Museu Casa de Cora Coralina
Museu Casa de Cora Coralina

35 anos sem Cora Coralina, a poeta e doceira de Goiás

Relembre a história de Cora Coralina, que morreu no dia 10 de abril de 1985, e leia frases e poemas da escritora

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

10 de abril de 2020 | 08h25

Cora Coralina (1819-1985) é uma das poetas mais queridas do Brasil. Nascida Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas em agosto de 1889, meses antes da proclamação da república, ela começou a escrever muito cedo, antes dos 15 anos, mas só foi publicar seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, disponível nas livrarias pela Global, em 1965 - depois de casar, trocar sua Vila Boa de Goiás natal por São Paulo, criar quatro filhos, enviuvar, vender linguiça, banha, doce e livro. Àquela altura, já era uma senhora de 75 anos. Ela viveria ainda mais duas décadas de altos e baixos, e de muita poesia. Cora Coralina morreu aos 95 anos, no dia 10 de abril de 1985, por complicações pulmonares em decorrência de uma gripe, há exatos 35 anos.

Depois de Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, que ela publicou pela José Olympio, editora da qual foi vendedora de porta a porta, ela lançou Meu Livro de Cordel (1976) e Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha (1983). Publicaria mais um volume, Estórias da Casa Velha da Ponte, previsto para 1984, mas ela estava cansada. Em Vintém de Cobre, escreveu: “Tudo em mim vai se apagando. / Cede minha força de mulher de luta em dizer: / estou cansada. / A claridade se faz em névoa e bruma. / O livro amado: o negro das letras se embaralham, / entortam as linhas paralelas. / Dançam as palavras, / a distância se faz em quebra luz. / Deixo de reconhecer rostos amigos, familiares. / Um véu tênue vai se incorporando no campo da retina. / Passam lentamente como ovelhas mansas os vultos conhecidos / que já não reconheço. / É a catarata amortalhando a visão que se faz sombra. / Sinto que cede meu valor de mulher de luta, / e eu me confesso: / estou cansada."

Muitos outros livros foram publicados ao longo das últimas décadas pela Global, que não deixou de fora do catálogo as famosas receitas da poeta, uma quituteira de mão cheia. E em uma recente entrevista concedida ao EstadoVicência Brêtas Tahan, filha de Cora, revelou que tem ainda alguns inéditos da mãe, lembrada em 2019 nos 130 anos de seu nascimento - quando foi, inclusive, lançado um selo dos Correios em sua homenagem.

Sua história foi contada no filme Cora Coralina: Todas as Vidas, com várias atrizes e sua trineta.

Trajetória de Cora Coralina

Cora dizia que quando começou a escrever não tinha estudo – e ela não terminaria o colégio – ou leitura, apenas seu imaginário “bem distante do comportamento das moças” de sua época. Por isso até criou esse pseudônimo “sonoro”. Considerava que o que escrevia tinha qualidade e poderia ajudar quem lesse, mas não tinha muitos leitores. Hoje, ao contrário, sua página no Facebook tem 212 mil fãs e suas frases disputam a atenção dos internautas com as de Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e Carlos Drummond de Andrade.

Drummond, aliás, é tido como o responsável por apresentar Cora Coralina, uma pessoa “rica apenas de sua poesia”, a literatos e leitores. Num artigo publicado pelo Jornal do Brasil em dezembro de 1980, dedicado integralmente a ela, o poeta mineiro apresentava Cora como a pessoa mais importante de Goiás. Ele escreveu ainda: “Na estrada que é Cora Coralina, passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje. O verso é simples, mas abrange a realidade vária.” E a simplicidade foi mesmo a sua marca. 

Quinze anos antes desse artigo, o Estado já estava atento à poeta e seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, figurou entre os lançamentos do Suplemento Literário de 26 de junho de 1965. O texto comentava que Cora dizia, na apresentação da edição, que ali não estavam impressos versos, mas sim “um modo diferente de contar velhas estórias”.

Cora Coralina viveu a vida simples que tanto valorizava e seus leitores podem conhecer um pouco desse universo visitando sua casa na Cidade de Goiás, que foi transformada em museu em 1989 e abriga sua memorabilia - incluindo seu lendário fogão de lenha.

Leia frases e poemas de Cora Coralina

“Venho do século passado. Pertenço a uma geração ponte, entre a libertação dos escravos e o trabalhador livre. Entre a monarquia caída e a república que se instalava. Todo ranço do passado era presente. A criança não tinha vez, os adultos eram sádicos e aplicavam castigos humilhantes.” 

“Nasci num berço de pedras. Pedras têm sido meus versos, no rolar e bater de tantas pedras.”

“A vida é boa. Você pode fazê-la sempre melhor, e o melhor da vida é o trabalho.”

"Na minha alma, hoje, também corre um rio, um longo e silencioso rio de lágrimas que meus olhos fiaram uma a uma e que há de ir subindo, subindo sempre, até afogar e submergir na tua profundez sombria a intensidade da minha dor!..."

“Quando escrevo, escrevo por um impulso interior que me vem do insondável que cada um de nós trás consigo. Mas uma coisa eu digo a você: ontem nós falamos nas pessoas que ainda estão voltadas para o passado. E eu digo a você: não há ninguém que não faça sua volta ao passado ao escrever. Nós todos fazemos. Nós todos pertencemos ao passado. Todos nós. Queira ou não queira. É de uma forma instintiva. Nós todos estamos ligados muito mais aos nossos avós do que aos nossos pais.”

"Sendo eu mais doméstique do que intelectual, não escrevo jamais de forma consciente e raciocinada, e sim impelida por um impulso incontonável. Sendo assim, tenho a consciência de ser autêntica."

"Sou mais doceira e cozinheira do que escritora, sendo a culinária a mais nobre das artes: objetiva, concreta, jamais abstrata., a que está ligada à vida e à saúde humana."

"Ajuntei todas as pedras que vieram sobre mim. Levantei uma escada muito alta e no alto subi. Teci um tapete floreado e no sonho me perdi."

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