Ama Obiols
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'A literatura não tem missões, mas possibilidades', diz Alberto Manguel

Em ‘Encaixotando Minha Biblioteca’, autor fala sobre a relevância do livro à sociedade

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2021 | 05h00

Apaixonado por livros, o escritor argentino Alberto Manguel construiu, ao longo dos anos, uma das bibliotecas privadas mais conhecidas do mundo, famosa pelo conteúdo e pelo que simboliza. São aproximadamente 35 mil volumes, com destaque para raridades como o primeiro manual de tipografia e ortografia, publicado em Veneza no século 16, ou uma Bíblia escrita à mão em um pergaminho, de um escritório alemão no século 13. 

Há também aqueles volumes cujo valor é mais sentimental, como uma obra que Jorge Luis Borges comprou em 1932 e no qual esboçou a história do conto A Busca de Averróis, do livro O Aleph – uma amizade fraterna uniu os dois autores, pois Manguel, quando adolescente, lia textos em voz alta para Borges, que ficara cego.

A fascinante coleção de livros, no entanto, não teve muitos momentos de paz, obrigada a ser transportada, ao longo de décadas, para diversas cidades de diferentes países. Assim, em 2015, quando se preparava para deixar sua casa medieval no Loire, na França, e rumar para um apartamento em Nova York, que não comportaria tal tesouro, Manguel começou a relembrar os títulos e as bibliotecas que ajudaram na sua formação intelectual, reminiscências que se transformaram no pequeno e simpático volume Encaixotando Minha Biblioteca, que a Companhia das Letras acaba de lançar.

São digressões que revelam o profundo embasamento característico de sua prosa, observado tanto nas reflexões sobre as idiossincrasias de bibliófilos como ele até em análises rigorosas de eventos marcantes, como o incêndio que consumiu a antiga Biblioteca de Alexandria, no ano 48 a.C., destruindo um dos mais significativos e célebres centros de conhecimento humano de que se tem notícia.

O contato de Manguel com o livro vem da infância. Nascido em Buenos Aires em 1948, viveu em Israel e Taiti até se mudar, nos anos 1980, para Toronto, onde se tornou cidadão canadense. Aprendeu a ler por volta dos 3 anos e nunca mais parou. Em cada cidade, acumulou uma quantidade considerável de obras até chegar, em 2000, à casa medieval na França, um presbitério construído no século 16. 

Ali parecia ser finalmente o porto seguro de sua biblioteca, mas desentendimentos com o governo francês – que fez exigências ridículas, como apresentação de nota fiscal da aquisição de cada livro – obrigaram-no a fazer nova mudança, em 2015, quando deixou os livros encaixotados no Canadá enquanto dava aulas nas universidades americanas de Columbia e Princeton.

A “ressurreição da biblioteca”, como o próprio Manguel diz, aconteceu no ano passado ao receber um convite de Portugal – mais precisamente do Palácio dos Marqueses de Pombal, na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa – para dar um abrigo digno e definitivo a seu precioso acervo – os 35 mil volumes serão o destaque do Centro de Estudos da História da Leitura, a ser inaugurado no ano que vem. 

Um grande alívio para um crítico que constrói seu trabalho à medida que se aprofunda na leitura. Todos os dias, por exemplo, o escritor argentino busca manter um hábito que lhe alimenta o espírito: ler ao menos um capítulo de A Divina Comédia, poema de viés épico e teológico escrito por Dante Alighieri no século 14. A riqueza do texto, que sempre trazia alguma novidade a cada leitura, o incentivou a escrever Uma História Natural da Curiosidade (Companhia das Letras), livro de 2016 em que mapeia os textos que o inspiram como leitor. E o ponto de partida são justamente as 17 questões propostas por Dante na Divina Comédia.

Tal convivência com os livros rendeu até uma ocupação para Manguel em 2018, quando foi convidado para dirigir a Biblioteca Nacional de Buenos Aires, posição que também já foi ocupada por Borges. Como ele, Manguel traçou um vasto caminho oferecido pelos livros, especialmente na obra Uma História da Leitura, lançada aqui em 1997 e na qual se encontram o encantamento com o aprendizado da leitura, o desejo compulsivo de se ler tudo (livrinhos de escola, cartazes de rua, rótulos de remédio), o prazer de acompanhar a multiplicação dos significados de uma palavra, e o da descoberta do final da história. 

Sobre a sua biblioteca em Portugal, que ele poderá consultar sempre e quando quiser segundo assegurou Fernando Medina, diretor da instituição, Alberto Manguel respondeu, por e-mail, às seguintes questões do Estadão.

Como você organizou seus livros? O gênero literário foi determinante para lugares específicos?

Não. Meus livros foram organizados principalmente pelo idioma em que foram originalmente escritos, de forma que Madame Bovary em francês estava com sua tradução para o espanhol ou norueguês. Não acredito em gêneros literários.

