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A ideia é força motora da ação narrativa em 'O Explicador'

No livro de estreia, Leonardo Villa-Forte parte da tradição filosófica do século 18 em que a trama sai de um conceito

Wilson Alves-Bezerra, Especial para O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2014 | 20h00

“Tudo é conteúdo; não há fogo de artifício.” Assim o escritor angolano-português Gonçalo M. Tavares apresenta, na contracapa, O Explicador, livro de estreia do carioca Leonardo Villa-Forte, composto por contos e poemas. Fazer equivaler a forma literária ao fogo de artifício, a “belezas laterais e inúteis”, é o procedimento de Tavares para elogiar um elemento de destaque nesta coletânea inicial de Villa-Forte: o fato de os textos, ora em verso, ora em prosa, terem na ideia sua matéria prima. 

Muitas das 14 peças curtas que compõem O Explicador podem, de fato, filiar-se à tradição do conto filosófico – como o praticava Voltaire no século 18 – na qual, a ação, quando há, aparece a reboque de uma ideia ou conceito. Não se trata portanto do conto moderno, concebido por autores como Poe ou Chekhov, em que a ação tem lugar central.

As perguntas e ideias que movem os personagens de Villa-Forte são as do cotidiano, de quem não se conforma com o universo circundante. Assim, perguntam-se sobre o que é dado; tudo o que há ou se mova é passível de questionamento: o trabalho, a universidade, a subsistência, o corpo feminino, as ausências a um compromisso, a verdade do texto publicitário, o diálogo entre os casais etc.

Mas o “perguntador” – mais que “explicador” – de Villa-Forte, que aparece sob o véu de vários nomes, não é mero crítico da sociedade, é antes um homem doente de ideias, capaz de empenhar suas forças para discutir num restaurante vegetariano o caráter da frase que se lê no cartaz “A verdade está no verde, por isso é tão verdadeira” – da crônica Peça Publicitária; de sucumbir perante o desconhecido: “Sem encontrar resposta, começa a suar, mexe-se cada vez mais, sente enjoo e tontura: não sabe como reagir à chance de desejar por si mesmo” (no conto A Mulher que Não Soube Fantasiar). 

A ideia move também os diálogos, totalmente intelectuais: “Querem ou não querem que eu explique os motivos dele não vir quando é chamado?” e “Que tal falar do motivo de alguém vir quando não é chamado?”, discutem palestrante e plateia no conto que dá título ao livro. Por vezes, remetem a Swift: “Sandra, quero fazer uma cirurgia de redução de estômago.” “Não precisa, Max. Você é magro. Nunca foi gordo.” “Não será uma cirurgia estética. Quero não precisar comer a mesma quantidade que venho comendo. Dessa forma, posso trabalhar menos” (em As Estratégias de Max). Villa-Forte mostra-se propenso a um humor mordaz. 

Entretanto, as boas ideias no livro parecem não se acomodar a uma forma. Causa estranheza o excesso de gêneros – há diálogos, contos, poemas, crônicas. É quando cabe nos lembrar do radical alerta que o poeta Mallarmé fez ao pintor Degas acerca da escritura: “Meu caro Edgar, poemas não se fazem com ideias – mas com palavras”.

Há, sim, experiências de forma – de palavras – em Villa-Forte mas, paradoxalmente, elas parecem ser da ordem do fogo de artifício. Em O Jogo em que Victor se Irritou, há um pastiche da escrita matemática: “Perdido o jogo por conta da perna do anão ser do tamanho (perna normal)/2, o que Victor sentiu não foi uma chateação aliviada pela compreensão das diferenças entre os seres humanos. O que Victor sentiu foi (raiva x frustração)2”. O humor não parece funcionar, e a escrita matemática não conduz a parte alguma.

O exercício da forma não mostra a consecução de um estilo, nos termos que o define o português Herberto Helder: “um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação”. O que autor apresenta é uma coletânea de roteiros e, em certos lampejos, imagens, em meio a ideias, muitas ideias. 

WILSON ALVES-BEZERRA É ESCRITOR, CRÍTICO LITERÁRIO E PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UFSCAR.

O EXPLICADOR

Autor: Leonardo Villaforte

Editora: Oito e Meio (88 págs., R$ 32)

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