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Mario Vargas Llosa
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A literatura e as estrelas

No trabalho do escritor e na astronomia a imaginação é tão vital quanto o conhecimento

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2018 | 02h00

O ponto mais alto de La Palma (nas Ilhas Canárias) fica a cerca de 2.400 metros no Roque de los Muchachos, um terreno rochoso que a distância e com alguma imaginação se parece com figuras humanas. Aqui se respira um ar tão puro como o de Arequipa, a terra onde nasci, e é muito belo contemplar lá aos nossos pés, um tapete de nuvens que se estende como um mar em todas as direções até o mais remoto horizonte. Mas o mais pitoresco do lugar talvez sejam uns corvos sociáveis que posam graciosos para as fotos de turistas em troca de um punhado de comida.

Aparentemente, esse pedaço de terra tem a atmosfera mais diáfana na Europa e talvez no mundo o que explica a existência do Observatório, composto por enormes telescópios noturnos e solares construídos neste topo por vários países e, que desde meados dos anos 80 do último século, atraem para cá astrônomos de todo o planeta. Eles são seres estranhos que dormem de dia e trabalham à noite, e, como vampiros, eles operam nas sombras e a luz que os guia não é deste mundo, mas de lá de cima, bem alto, eu quero dizer a que foi emitida pelos astros há milhões de anos, que navegam (ou navegavam antes de desaparecer) pelo universo infinito.

Se a beleza dessa ilha, uma das menores do arquipélago das Canárias, com seus bosques, praias, montanhas e parques naturais é grande durante o dia, o verdadeiro milagre ocorre quando cai a escuridão, e o céu povoado por uma miríade infinita de estrelas, constelações, planetas, luzes que piscam se apagam, como no Aleph borgiano, e se tem a tremenda percepção de que há, acima de sua cabeça, o universo infinito. A coisa é ainda mais espetacular quando, com a ajuda das lentes dos telescópios, se começa a navegar pelos espaços siderais e se aproximar dessas bolas de fogo e, por exemplo, tem-se a sensação de ser um astronauta que percorre o céu rugoso da Lua, incluindo crateras gigantes, o trabalho de meteoritos que foram bombardeando ao longo dos milhões de anos de existência desse aglomerado de planetas.

Acho que nos dois dias que passei lá aprendi mais coisas do que em todas as outras viagens que fiz na vida. Por exemplo, nada é tão semelhante à literatura quanto a astronomia, porque em ambas a imaginação é tão importante quanto o conhecimento e, sem ela, este não progrediria. Os astrônomos que estão no Observatório e, especialmente, seu diretor, professor Rafael Rebolo López, armados de paciência e sabedoria, dão eloquentes respostas a todas as minhas perguntas, que sempre suscitam novas questões e, assim, a conversa salta a frágil fronteira que nesta disciplina separa (e em geral confunde) a física da metafísica.

Não é impressionante e paralisante trabalhar em um domínio que englobe o desmedido infinito, o tempo sem tempo que é a eternidade? Sim talvez. Mas, para evitar a paralisia surgiu a teoria do Big Bang, que coloca um ponto de partida – uma explosão de matéria que ocorreu há mais de 13 bilhões de anos e continua na sua expansão eterna pelo universo sem prazo para acabar – a essa eternidade e, embora ambos os conceitos sejam incompatíveis, permite que os cientistas trabalhem com menos incerteza. E se a teoria do Big Bang for ‘popperianamente’ “considerada falsa” a qualquer momento? Surgirá outra que corrigirá o que foi alcançado até agora e permitirá o avanço através de uma rota diferente. Não é essa a história de todas as ciências, sem exceção?

Os astrônomos chegaram a encontrar vida, ou sintomas da vida, em algum outro astro do universo? Não, em nenhum. Mas isso não permite afirmar definitivamente que só a Terra tem semelhante privilégio, entre outras razões porque os cientistas encontraram sim, em astros espalhadas em diferentes partes do espaço, quase todos os elementos necessários para a vida. Assim, tal descoberta – ter parentes em algum canto perdido do universo – poderia acontecer em algum momento no futuro. E para ver se esses humanoides venusianos ou marcianos se assemelham aos da ficção científica ou são mais originais do que aqueles inventados pela fantasia literária!

Quais são as chances de que o pequeno planeta Terra desapareça a partir do impacto de um meteorito gigante que seria milhares de vezes maior do que aquele caiu na Sibéria há mais ou menos um século, devastando um vasto território? Muitas, se se levar em conta que muito frequentemente se registram “acidentes” no espaço sideral, ou seja, hecatombes gigantescas que resultam de desvios de órbitas, ou a falta de órbitas nas trajetórias de certas formações rebeldes; e poucas, se for considerado o que ainda não aconteceu na longa história registrada do astro terreno. Mas, é claro, como hipótese, poderia acontecer amanhã e reduzir a nada tudo o que existe ao nosso redor há alguns milhões de anos. Vistas da perspectiva das estrelas, quão estúpidas e mínimas parecem as guerras e toda a violência da qual está impregnada a história da humanidade.

Eu pergunto ao grupo que me cerca que porcentagem de astrônomos são crentes e, depois de trocar ideias, eles dizem que provavelmente uns 20%; os outros são agnósticos ou ateus. Um desses amigos é rápido em fazer a diferença: “Eu sou crente”. Ele acrescenta: “E me sinto perfeitamente à vontade para conciliar minha religião com tudo o que a ciência descobre ou descarta”.

É verdade o que ele diz, sem dúvida, e também deve ser para essa quinta parte de astrônomos cuja fé resiste a esse cotejo cotidiano a que estão sujeitas as suas crenças religiosas com revelações, que não sei se devo chamá-las de estupendas ou terríveis, que lhes fazem as estrelas. Mas eu entendo melhor os outros quatro quintos dos cientistas que trabalham diariamente imersos em dúvidas e hesitações sobre as ideias propagadas pelas religiões sobre o ser supremo que teria criado todas aquelas constelações e tudo o que existe. Porque pequeninos se tornam os deuses que os seres humanos cultuavam ou adoravam confrontados com esse esmagador espetáculo ‘mil-e-uma-noitesco’ de bilhões e bilhões de estrelas semeadas ao longo de uma área sem fronteiras, que gravitam e se sustentam mutuamente, lançando luz ou recebendo-a, e que pobres as explicações das religiões inventadas para essas perguntas inexplicáveis: como tudo isso foi possível? Poderia ser puro acaso, conjunções e constituições misteriosas como coincidências, que, de repente, naquele universo gélido fizeram brotar a vida aqui neste pequeno planeta sem luz própria que é nosso? É mais ou menos convincente que não foi o acaso, mas um ser superior, dotado de infinita sabedoria, e que, talvez entediado com sua solidão eterna, criou essa maravilha tenebrosa que é a história da humanidade? As melhores respostas – as mais belas e imaginativas – para essas questões, podem não estar nas estrelas ou na religião, mas na literatura.

(TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO) 

* É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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