Não é possível ter todos os livros que se deseja – quais livros você gostaria de ter?

Os que ainda não descobri. E também muito mais literatura de cordel que coleciono, principalmente do século 19.

Existem livros em sua biblioteca que você associa a fases específicas de sua vida? Um livro que remonta imediatamente à sua infância, por exemplo?

Tenho uma edição alemã dos Contos de Grimm com ilustrações fúnebres e caligrafia gótica. Esse é um livro que marcou minha infância com seus medos e suas mortes e suas aventuras mágicas. Também as histórias de Monteiro Lobato (em espanhol), que li com prazer desde os nove anos.

O isolamento causado pela pandemia permitiu que você fizesse descobertas literárias?

Não especialmente, mas me permitiu ler de forma mais sistemática, pois perdi a noção de tempo convencional: não sabia que dia da semana era e, às vezes, nem a hora. A pandemia me permitiu voltar às crônicas de outras pandemias, como O Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe, Os Noivos, de Alessandro Manzoni, e A Peste, de Albert Camus. Também descobri o melhor diário desta pandemia contemporânea: Quel Che Stavamo Cercando (O que estávamos buscando, em tradução livre), do italiano Alessandro Baricco.

Uma biblioteca deve buscar a imortalidade?

Uma biblioteca não pode ser armada com essa intenção, mas com essa esperança. É a única imortalidade que não é permitida: a de um livro. Mas não podemos saber qual.

Os livros têm alma como os seres humanos?

Não sei o que você quer dizer com “alma”. Acredito, como Santo Tomás de Aquino, que alma e corpo são uma unidade. Em vida. Depois, não podemos saber... O mesmo vale para um livro.

Acredito que todos seus livros são considerados importantes, mas o que dizer sobre a Bíblia?

A Bíblia parece uma invenção do OuLiPo, corrente literária criada em 1960 e cujos membros inventaram regras para escrever seus livros e produziram obras como as de Italo Calvino ou Raymond Queneau. Na verdade, Se Um Viajante Numa Noite de Inverno, de Calvino, segue o modelo da montagem da Bíblia: um conjunto de textos heterogêneos unidos por um título comum. A Bíblia reúne contos populares, fábulas fantásticas, crônicas históricas, poemas eróticos, coleções de ditos, histórias de ficção científica, escritas por pessoas diferentes em épocas diferentes e reunidas sob a assinatura de um único Autor.

Suas leituras constituem um conjunto de espelhos nos quais cada momento e cada lugar de sua biografia está presente?

Inevitavelmente. Eu sou um canibal de mim mesmo.

Em seu livro 'A Biblioteca à Noite', você diz que os livros transmitem a voz das vítimas, dos derrotados. Esta é uma das missões da literatura?

A literatura não tem missões, oferece possibilidades. E essa é uma dessas possibilidades.

Leia um trecho de 'Encaixotando Minha Biblioteca'

“Colecionar: exercer controle sobre o que é insuportável”, diz Ruth Padel. Acho que esse sempre foi um desejo irrealizado no meu relacionamento com os livros. Presentes como objetos sólidos, imaginamos os livros como inertes e passivos, e tão desprovidos de intelecto que nos permitimos dotá-los de significados de nossa própria lavra. À pergunta dos samaritanos: “Podem essas pedras viver?”, respondemos: “Sim”, e tratamos de fazer dos livros nossos amigos íntimos, transformando-os em presenças em meio às quais residimos. Na minha biblioteca, eu me sentia cercado por essa “maioria silenciosa” (como Homero chamava os mortos), um vasto rebanho de páginas que guardavam a chave para meu passado e instruções para meu presente, assim como amuletos úteis para os rituais cotidianos. Todos eles, exceto por suas sombras vagamente relembradas, estão agora perdidos, ao menos por enquanto.

Talvez a perda seja uma característica herdada. Minha avó materna tinha o dom de perder coisas. Emigrou ainda adolescente dos subúrbios da cidade russa de Ecaterimburgo para uma das colônias do barão Hirsch na Mesopotâmia argentina e, desse mundo de judeus gaúchos, para o bairro judeu de Buenos Aires, conhecido como Once. Mesmo no seu pequeno apartamento, ela conseguia perder coisas. O lenço com bordas rendadas desaparecia misteriosamente nas profundezas abissais de sua bolsa preta. Os fósforos de que necessitava para acender as velas do Shabat sumiam do lugar que lhes era reservado junto ao samovar. Quando ela precisava de pó de canela para o strudel de marmelo, a pimenta branca aparecia como um fantasma no lugar da canela, e, quando ela precisava da pimenta para o gefilte de peixe, o espaço que lhe correspondia na estante de temperos estava vazio.”

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