Carlos Fausto
Carlos Fausto

A neta do jaguar

Antropóloga Aparecida Vilaça prepara novo livro em que narra vida na família indígena que a adotou

Rodrigo Esteves Lima, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2017 | 12h53

Em famosa passagem de Duas Viagens ao Brasil, o alemão Hans Staden narra no século XVI um episódio de antropofagia tupinambá: o chefe Cunhambebe tinha diante de si um grande cesto cheio de carne humana. Comia de uma perna, segurou-a em frente à sua boca e perguntou se Hans também queria comer. Respondeu: “Um animal irracional não come um outro igual a si, e um homem deveria comer outro homem?” Então ele mordeu e disse... “Sou uma onça. É gostoso…”

A cosmovisão indígena opera de uma forma diferente da ocidental. Para os nativos o canibalismo é apenas mais um tipo de relação de predação, já que para eles, em certa medida comer qualquer espécie de carne, é um ato de canibalismo.  Isso porque os animais veriam a si mesmos como gente, vivendo em casas, cuidando de suas famílias, saindo para caçar, preparando o seu alimento, fazendo festas. Para os índios, a humanidade não é um dado, um atributo com o qual se nasce, mas uma posição, que pode ser ocupada por eles mas também pelos animais.

Foram necessários mais de quatrocentos anos até que o preconceito contra a antropofagia ameríndia começasse a ruir e o leque de possibilidades oferecido pelas cosmologias indígenas fosse aberto. Atualmente, as metafísicas canibais figuram como contribuição sólida ao pensamento ocidental e muito disso se deve a grande repercussão de uma teoria conhecida como perspectivismo ameríndio, associada aos nomes dos antropólogos Eduardo Viveiros de Castro, Philippe Descola  e Aparecida Vilaça.

Bióloga de formação, Aparecida acabou se tornando antropóloga “por acidente”. Apaixonada por florestas desde a infância, trabalhava realizando o mapeamento de reservas florestais para a antiga Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente, a FEEMA. Lá, começou a lutar contra a remoção de pescadores da Praia do Aventureiro, em Ilha Grande, litoral do estado do Rio. “Entendi que aquilo era absurdo, então procurei justificar a presença daquela população ali”, disse. Começou então a catalogar genealogias, coletar histórias de vida do povoado. No final teve sucesso. Aventureiro se tornou uma área de preservação ambiental e a população foi mantida.

Foi então que um amigo, José Carlos Rodrigues, professor da Escola de Comunicação da UFRJ, lhe disse que o que estava fazendo era antropologia, que poderia fazer um curso para melhorar sua formação. Aparecida ingressa então no programa de pós graduação em antropologia do Museu Nacional desejando aprofundar o estudo da colônia de pescadores, porém quando se matriculou na disciplina de Eduardo Viveiros de Castro ficou fascinada com o pensamento ameríndio ao ler O Cru e o Cozido, de Claude Lévi-Strauss e intimou Viveiros de Castro a lhe orientar: “Mas vai ter de estudar índio”, disse o professor, “não seja por isso!”, respondeu a aluna, sem pestanejar. Alguns meses depois ela pegaria um vôo para Rondônia, deixando o Rio de Janeiro para trás para dedicar-se ao estudo dos Wari’, tribo indígena que habita uma área próxima à fronteira com a Bolívia, nos afluentes do rio Pacaás Novos, tributário do rio Mamoré.


“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.”

(Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago)


Ao chegar à aldeia Rio Negro-Ocaia em 1986, Aparecida foi acolhida como filha por Wan e’, xamã-queixada, e como neta por Orowam, um xamã-onça. Para os Wari’ todo ser humano tem um duplo animal, que pode ou não ser ativado ao longo de sua vida. Os xamãs, tendo o duplo sempre ativado, são capazes de transitar entre os dois mundos, sendo ora animal, ora humano. Certa vez Orowam, como onça, quase atacou seu neto Abrão, que, por uma deficiência do olhar, ele passou a ver como presa.

