J.M. Coetzee
J.M. Coetzee

A juventude de J.M. Coetzee em preto e branco

Nobel de Literatura registrou suas raízes, na África do Sul, moldadas pela arte e pelo apartheid

Jason Farago, The New York Times

27 Janeiro 2018 | 06h00

Em 2014, anos depois que se mudou da África do Sul para a Austrália, o romancista J.M. Coetzee finalmente vendeu seu apartamento na Cidade do Cabo. Logo depois um pesquisador vasculhou uma caixa de papelão deixada no imóvel desocupado - e dentro descobriu um grande volume de materiais inéditos deixados pelo taciturno prêmio Nobel de 2003. Mas não eram manuscritos. Eram fotografias: maços de cópias amareladas e negativos não revelados que retratavam Cenas da Vida na Província, como foram batizados seus três volumes autobiográficos, Infância, Juventude e Verão.

Acontece que, antes da literatura, Coetzee foi um empenhado fotógrafo em sua adolescência - e suas impressões em preto e branco da família, escola e vida diária na fazenda do tio foram vistas, pela primeira vez, em mostra no Museu Irma Stern, na Cidade do Cabo, J.M. Coetzee: Photographs from Boyhood, que acabou em 20 de janeiro.

Coetzee nunca havia mostrado as fotografias para ninguém. Ele tinha suas dúvidas, quando a exposição foi sugerida, de que os primeiros experimentos de um escritor com uma câmera teriam pouca importância. Mas as imagens, feitas em 1955 e 1956, quando o autor tinha 15 e 16 anos, apresentam uma visão crucial sobre a formação de um autor tão contido em suas revelações pessoais como em sua prosa. Mais do que isso, dão uma nova profundidade à sua ficção, que deve tanto às artes da lente como à da página.

A exposição foi organizada pelo curador Farzanah Badsha e por Hermann Wittenberg, o estudioso que primeiro achou as imagens e forneceu-me reproduções digitais das primeiras fotos de Coetzee. Quase duas dúzias de fotos da exposição foram impressas na época; outras 58 são recém-reveladas a partir de negativos danificados e manchados pelo passar do tempo.

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Coetzee nasceu na Cidade do Cabo em 1940. Sua família não era rica, e deve ter sido uma despesa considerável para o jovem John adquirir sua Wega de 35 mm - um clone italiano mais barato da câmera Leica usada por Henri Cartier-Bresson e outros fotógrafos da revista Life, que ele admirava.

Logo ele instalou um quarto escuro na casa da família nos subúrbios da Cidade do Cabo. Sua mãe, Vera, era professora; John a amava profundamente e a fotografava fora de sua casa toda arrumada, adormecida em um sofá ou lendo com seu irmão mais jovem, David.

John sentia-se mais distante de seu pai, Zacharias, como o autor o apresentou em Verão (2009), o terceiro e mais ficcional de seus livros autobiográficos. Ele aparece em apenas uma foto, em que seu filho o capturou em um momento mais dócil. 

Se a Cidade do Cabo sufocava o escritor a ser descoberto, ele foi arrebatado pelo Karoo, a árida região do interior da África do Sul, onde seu tio tinha uma fazenda, chamada Voëlfontein (ou Fonte dos Pássaros, em africâner). A paisagem teve papel central nas percepções do jovem escritor sobre natureza, família e colonização. As fotografias de Voëlfontein, mesmo nesta idade jovem, exibem a posição ambivalente em relação ao campo sul-africano que daria vida à sua ficção posterior. Nessa paisagem ressecada, ele situou dois romances iniciais: No Coração do País (1977), o retrato de uma dona de casa rural assassina, e Vida e Época de Michael K. (1983), a minimalista e kafkiana fábula sobre o apartheid.

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As imagens mais notáveis nesse arquivo juvenil retratam dois trabalhadores rurais em Voëlfontein, Ros e Freek, que Coetzee descreve em Juventude e Infância. Os trabalhadores são “homens de cor” - designação da era do apartheid para pessoas de origem mista africana, europeia e asiática.

Um dia, em 1955 ou 1956, os Coetzees foram à praia com Ros e Freek, que jamais haviam visto o mar. Coetzee não menciona essa viagem em Juventude e Infância, mas as numerosas fotos dos homens da fazenda, tiradas em contraste baixo que lembra o recém-renovado mundo de A Infância de Jesus (2013), refletem a importância desse dia.

Em rara entrevista, quando questionado sobre as influências literárias em No Coração do País, Coetzee respondeu: “Há uma influência mais fundamental, filme e/ou fotografia”. E além da influência subjacente da câmera, as fotografias desempenharam um papel importante em muitas de suas novelas. Desde a sua estreia, Terras de Sombras (1974), narrado em parte por um pesquisador do governo americano que carrega fotos de atrocidades da Guerra no Vietnã, até Desonra (1999), sua dissecação brutal da África do Sul pós-apartheid, em que um professor de inglês envergonhado encontra um retrato depreciativo de si mesmo no jornal estudantil. Mais tarde, em Homem Lento (2005), Coetzee fez de seu personagem principal um fotógrafo - desencantado ao descobrir que as imagens digitais “poderiam ser sugadas por uma máquina e saírem dela tratadas, não verdadeiras”.

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Em Juventude e Infância e nas autobiografias subsequentes, Coetzee refere-se a si mesmo apenas pelo pronome ele e puxou uma cortina em torno de si mesmo. No entanto, em seus autorretratos fotográficos, agora com mais de 60 anos, mostram um distanciamento autoral semelhante, misturado com sinceridade e até mesmo orgulho.

Vemos o jovem John com um colete de lã, olhos tristes. Ele se inclina para um lado e parece frágil, mas olha para a frente com uma segurança além de seus anos. Em outra foto, posa como um adolescente temperamental, dominado por uma melancolia que pode levar à genialidade ou ao infortúnio. A sala está escura e o jovem Coetzee ilumina seu rosto de baixo. Olha para cima, em expectativa. Logo abaixará a câmera; isso duas décadas antes de publicar um livro. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

 

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