A ciência do olhar em Murilo Mendes

Por muitos anos esquecido ou mal lembrado, Murilo Mendes reabilita com seu retorno aquela antiga noção do poeta profeta, perfeitamente condizente com sua prosa e sua poesia de inspiração bíblica. Cristão, mineiro e universal, praticante da ética dos gregos antigos, Murilo assim se definia, entre finito e infinito: “Hóspede do enigma”. 

O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2014 | 03h00

A conversão ao catolicismo, em 1934, embora já pressentida nos poemas anteriores a essa data, surge como marco na biografia do poeta no famoso episódio de seu delírio místico durante o velório do pintor Ismael Nery. O sentido cristão da amizade que unia Murilo e Ismael não só rendeu diversos poemas em parceria, e a sistematização, por parte de Murilo, da filosofia de Ismael chamada “essencialismo”, como também rendeu a antipatia de parte do meio literário da época a priori refratária à religião, à tradição e ao mistério. 

Não que essa antipatia tenha desaparecido, o que é igualmente interessante de ler, à luz do tempo, agora que o ressurgimento da obra de Murilo Mendes completa seu sentido de transcendência. Não há como escapar à “elegância da doutrina católica” que faz convergir estética e ética no pensamento de Murilo. Não há como negar que sua poética seja uma teopoética. A mesma se encontra sintetizada na coleção de aforismos deste que é um livro chave, O Discípulo de Emaús, de 1945. 

A passagem do Evangelho de São Lucas que narra o encontro de dois discípulos com Cristo ressuscitado, visível e invisível, a caminho de Emaús, serve como parábola da visão que Murilo e Ismael compartilhavam. Se a religião é “a ciência fora do tempo e do espaço”, a poesia é uma ciência do olhar atento ao real, também visível e invisível. Toda a obra de Murilo realiza plasticamente essa ciência em forma de alegoria, em parábolas, salmos, cânticos, meditações, memórias, aforismos. “A Bíblia é um livro perfeito, e que se refaz constantemente. Nele a antiguidade, a era moderna e a futura se encontram; e o eterno torna-se cotidiano.” Está aí o centro luminoso para o qual todos os seus livros convergem, numa revelação das Escrituras, do Gênesis ao Apocalipse, do Alfa ao Ômega, a partir de um cosmo pessoal, um “infinito íntimo”, que simultaneamente observa sua época.

No século da “poesia em pânico”, século da bomba atômica, o teor revolucionário do espírito de Emaús, também lastro da parceria entre Murilo Mendes e Jorge de Lima, está em não perder de vista o essencial da Poesia, a harmonia e a unidade para além das circunstâncias de fragmentação e desordem. No poema Nova Cara do Mundo, de 1929, Murilo antecipava o cenário apocalíptico de Meu Novo Olhar (de 1934), um olhar familiar ao do místico Léon Bloy, cuja vida interior espelha o drama de seu tempo que, por sua vez, espelha o drama da Queda e da Redenção nas Escrituras. Essa vocação transcendente, que, na poesia de Murilo, e no poético de sua prosa, se traduz em liturgia e sacramento, e que tem de surrealista o que o surrealismo tem de metafísica, impõe ver sem condescendência a modernidade e o quão poeta fora da literatura é este homem que escreve, já que em tudo o que seus olhos tocam todo seu ser está implicado. Vem desse rigor, e dessa “ternura crucificada”, que “tudo está corrompido, porque se corrompeu o incorrutível amor”. A abstração do tempo e do espaço, base do “essencialismo” de Ismael Nery, e a sede de unidade e de harmonia, que interessam a outros contemporâneos, como Cecília Meireles, têm a ver com uma “saudade do céu”. Vale a pena observar o céu em Murilo, suas constelações, suas rosas de fogo, seus cometas, e a “Terra subúrbio das galáxias” sob o ponto vista elevado das estrelas, para onde convergem o princípio da Criação e o fim dos tempos. Vale acolher essa “poesia do futuro”, tão inesgotável quanto a fonte à qual suas figurações se acrescentam, através daquela leitura que o próprio poeta nos recomenda: uma leitura que nos lê, tanto quanto é lida.

* MARIANA IANELLI É POETA E AUTORA DE O AMOR E DEPOIS E TREVA ALVORADA, ENTRE OUTROS

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