Da mesma forma que seres humanos, quase todo animal tem um duplo que pode atuar como humano. Uma das poucas exceções são os macacos-aranha. Pergunto qual o motivo de serem desprovidos de humanidade, ao que a resposta é óbvia: “os macacos-aranha no passado muito antigo raptaram mulheres wari’ e levaram-nas consigo, transformando-as em macacos-aranha”. Desde então eles não têm mais relações com os Wari’, a espécie como um todo deixou de ser humana. Os wijam (inimigos), assim como os animais, também eram Wari’, mas com o passar do tempo foram se distanciando da tribo até serem desumanizados.

Até pelo menos o ano de 1961, os Wari’ praticavam o canibalismo funerário, em um ritual elaborado. Assim que alguém falecia eram enviados emissários para aldeias wari’ vizinhas, de modo a avisar e buscar os parentes do morto para o velório. Uma vez chegados todos os familiares, tempo que demorava de dois a três dias, o corpo era velado com muito choro. Alguns dos familiares poderiam se colocar debaixo do falecido, como que para pegar suas últimas secreções, aproveitar até a última gota a presença do parente. As vísceras então eram removidas, o corpo era cortado e assado numa fogueira. Parentes podiam tentar se jogar na fogueira, querendo fazer a passagem para o outro mundo junto com o familiar, mas geralmente eram impedidos pela comunidade. Assado, o corpo deveria ser ingerido por conterrâneos que não fossem parentes próximos, não com prazer, até porque muitas das vezes a carne já estava podre, mas procurando mostrar aos parentes que o que estava ali não era mais o ente querido, mas um cadáver. Tampouco se podia mostrar prazer ao comer, como quando se come carne de caça, pois era deselegante. Os parentes, ressentidos pela perda e incapazes de dissociar o corpo do ente querido, não comiam, .

A prática foi suspensa após a chegada das equipes de pacificação, formadas por agentes do Serviço de Proteção ao Índio e missionários cristãos. No início, esses agentes ordenavam o enterro dos mortos e cercavam o túmulo com homens armados para impedir a aproximação dos índios, que, sempre que tinham a oportunidade, chegavam a exumar o corpo até três dias depois da morte para praticar o ritual. O ritual era importante por realizar a passagem para o mundo subaquático, para onde os Wari’ deveriam ir depois de morrer. Atualmente alguns jovens wari’ começam a questionar a própria existência do ritual antropofágico no passado, preocupados em “purificar” sua história, reescrevendo-a a partir da moral dos brancos..

Tomando parte nessa vida relacional, Aparecida vivia como filha de Wan e’. Infelizmente, apenas seis meses depois de sua segunda estadia ali, o xamã morreu, deixando-a brevemente órfã. A antropóloga seria finalmente adotada pelo irmão mais novo de Wan e’, Paletó, em um processo que se intensificou quando o chamou de pai pela primeira vez, pedindo que ele lhe alimentasse (como mandam os costumes wari’) quando, em uma viagem de barco pelo rio Pacaás-Novos, ficaram sem provisões.

“Paletó era uma pessoa de inteligência muito acima do comum”, disse Aparecida. O seu verdadeiro nome era Watakao’, mas poucas vezes era chamado assim. Ganhara o apelido depois do contato com os brancos, quando lhe forneceram roupas (os Wari’ viviam completamente nus) e se encantou com um paletó, que vestia diretamente sobre o corpo, sem nenhuma outra roupa cobrindo pernas ou torso.

Seguindo essa lógica relacional, ao tornar-se filha de Wan e’ e depois de Paletó, ganhou não somente os pais, mas também mães, irmãos e sobrinhos; ao tornar-se parente de um torna-se parente de todos, é uma expansão familiar. Visitando sua casa no Rio de Janeiro, Paletó passou a chamar o pai da antropóloga de “irmão mais velho”, e “ainda que não pudessem se comunicar, pois Paletó só compreendia o idioma wari’,  tinham muito carinho um pelo outro”, diz.


“Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.”


