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A fé do Raposão

Eça de Queiroz usa da pena para desbancar o clero português e a credulidade mágica das pessoas

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2021 | 03h00

Teodorico Raposo era um português com algumas leituras, pouco dinheiro e muita disposição para buscar mulheres. Os colegas o apelidaram “Raposão”. Em resumo, um malandro sedutor.

Teodorico, já sabemos, tem pouco dinheiro e, órfão, vai morar com uma tia em Lisboa. Dona Patrocínio é austera, carola ao extremo, distante, fria e muito avessa a insinuações de corpos ou de sexo. Rica, com sua bolsa verde de moedas de ouro, a “horrenda senhora” (como a apelida o Raposão) não tolera “relaxações”. Apesar de o narrador a chamar carinhosamente de “Titi”, nada existe de afeto ou carinho entre os parentes.

Afeito a saias e pouco a trabalho sistemático, ao Raposão só cabe esperar a herança da tia beata. Para conseguir continuar sob suas graças, ele finge um extremo de vida devota. Frequenta missas em Lisboa, reza no oratório da casa, pratica jejuns com cinismo teatral. A senhora Patrocínio das Neves revira os pertences do sobrinho em busca de evidências feminis. A esperança do libertino é a morte da mulher de preto, cena que ele antecipa mentalmente com requintes de prazer.

Estou, claro, descrevendo o texto de Eça de Queiroz (1845-1900), A Relíquia. O livro é de 1887. Eu tinha lido há décadas e, agora, escutei-o fazendo corridas pela manhã. Sempre é bom revisitar uma obra clássica. Reencontramos cenas, prestamos atenção em coisas novas, vemos com outro olhar. Quando descobri o autor, há quase 40 anos, foquei na troca de embrulhos e na cena hilária da relíquia entregue à tia. Escutando a narração, foquei no sonho-delírio do Raposão na Terra Santa. Em busca do objeto sacro que garantiria a herança desejada, o português volta aos tempos de Jesus e assiste ao julgamento, morte e não ressurreição, já que ele cria a hipótese de o Messias ter morrido de fato e ter seu corpo deslocado da tumba de José de Arimateia. 

Todo o enfoque religioso da obra é século 19 na veia. São críticas violentas à Igreja, ataques à hipocrisia do comportamento religioso, desnudamento da pompa litúrgica em detrimento da caridade e do amor fraterno. Como no livro O Crime do Padre Amaro, Eça usa da pena para desbancar o clero português e a credulidade mágica das pessoas. Existe simpatia com o homem Jesus e pouca devoção ao Cristo teológico. Eça parece detestar a Igreja Católica e sorrir com a humanidade do filho de Maria.

O que antes eu não tinha notado é que o Raposão tem muito do próprio Eça. Continua um crente. Comove-se com a dor do Nazareno, ainda que lhe negue a divindade ou renegue a ideia da ressurreição. Raposão é anticlerical, talvez um ariano (negação da divindade de Jesus) e, certamente, um escravo da sensualidade. Ateu ou sequer agnóstico? Não! Raposão tem fé, ainda que não na Igreja de Roma.

Não vou contar o final para que não me acusem de spoiler em relação a um livro com mais de 130 anos. Evito comentar como termina a Odisseia ou a Divina Comédia para não estragar o prazer improvável da pessoa que brada “não conta, não conta”! Guardemos, pois, esses segredos de Polichinelo.

Volto à fé de Raposão. Ele busca o prazer e tem certa simpatia pelo sofrimento alheio. Chega a melhorar de caráter ao final. Parece uma pessoa comum, sem extremos em relação ao saber ou à religião. Quer viver bem e ter momentos excitantes com mulheres. Aliás, tanto a sua Adélia portuguesa como a Mary inglesa traem Raposão.

Raposão detesta a hipocrisia dos tartufos de todos os matizes. Apesar de mentir muito, julga que é obrigado a fazê-lo. O subtítulo da obra é significativo: Sobre a Nudez Forte da Verdade – o manto diáfano da fantasia. A verdade nua é uma metáfora típica do século 19. Lembro-me do célebre quadro de Jean-Léon Gérôme: A Verdade Saindo do Poço (1896). No quadro, vemos uma mulher despida e com olhar de raiva, segurando um chicote para açoitar os homens mentirosos. Raposão odiava as mentiras da sociedade portuguesa do 19, ainda que não se incluísse entre os que mereceriam apanhar de chicote da verdade furibunda.

A fé do lusitano envolve sua cultura católica, sua ancestralidade portuguesa. Quando entra no Jordão para se banhar, sente-se invadido por genuína euforia cristã. “Ao princípio, enleado de emoção beata, pisei a areia reverentemente como se fosse o tapete de um altar-mor; e de braços cruzados, nu, com a corrente lenta a bater-me os joelhos, pensei em São Joãozinho, sussurrei um padre-nosso.” Ao saber que encontraria o próprio Jesus, o cínico Teodorico abandona sua casca de desdém e comenta que “os meus joelhos católicos quase bateram as lajes, num impulso de ficar ali caído, enrodilhado no meu pavor, rezando desesperadamente e para sempre. Mas logo como uma labareda chamejou por todo o meu ser o desejo de correr ao seu encontro e pôr os meus olhos mortais no corpo do meu Senhor, no seu corpo humano e real, vestido do linho de que os homens se vestem, coberto com o pó que levantam os caminhos humanos!...”.

Seria um cristão mais do que um católico? Anticlerical e crente ao mesmo tempo? Sim, se não formos exigentes com o rótulo cristão. Era um homem comum, como a maioria em relação à religião: vida voltada para si, respeito cultural, hábitos, horror à autoridade. Boa semana para as raposas, os lobos, os cordeiros e as araras da sempre complexa fauna cristã. 

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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