Walter Firmo/Estadão
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6 poemas para ler no centenário de João Cabral de Melo Neto

Autor de 'Morte e Vida Severina', entre tantos outros poemas inesquecíveis, João Cabral de Melo Neto é lembrado nesta quinta, 9, no seu centenário de nascimento

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

08 de janeiro de 2020 | 13h54

Há 100 anos, no dia 9 de janeiro de 1920, nascia no Recife João Cabral de Melo Neto.

Diplomata de carreira e um dos principais nomes da literatura brasileira, ele deixou uma vasta obra poética, incluindo Morte e Vida Severina, sucesso também nos palcos, no cinema e na televisão. João Cabral morreu em 1999, no Rio, aos 79 anos.

​O Estado selecionou 6 poemas de João Cabral de Melo Neto.

​Morte e Vida Severina (trecho)

— O meu nome é Severino,

não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria;

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.

Mas isso ainda diz pouco:

há muitos na freguesia,

por causa de um coronel

que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo

senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem fala

ora a Vossas Senhorias?

Vejamos: é o Severino

da Maria do Zacarias,

lá da serra da Costela,

limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:

se ao menos mais cinco havia

com nome de Severino

filhos de tantas Marias

mulheres de outros tantos,

já finados, Zacarias,

vivendo na mesma serra

magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos

iguais em tudo na vida:

na mesma cabeça grande

que a custo é que se equilibra,

no mesmo ventre crescido

sobre as mesmas pernas finas,

e iguais também porque o sangue

que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos

iguais em tudo na vida,

morremos de morte igual,

mesma morte severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia

(de fraqueza e de doença

é que a morte severina

ataca em qualquer idade,

e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos

iguais em tudo e na sina:

a de abrandar estas pedras

suando-se muito em cima,

a de tentar despertar

terra sempre mais extinta,

a de querer arrancar

algum roçado da cinza.

Mas, para que me conheçam

melhor Vossas Senhorias

e melhor possam seguir

a história de minha vida,

passo a ser o Severino

que em vossa presença emigra.

 

Tecendo a Manhã

1.

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito de um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

2.

E se encorpando em tela, entre todos,

se erguendo tenda, onde entrem todos,

se entretendendo para todos, no toldo

(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo

que, tecido, se eleva por si: luz balão.

 

O Cão sem plumas (trecho)

(Paisagem do Capibaribe)

A cidade é passada pelo rio

como uma rua

é passada por um cachorro;

uma fruta

por uma espada.

O Rio ora lembrava

a língua mansa de um cão,

ora o ventre triste de um cão,

ora o outro rio

de aquoso pano sujo

dos olhos de um cão.

Aquele rio

era como um cão sem plumas.

Nada sabia da chuva azul,

da fonte cor-de-rosa,

da água do copo de água,

da água de cântaro,

dos peixes de água,

da brisa na água.

Sabia dos caranguejos

de lodo e ferrugem.

Sabia da lama

como de uma mucosa.

Devia saber dos polvos.

Sabia seguramente

da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio

jamais se abre aos peixes,

ao brilho,

à inquietação de faca

que há nos peixes.

Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores

pobres e negras

como negros.

Abre-se numa flora

suja e mais mendiga

como são os mendigos negros.

Abre-se em mangues

de folhas duras e crespos

como um negro.

Liso como o ventre

de uma cadela fecunda,

o rio cresce

sem nunca explodir.

Tem, o rio,

um parto fluente e invertebrado

como o de uma cadela.

E jamais o vi ferver

(como ferve

o pão que fermenta).

Em silêncio,

o rio carrega sua fecundidade pobre,

grávido de terra negra.

Em silêncio se dá:

em capas de terra negra.

em botinas ou luvas de terra negra

para o pé ou a mão

que mergulha.

Como às vezes

passa com os cães,

parecia o rio estagnar-se.

Suas águas fluíam então

mais densas e mornas;

fluíam com as ondas

densas e mornas

de uma cobra.

Ele tinha algo, então,

da estagnação de um louco.

Algo da estagnação

do hospital, da penitenciária, dos asilos,

da vida suja e abafada

(de roupa suja e abafada)

por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação

dos palácios cariados,

comidos

de mofo e erva-de-passarinho.

Algo da estagnação

das árvores obesas

pingando os mil açúcares

das salas de jantar pernambucanas,

por onde se veio arrastando.

(É nelas,

mas de costas para o rio,

que “as grandes famílias espirituais” da cidade

chocam os ovos gordos

de sua prosa.

Na paz redonda das cozinhas,

ei-las a revolver viciosamente

seus caldeirões

de preguiça viscosa.)

Seria a água daquele rio

fruta de alguma árvore?

Por que parecia aquela

uma água madura?

Por que sobre ela, sempre,

como que iam pousar moscas?

Aquele rio

saltou alegre em alguma parte?

Foi canção ou fonte

em alguma parte?

Por que então seus olhos

vinham pintados de azul

nos mapas?

 

O Fim do Mundo

No fim de um mundo melancólico

os homens lêem jornais.

Homens indiferentes a comer laranjas

que ardem como o sol.

Me deram uma maçã para lembrar

a morte. Sei que cidades telegrafam

pedindo querosene. O véu que olhei voar

caiu no deserto.

O poema final ninguém escreverá

desse mundo particular de doze horas.

Em vez de juízo final a mim preocupa

o sonho final.

 

Difícil ser Funcionário

Difícil ser funcionário

Nesta segunda-feira.

Eu te telefono, Carlos

Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia

Que me deixa assim,

Cinemas, avenidas,

E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,

O luto desta mesa;

É o regimento proibindo

Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara

Tanta roupa preta;

Tão pouco essas palavras —

Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina

Que nunca escreve cartas;

Há uma garrafa de tinta

Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,

As caixas de papéis:

Túmulos para todos

Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto

De gravata de cor,

E na cabeça uma moça

Em forma de lembrança

Não encontro a palavra

Que diga a esses móveis.

Se os pudesse encarar…

Fazer seu nojo meu…

 

O Relógio

Ao redor da vida do homem

há certas caixas de vidro,

dentro das quais, como em jaula,

se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;

mais perto estão das gaiolas

ao menos, pelo tamanho

e quadradiço de forma.

Umas vezes, tais gaiolas

vão penduradas nos muros;

outras vezes, mais privadas,

vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola

será de pássaro ou pássara:

é alada a palpitação,

a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,

não pássaro de plumagem:

pois delas se emite um canto

de uma tal continuidade.

 

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