Quando entrou em contato com os wari’ pela primeira vez, em 1986, a maior parte da população não se dizia cristã, a despeito da presença de missionários desde 1956. Em janeiro de 2002 começou a perceber Paletó saindo de casa de noite indo para o culto envergonhado, pois sabia que Aparecida não gostaria disso. Tendo sido cristãos por toda a década de 1970, e desistido dessa religião no início dos anos 1980, o revivalismo do cristianismo ocorreu depois do atentado às torres gêmeas no dia 11 de setembro de 2001, que acompanharam através da televisão comunitária da aldeia. Pastores então disseram que começaria a guerra do fim do mundo e que quem não fosse crente não seria salvo.

“É uma violação aos direitos constitucionais, à integralidade da cultura nativa, ao respeito aos seus costumes, uma violação frontal ao direito à diferença”, disse a antropóloga sobre o trabalho desenvolvido por missionários entre grupos indígenas. A conversão religiosa muda diversos aspectos do pensamento indígena. Assim, por exemplo, não há, entre a maioria dos povos amazônicos, uma ideia de criação a partir do nada. O universo existe desde sempre, embora sujeito a constante transformação. Além disso, a crença em Deus é indissociável de uma noção de natureza préviamente dada, cuja criação é narrada no Gênesis, e que é incompatível com o pensamento perspectivista nativo, para o qual o mundo varia de acordo com o ponto de vista.. O cristianismo introduz ainda a noção de indivíduo, que se relaciona consigo mesmo e com Deus, ideia alheia a esses povos.

De acordo com a pesquisadora, os indígenas se convertem sobretudo pelo medo do inferno. O medo relaciona-se à idéia de que ali iriam ser assados para sempre no fogo, da mesma maneira que ocorre com a caça. A condenação ao inferno é uma desumanização, uma perda definitiva da posição de humano que os Wari’ buscam em vida.

Apesar de ser veementemente contra a presença dos missionários, Aparecida não defende sua expulsão do território wari’, porque isso seria ir contra a vontade dos índios hoje, que, depois de tantos anos de catequese, dizem-se cristãos e apreciam a presença dos missionários. Ela ressalta no entanto a diferença entre os processos de entrada de missionários e antropólogos na tribo. O missionário entra geralmente sem passar por procedimentos de controle dos órgãos governamentais, graças à simpatia da população, enquanto o pesquisador precisa passar pela aprovação de órgãos de pesquisa e da FUNAI e por um comitê de ética, além de fazer exames médicos. “Não vejo nada de positivo no trabalho realizado pelos missionários, é algo invasivo, que não respeita o direito à autonomia desses povos”, acrescentou.


“Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.”


Muitas coisas já haviam mudado quando chegou à aldeia em 1986. Paletó, por exemplo, já andava completamente vestido. Se antes os Wari’ guerreavam com inimigos, hoje eles enfrentam a diabetes, a pressão alta e a obesidade, frutos de uma alimentação repleta de refrigerantes, macarrão e leite em pó. Originalmente os Wari’ consumiam principalmente milho, de que faziam pamonha e chicha, bebida que pode ou não ser alcóolica, conforme mandar a ocasião.

As casas, antes altas, feitas com troncos de árvore e cobertas com folhas, hoje são quase todas de alvenaria com telhado de eternit. Devido ao calor alguns acabam construindo uma casa de palha ao lado para arejarem-se.

Forçados a viverem no entrelugar da cultura branca e da indígena, os Wari' se tornaram espécies de xamãs, alternando entre diferentes modos de ser: enquanto estão com os brancos têm um lado branco, o que não significa que deixaram de ser Wari’ e vice-versa. Os índios podem alternar o modo de agir, de alimentação e de falar, o que não quer dizer que haja aí uma perda de identidade.


“Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa.”


Assim como diversas outras comunidades indígenas, os Wari’ também sofreram muita perseguição por grileiros, madeireiros e seringueiros. Paletó perdera pai, mãe, esposa e dois filhos num massacre cometido por seringueiros quando ainda era jovem. Quando foram “pacificados” em 1961, dois terços da população faleceu em meio a assassinatos e doenças. Diante de tamanha catástrofe os índios não podiam sequer realizar o ritual funerário, sendo forçados a deixarem seus mortos para trás.

