Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

A arca da memória do poeta Moacir Amâncio em 'Matula'

Autor coloca neste livro, que marca sua volta à poesia quase 10 anos depois do lançamento de 'Ata', a sua busca pelas origens judaicas

Márcio Seligmann-Silva, Especial para O Estado de S. Paulo

16 de setembro de 2017 | 06h00

Matula, o recente livro de poesia de Moacir Amâncio, tem em sua capa uma bela Fênix-tatuagem que faz as vezes de um guardiã protetora. Ela protege essa obra que é na verdade uma arca da memória. Amâncio recolheu nela os fragmentos da judeidade portuguesa-espanhola e de seus desdobramentos em Amsterdã, no Recife e pelo mundo afora. A Fênix é o pássaro que se renova e renasce a cada ciclo, como os judeus em sua dispersão.

O livro-memorial se abre paradoxalmente com um anexo de Luís Nunes Tinoco (1642-1719), um poeta, pintor e calígrafo português, autor de A Feniz (sic) de Portugal Prodigiosa, com anagramas que ofereceu à rainha Maria Sofia Isabel. Tudo no livro de Amâncio lembra essa metáfora da arca-arquivo: que salva escombros que são citados, comentados ou parafraseados. É como se o mundo se desfizesse em letras. E o próprio Luís Nunes Tinoco, na apresentação do referido texto, deixava claro a visão de mundo mística judaica que se conserva no poeta paulista. Tinoco lavrou: “É o mundo todo um grande livro de que emana a Ciência da Ortografia: cujos Tratados são as Idades, os Capítulos, os Séculos, as folhas os anos, os parágrafos os meses, as Regras os Dias e as letras as Horas”. 

Amâncio é o catador das palavras e imagens que ele reorganiza nesse livro-montagem, um verdadeiro painel da judeidade e da criptojudeidade marrana (os convertidos à força ao cristianismo). Tudo se mistura aqui, inclusive o mais privado e o mais histórico: “Marrano de pai mãe e avós eu o sou”, lemos em um verso. E mais: “Foi esta a equação/ tetratetravós judeus/ tetravós marranos/ bisneto ateu”. A história como um processo de afastamento da tradição, mas também, o presente como um local de encontro com os escombros do passado. Tudo agora se transforma em traço de memória.

Esses são revalorizados e constituem um livro que além de memorial é profundamente irônico, pois recicla de modo livre, aberto e muitas vezes divertido, séculos de histórias e narrativas. O universo plurilíngue de Amâncio, que escreve também em hebraico, espanhol, inglês e esbarra no ladino, língua da judeidade sefardita, corresponde ao périplo da dispersão dos judeus, perseguidos pela Inquisição e sempre tentando sobreviver em outras terras. A diáspora é uma sequência de novos encontros e de desencontros.

Se o mundo se dispersa em palavras, como um livro aberto cujas folhas se espalharam, as letras que compõem os nomes que dão um lastro. O nome é o intraduzível por excelência. É o nervo duro da linguagem. Segundo a cabala, criada e seguida por muitos dos autores recordados por Amâncio, a língua originária foi a língua de Adão, uma língua de nomes que ele deu a cada ser, lendo a criptoescrita que Deus deixara em suas criaturas. Nomes são fragmentos robustos do passado: “Os câmara zarco ferreira melo rosa peixoto mesquita pinto mendes preto magriço corte real bezerra cardozo frances moreno”, etc. e etc. Nomes tornam-se as palavras-chave do poema do mundo da dispersão: são nossas casas, arruinadas, mas nas quais encontramos abrigo.

Outro poema: “Eu sou o único judeu na minha família/ toda hoje/ venho do ramo de samuel usque”: judeu lisboeta autor de Consolação às Tribulações de Israel (1553). Esses judeus, como a família de Espinosa (muito presente no livro, aliás) tiveram que enfrentar “seja amsterdã quem sabe hamburgo ou mesmo o bósforo/ ainda recife pode ser constantinopla/ onde seremos por demais talvez em rhodes/ faremos lá a nossa língua”. E essas línguas não pararam de ser criadas, como neste belo livro-arca de Amâncio que em sua paixão pelos nomes, sua atração infinita pelas estórias, cria um mundo gramatológico original, pavimentando o que chama de “o mar um ladrilho logos”. Até os cristãos novos eminentes Raposo Tavares (autor de “façanhas assassinas”) e Tiradentes têm lugar nesse (anti)panteão do desterro, desespero e da recriação: Fênix. 

Lemos também a descrição de rituais e de gestos da tradição judaica, sobretudo no que diz respeito ao culto aos mortos: lavar o corpo, colocar a mortalha, cobrir os espelhos, cortar um pedaço da roupa, não se barbear por uma semana. Esses hábitos sobrevivem entre os convertidos muitas vezes como memória inconsciente de um passado que Amâncio, nesse livro único, ilumina, de modo sútil e carinhoso.

Confira um dos poemas de 'Matula'

a nau aportará um dia neste cais

vazio sempre mas jamais de passageiros

todos à espera desse algum por tudo incerto

tanto a partida qual também toda chegada

seja amsterdã quem sabe hamburgo ou mesmo o bósforo

ainda recife pode ser constantinopla

onde seremos por demais talvez em rhodes

faremos lá a nossa língua e outras folhagens

entanto até jerusalém porto será

para os jamais desencontrados mal seguros

como se o mar um ladrilhado logos fosse

mas com porém lugar aberto a bambos pés

novos caminhos quando nunca sendo os mesmos

e os tantos olhos cegos a buscar navios

MATULA

Autor: Moacir Amâncio

Editora: Annablume (169 págs., R$ 61,63)

MÁRCIO SELIGMANN-SILVA É  PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA NO IEL-UNICAMP

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