Jason Henry/The New York Times
Jason Henry/The New York Times

A nova odisseia no espaço de Andy Weir

Para um escritor de ficção científica que privilegia mais os fatos do que a ficção, Weir dá um salto à frente na ficção científica com seu novo romance 'Project Hail Mary'

Alexandra Alter, The New York Times

18 de maio de 2021 | 10h00

Quando Andy Weir estava escrevendo seu novo romance, Project Hail Mary, deparou com um problema espinhoso de física.

A história do livro se desenrola num tipo de espaço que devora a energia do sol, ameaçando toda a vida na Terra e que avança carregando e esmagando os neutrinos com ele. Weir tinha de imaginar quanta energia seria produzida por duas dessas partículas subatômicas em colisão.

“Estava tendo dificuldade para encontrar informações a respeito e a razão disso é que as pessoas não têm um conhecimento pleno do assunto. Quero dizer, estamos chegando no limite do conhecimento humano nessa questão”, disse ele numa entrevista à distância no mês passado, falando de sua casa em Saratoga, Califórnia.

“Neutrinos são as menores partículas subatômicas e muito difíceis de manejar e que na realidade nunca conseguimos provar que existem”.

Muitos autores de ficção científica divagam mais do lado da ficção do que da ciência. Mas Weir nunca se satisfez com soluções fictícias para dilemas científicos. E acabou resolvendo o número que precisava para uma simples sentença - 25.984 mícrons - e no processo aprendeu muito sobre neutrinos.



“Você tem algo como 100 trilhões de neutrinos passando por você, pessoalmente, a cada segundo. Apenas sendo emitidos pelo sol”, disse ele.

É nesse sentido que o bate-papo com Weir, 48 anos, tende a ir. Uma pergunta sobre a trama vai provocar uma resposta perturbadora, uma torrente de fatos esotéricos intercalados com piadas despretensiosas e blasfêmias casuais.

Weir fez nome entre os fãs de ficção científica por suas explicações alucinantemente detalhadas da física quântica, química, engenharia, aerodinâmica e ciência dos foguetes na base das tramas dos seus romances. Quando estava escrevendo seu livro de estreia, um grande sucesso de vendas, O Marciano, ele criou um software para calcular as trajetórias constantes de um motor de íon de uma nave espacial, estudou imagens de satélite da Nasa ara mapear o caminho de mais de 3.200 quilômetros do seu personagem astronauta em Marte e ofereceu uma fórmula detalhada de como produzir água a partir do hidrogênio e da hidrazina.

No seu segundo romance, Artemis, um thriller sobre um assalto que ocorre na lua, ele imaginou como os colonos lunares conseguiam produzir oxigênio e alumínio com a fusão de um mineral chamado anortita, e calculou o custo de transportar vários produtos para a lua (US$ 4.653 por quilo).

Weir literalmente usa primeiro a matemática para sua ideia e depois cria o drama em torno disso”, afirmou Aditya Sood, produtor que trabalhou na adaptação de O Marciano para o cinema, em 2015 (Perdido em Marte é o título do filme no Brasil). Para um escritor de ficção científica que privilegia mais os fatos do que a ficção, Weir dá um salto à frente na ficção científica com seu novo romance, que a Ballantine publicou recentemente. Ambientado em outro sistema solar, Project Hail Mary tem início com o narrador, Ryland Grce, acordando no que parece um quarto de hospital, com os restos mortais de dois colegas da sua tripulação. Ele imagina estar numa nave espacial e à medida que sua memória retorna,  percebe a magnitude da sua missão: a Terra e seus habitantes se deparam com a extinção com microrganismos alienígenas devorando os fótons do sol e, para salvar a humanidade, ele tem de encontrar uma cura em outro sistema solar.

 


Mesmo com um cenário improvável como esse, Weir estava determinado a que a matemática e a física de partículas fossem precisas a nível quântico em seu romance. Mas se preocupa de que pode afastar algumas pessoas com uma história que trata de viagens espaciais, alienígenas e uma missão absurdamente de alto risco. “Não quero afastar meus leitores com algo exageradamente fantástico”, disse ele.

Depois de O Marciano e sem saber ao certo o que faria em seguida, ele começou a compor uma ópera espacial chamada Zheck, explorando a ideia de que uma substância chamada de matéria escura conseguia absorver radiação eletromagnética e ser usada para criar combustível à base da energia para as viagens interestelares. Escreveu 75.000 palavras até que se viu bloqueado.

“Então percebi que havia um problema, a história era horrível”, disse ele. Enviou um e-mail ao seu editor pedindo desculpas, abandonou o projeto e começou a escrever Artemis.

O ano que passou escrevendo Zheck não foi totalmente perdido. Ele salvou algumas partes da história para Project Hail Mary, incluindo um burocrata implacável que deseja sacrificar alguns humanos para salvar a humanidade, e sua ideia de uma substância misteriosa que absorve energia. Mais tarde, ele concebeu a premissa do romance: um personagem que acorda só numa nave espacial e tem de resolver o mistério de como chegou ali.

Alguns leitores acharam a história sinistramente relevante: uma praga desenfreada, isolamento forçado, um esforço global dos cientistas para desenvolver uma nova tecnologia salvadora de vidas.

“As pessoas disseram, ‘este é nitidamente um livro que tem analogia com a covid”, disse ele.

Weir não teve intenção de escrever uma parábola da pandemia - terminara o esboço do livro meses antes de o coronarívus atingir os Estados Unidos - mas concorda que os paralelos são um tanto perturbadores. “É uma coincidência, mas sim, o isolamento é horrível”, afirmou.

Weir não estava tão isolado agora como quando escreveu O Marciano. Depois de o livro ser publicado ele se encontrou com sua mulher, Ashley, em um restaurante em Los Angeles para discutir uma série de TV, e se tornou uma quase celebridade entre os astronautas e astrofísicos que idolatra, e se conectou a uma rede de cientistas e físicos da Nasa que respondem a seus e-mails e está trabalhando em outro projeto secreto para as telas na Universal Pictures com Sood, o produtor de O Marciano e Hail Mary.

Mas se mostrou reservado quanto a descrever seu próximo livro - após o desastre de Zheck acha que falar demais pode ter um efeito adverso, mas qualquer coisa que escrever terá relação com as leis da física conhecidas.

“O mundo real é muito mais rico e mais complexo do que qualquer escritor pode inventar. Quando me atenho à ciência real e à física real deparo com tramas que jamais teria imaginado”.


Tradução de Terezinha Martino

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