Hoje os índios tomaram as rédeas das coisas, e, sempre que podem, decidem a quem é permitido ou não viver entre eles . Entretanto, ainda enfrentam problemas: no início dos anos 2000 a população pediu a revisão da demarcação do seu território, e, após um levantamento coordenado por Aparecida, um laudo a favor dos novos limites foi publicado no diário oficial da união em 2008. A revisão, porém, jamais foi assinada pela então presidente da república. Com cortes recentes nas equipes de monitoramento da FUNAI, Aparecida teme que o governo esteja perpetuando uma política de extermínio velada, sendo conivente com a entrada de invasores.


“Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.”


No último dia 13 de outubro, Aparecida foi convidada para apresentar a primeira conferência do ciclo de palestras homenageando Lévi-Strauss no Collège de France, instituição parisiense que já teve como palestrantes grandes nomes como Roland Barthes e Michel Foucault. Na conferência intitulada “O diabo e a vida secreta dos números: transformações e traduções na Amazônia”, procurou mostrar através do método de Lévi-Strauss como percursos distintos podem levar às mesmas conclusões. A antropóloga reafirma sua dívida com o intelectual francês: “cada vez que eu leio as Mitológicas percebo que está tudo ali.”

Partindo de uma releitura de um dos livros dessas obra, A origem das maneiras à mesa, Aparecida chega ao momento em que Lévi-Strauss cunha o conceito de derivações aberrantes, ao perceber que a aritmética de alguns grupos indígenas da América do Norte calculava o número oito como “seis mais dois”. Lévi-Strauss explica essas derivações a partir da mitologia, mostrando que há, entre os índios, uma teoria numérica propriamente dita, que não pode ser desvinculada de outros códigos, tais como os sociológicos e os cosmológicos.

Ao analisar seus dados, Aparecida percebeu que os Wari’ tinham um sistema de mensuração muito relativo, sem preocupação em delimitar quantidades precisas. Os Wari’ fazem parte de um vasto conjunto de grupos indígenas que só contam até dois, sendo o sistema de contagem “um, dois e muitos”. “A matemática amazônica é uma história do um e do dois”, disse. Acompanhando o aprendizado dos indígenas em escolas, percebeu que os Wari’ começaram a inventar números, algo que nunca havia lhes perturbado.

Aparecida procede então mostrando a matemática indígena como contendo uma filosofia diferente da nossa, impregnada e imiscuída a outras coisas, um pensamento que não separa, como o nosso, uma ordem da matemática, saber que consideramos independente do mundo perceptivo e das relações sociais. “A noção de diferença é o que move o pensamento ameríndio, um pensamento não do um, mas do dois, sendo que este já se abre para o exterior e para a multiplicidade”, disse a antropóloga.


“O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.”


Em um conhecido trecho de Tristes Trópicos, Lévi-Strauss narra que se na descoberta da América os europeus indagavam questões metafísicas, perguntando-se se os índios teriam alma; os índios, por sua vez preocupavam-se com o corpóreo, apelando para a empiria ao ferver corpos de europeus, verificando se putrefaziam-se. Se até pelo menos os anos 1970, as sociedades amazônicas eram pensadas como meio amorfas, pois não se encontrava nelas os sistemas de linhagem que caracterizavam as sociedades africanas, ou um circuito do dom tal como descrito para as sociedades do Pacífico, regiões que serviam como modelo para a elaboração dos conceitos antropológicos, as etnografias daquela década deixavam claro que havia sim um princípio organizador : o corpo. Menos que o pertencimento a grupos formalizados, a uma personificação dos objetos, o corpo humano é seu material de reflexão.

Para os Wari' características emocionais dizem respeito ao corpo, que é a sede do que é pessoa,. “Afinal quem é você, como você é por dentro? São perguntas estranhas ao Wari'”, disse a antropóloga. Esse pensamento expressa-se na linguagem, uma vez que ao invés de conferirem adjetivos à pessoa, dizendo que “a pessoa tal é dessa maneira”, dizem “o corpo dela é assim”.

          


“Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.”


