EFE/Miguel Ángel Molina
EFE/Miguel Ángel Molina

'A ficção tem a sua própria realidade'

Ele diz que inventou muito, mas foi fiel aos fatos históricos

Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo,

13 de maio de 2011 | 06h00

Na entrevista, Mario Vargas Llosa comenta sobre as raras formas de nacionalismo que considera aceitáveis.

O que é ficcional em seu livro?

Em todos os romances históricos que escrevi, incluindo O Sonho do Celta, busquei muita documentação que só me serviu como matéria-prima para me familiarizar com o mundo que quero inventar. Nunca me dispus a reconstruir da forma mais verídica possível o passado. Também nesse romance usei abundantemente a imaginação - não apenas para preencher os vazios como também para alterar episódios e situações a fim de tornar a narrativa mais coerente e persuasiva. Creio que o fundamental é respeitar fatos básicos da História ainda que, pesados prós e contras, provavelmente o que inventei seja muito mais importante que a memória histórica. Sou um escritor, não um historiador.

Como o senhor, que sempre detestou o fanatismo, conviveu com seu personagem Roger Casement, nacionalista fervoroso?

Sigo acreditando que o nacionalismo é uma das piores formas de fanatismo e de estupidez humana, pois promoveu um derramamento de sangue tão intenso como fizeram as religiões ao longo dos séculos. Mas, ainda que o deteste, entendo que o nacionalismo, em determinadas circunstâncias, pode ser benéfico mesmo para figuras lúcidas como Roger Casement. Na situação colonial, por exemplo, quando um país é ocupado por uma potência que explora e discrimina seus cidadãos, é compreensível que o nacionalismo e a luta pela independência sejam positivos e atraiam o idealismo e a honestidade dos melhores homens. Desgraçadamente, sabemos que, uma vez alcançada a independência, o valor se converte em desvalor, e o nacionalismo transforma-se em uma ideologia retrógrada e perigosa. Na última fase de sua vida, Roger Casement estava consciente disso, sobretudo quando advertiu sobre o caráter fanático do nacionalismo dos jovens católicos que prepararam a Revolta de 1816 e, ao tentar interceptar o levante, pagou com a própria vida.

O livro foi lançado antes da  série de revoltas contra ditaduras que vêm marcando o território africano.

Há uma larga tradição de revoltas na África contra as tiranias que, por desgraça, dominam grande parte do continente. Quase todas fracassaram por conta da anarquia provocada, pela ferocidade da repressão e, às vezes, pelo sectarismo dos dirigentes desses levantes. Mas estou convencido de que, da mesma forma que parece ter chegado a hora de liberdade para os países árabes, logo será o momento também para os desgraçados povos da África.

E o que dizer da atuação do rei belga Leopoldo II?

Ele foi o primeiro genocida do século 20, pois seus crimes são qualitativamente comparáveis aos de Hitler, Stalin e Mao Tsé-tung. Cálculos de historiadores variam muito sobre a quantidade de mortos na África provocados pelo sistema exploratório criado pelo rei dos belgas, mas seguramente foram milhões, levando-se em conta as vítimas não apenas de castigos corporais, as mutilações e as matanças mas também da fome, das pragas produzidas por colonos e pelo estado de indulgência e indefesa em que ficaram as comunidades em 1960, quando o Congo tornou-se independente. A frieza e a crueldade com que Leopoldo II criou o monstruoso sistema de exploração dos seringais é comparável aos campos de extermínio nazistas ou ao Gulag soviético.

Como não deixar um romance ficar divorciado da realidade?

A ficção tem sua própria realidade, um mundo autônomo que deve gozar de soberania para persuadir o leitor de sua verdade, deve ser uma realidade distinta da verdadeira que, no entanto, inspira-se na vivência ainda que ela mesma constitua uma ficção, ou seja, outra realidade. Isso não significa que entre essas duas realidades não existam vínculos e interdependência. Um bom romance nos retira do mundo real, transportando-nos a outro ambiente, com uma coerência, beleza e perfeição inconcebíveis no mundo em que vivemos. É por isso que a ficção nos enriquece e nos torna mais sensíveis ao confrontar o mundo real, sobretudo diante de suas carências e imperfeições. / U.B.

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