03h00

Israel, 1977. Um garoto brasileiro de 16 anos falando um alemão antigo de Viena de antes da guerra está no país para “ajudar na colheita de frutas cítricas, aprender sobre a história do país, horrorizar-se com as atrocidades do genocídio, convencer-se sobre a vanidade da Diáspora” e, quem sabe, “emigrar para Israel”. 

Ele integra um grupo formado por outros jovens brasileiros, também judeus, que, agora que terminou toda a programação oficial, incluindo essa temporada na escola agrícola e viagens pelo país de seus antepassados, poderiam escolher entre voltar para casa ou passar mais duas semanas ali, com algum familiar. Só tinha uma regra: ninguém poderia viajar para a Europa. Ir à “terra interdita das tentações burguesas” poderia, acreditavam os organizadores da “excursão”, “desviar um judeu jovem e ingênuo do caminho reto do sionismo”. 

Mesmo com essa interdição, o protagonista de Deserto, romance de Luis S. Krausz inspirado em sua própria experiência e vencedor, em 2013, do Prêmio Benvirá de Literatura, embarca para Londres. Era seu sonho.

Volto a esse delicado livro sobre um menino conhecendo um novo mundo e convivendo com uma família desconhecida e ao mesmo tempo conhecida (porque lembrava tanto os que tinham ficado no Brasil) depois de conversar com o autor, que é professor de literatura hebraica e judaica da USP, para uma matéria publicada aqui, domingo, sobre os 80 anos de O Diário de Anne Frank. E depois de uma entrevista com o escritor israelense David Grossman, publicada no sábado, que encerrou a conversando dizendo: “Toda nossa vida é de luta e esse é um jeito triste de olhar a vida”.

Neste breve romance em que rememora sua experiência como jovem brasileiro em Israel e na Inglaterra, Krausz revisita a história de sua família – seus deslocamentos e destinos, seus fantasmas e o “fardo invisível” – de toda a luta.

Deserto dura apenas duas semanas – período em que o personagem se hospeda na casa de familiares distantes em Tel-Aviv e em Londres levando consigo A Metamorfose, de Kafka, e uma bolsinha de crochê feita pela avó para esconder dinheiro, documento e a passagem para a “terra prometida da cultura”. 

À mesa com o tio-avô ou tio-bisavô, ele observa, busca se localizar e busca uma identidade. Há um desconforto ali, um estranhamento. Ele fala sobre o vazio que sente nas pessoas – “como se de cada família tivesse sido arrancado, ainda há pouco, um membro querido, cuja saudade ocupava um espaço imenso e não deixava lugar para mais nada”. E sobre o silêncio por meio do qual memórias que foram caladas são herdadas, e persistem.

SERVIÇO 

DESERTO 

LUIS S. KRAUSZ

BENVIRÁ

152 PÁGINAS 

R$ 24 / R$ 16 (o E-book) 

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