De acordo com a antropóloga, no cristianismo a ideia de dualidade é vista como maligna, prevalecendo a ideia de identidade, da unidade. Lembremo-nos de que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, ou então do geraseno, que dizia "Legião é o meu nome, porque somos muitos." Essa noção é um tanto quanto complicada de ser trazida para povos como o Wari’, para quem a ideia de pessoa está tão intimamente ligada à duplicidade, à alternação constante de perspectivas experimentada durante a vida..

Se o cristianismo tenta introduzir a questão identitária aos índios, ele vem acompanhado de um grande porém: o diabo, que é, em si, o grande trickster cristão. O diabo cristão desde o Éden entra e opera através dos animais, sendo um duplo opondo-se ao divino, diferenciando-se dele e oferecendo a possibilidade do retorno ao dois. A própria exegese cristã permite então um retorno ao perspectivismo, à ideia de uma humanidade expandida que inclui os animais, o que não agrada aos missionários.


“Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?”


No pensamento perspectivista o que importa é a eficácia, não uma ideia de verdade. É funcionalista, não verificacionista. Não existe a ideia de um mundo universal, o mundo deles não é a nossa natureza. Não há interesse em dogmas ou em leis, e costumam conviver bem com uma profusão de opiniões. Algumas vezes não há nem mesmo um consenso sobre para onde os mortos vão depois que morrem.

Apesar de ter sido muito criticado na contemporaneidade por ser supostamente muito dogmático, Aparecida defende o estruturalismo: “o estruturalismo guia o olhar para os sistemas de transformação, para aquilo que permanece, como permanece, e para como a transformação se dá com a permanência.” Mais do que a busca por estruturas invariantes, ser estruturalista é buscar a transformação.


“Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.”


Diferindo das etnografias chamadas “duras”, de difícil leitura para o leitor comum, Aparecida está preparando um livro em que pretende tratar da vida dos Wari’ a partir do relato da sua relação de 30 anos com o seu pai Paletó. Com redação de estilo mais literário, afirma que “a ideia desse livro foi uma forma de lidar com o meu luto, além de um projeto de falar dos Wari’ para um público maior”.

Paletó morreu em  janeiro deste ano e no dia seguinte Aparecida começou a escrever. Tendo gravado mais de 50 horas  de entrevistas com Paletó, a obra contará uma rica biografia de um grande homem e de sua família, que inclui a antropóloga. O livro já está bem adiantado, diz a antropóloga , embora não tenha ainda um título definitivo..


“A alegria é a prova dos nove.”


Convivendo com os Wari’ por tanto tempo, a coisa de que Aparecida mais se lembra são das risadas. Costumava ouvir as pessoas dentro das casas gargalhando,  e a impressionava que mantivessem o bom humor mesmo depois das experiências de epidemias e massacres que haviam sofrido 30 anos antes. Paletó adorava brincar e nos fazer rir com suas piadas e elocubrações sobre coisas sobre o que havia visto e sobre as coisas desconhecidas. Em sua primeira viagem aos Wari’ uma menina, orientada por seus pais, que queriam fazer da antropóloga uma pessoa de verdade, que visse como gostosos os alimentos apreciados por eles, pegou um orojat (larva de inseto local geralmente comida assada) completamente cru, ainda se mexendo e disse-lhe para comer. Para alegria de todos, a antropóloga comeu (e gostou! disse que parecia azeitona), o que deixou a todos contentes, exclamando que ela havia se tornado completamente wari’.

Apesar do gosto gastronômico não tão ortodoxo, Aparecida diverte-se com pequenos prazeres comuns: é fã do sempiterno prêmio nobel porvir, Haruki Murakami, “li e reli mais de uma vez todos seus livros!” e tem um iPod em seu carro em que só escuta Beatles e Bob Dylan. Diz que “tive uma fase Ingmar Bergman muito forte quando adolescente” e é fã do cinema asiático, em especial dos filmes de Kim Ki-Duk e Yasujirô Ozu. Se o gosto cinematográfico pode parecer muito erudito, Aparecida despretensiosamente lembra dos seus gostos triviais, exclamando com vigor adolescente: “ Ah! Eu gosto dos livros do Bukowski! Adoro, já li todos, sou apaixonada!”

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