Baptistão
A agora centenária escritora Clarice Lispector Baptistão

A agora centenária escritora Clarice Lispector Baptistão

100 anos de Clarice Lispector: entenda por que a autora segue desafiando leitores

Obra permanece atual, provocando reflexões agudas sobre a condição humana

Yudith Rosenbaum , Especial para o Estadão

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A agora centenária escritora Clarice Lispector Baptistão

Desde sua estreia em 1943, com o romance Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector (1920-1977) nunca deixou de surpreender seus leitores e transformá-los a cada leitura. Aos 100 anos de seu nascimento, ainda os faz estremecer a cada frase insólita e a cada imagem inusitada. Alceu Amoroso Lima chegou a escrever, na orelha do segundo romance da autora, O Lustre, de 1946, uma afirmação até hoje verdadeira: “Ninguém escreve como Clarice. Clarice não escreve como ninguém”. 

É preciso dizer que ela mesma se autodefinia como uma dona de casa que escrevia livros, com a máquina de escrever no colo entre filhos e empregadas domésticas – uma imagem bem prosaica, simples e sem glamour, que desmitifica a escritora. Ela chegou mesmo a afirmar: “Levo uma vida muito corriqueira. Crio meus filhos. Cuido da casa. Gosto de ver meus amigos. O resto é mito”. 

Já a sua literatura parece bem mais complexa, mais desafiadora para o leitor, ainda que as cenas “inocentes” de muitas narrativas se aproximem desse quadro que ela descreveu para si mesma. A grande maioria das personagens é de mulheres, que são flagradas em meio ao seu mais comum dia a dia, imersas na mesma vida doméstica da autora. Sobretudo em Laços de Família, de 1960, essas personagens estão enlaçadas por uma aprisionante dinâmica familiar e social. Sua marca é a inquietação e o conflito entre, de um lado, o que se espera das mães e esposas quanto aos papéis a serem cumpridos – em geral, de apagamento e submissão ao marido, ainda mais nas décadas de 40/50 no Brasil – e, de outro lado, um anseio de uma vida mais intensa, plena de novidade e arrebatamento. Vemos as mulheres desejarem tanto a libertação dos laços quanto a inserção segura no contexto familiar. Quando estão dentro querem sair, quando estão fora buscam retornar.

Esses laços, que parecem tão sólidos, vão se mostrar apertados demais, opressores até. As histórias de Clarice apresentam ao leitor o instante em que a vida conhecida e habitual, domesticada pelas instituições e valores compartilhados, vida na qual nos sentimos tão protegidos, sofre uma perturbação intensa, geralmente motivada por estímulos insignificantes ou absolutamente comuns. Na verdade, para Clarice, estamos todos a um passo do abismo (ou do êxtase) e o chão pode se abrir aos nossos pés a qualquer momento. Talvez isso seja o grande motor de sua escrita: desestabilizar nossa ilusão de segurança e solidez e, sobretudo, abalar ou desmontar a imagem reconfortante que temos de nós mesmos. Será por isso que tantas personagens claricianas se miram ao espelho sem se reconhecer? 

Como diz Clarice, “as coisas não são fáceis, mas é preciso dizê-las”. Ela não sopra nossas feridas e carências. Ao contrário, penetra nelas como modo de nos despertar de uma insistente alienação. Ou como está na abertura do conto Os Obedientes, que talvez seja um resumo da força da sua literatura: “Trata-se de uma situação simples a contar e esquecer. Mas se alguém comete a imprudência de parar um instante a mais do que deveria, um pé afunda dentro e fica-se comprometido”. 

Clarice quer fazer-nos parar a nossa engrenagem automática do cotidiano e nos comprometer com as revelações que vêm de sua escrita. Ela nos desafia a refletir sobre quem somos e percebemos, ao final, que somos desconhecidos de nós mesmos.

Em sua obra, os processos de aculturação, com suas renúncias inevitáveis, fazem o trânsito difícil da Existência – sempre maior e mais vasta, às vezes até perigosa, onde podemos nos perder – para a vida mais formatada e cotidiana. O perigo existe quando algo imprevisto (e banal) nos empurra para fora da rede conhecida. Esses são os momentos em que uma fenda se abre e as personagens vislumbram, não sem angústia e atordoamento, a tessitura invisível que liga tudo e todos os seres. Esta é a experiência de Ana no conto Amor, quando olha um cego mascando chiclete no ponto do bonde... Sua vida arrumada sofre um abalo e o mundo recomeça novo e intenso, sem garantias e sem certezas.

Para dar forma aos estados de estranhamento vivenciados pelas personagens, a linguagem da autora desautomatiza o senso comum, seja pela pontuação inusual (a vírgula que abre o romance Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres), seja por expressões ilógicas (“o ovo é invisível a olho nu”, do conto O Ovo e a Galinha) ou invertendo o esperado (“Ser cego é ter visão contínua”, em A Maçã no Escuro). Em Clarice, forma e conteúdo são inextricáveis. 

Movendo-se neste pano de fundo da escrita, está uma “legião estrangeira” (aliás, título de seu segundo livro de contos, de 1964) que reúne crianças, animais, mendigos, marginais, empregadas domésticas, pessoas desarrazoadas ou loucas, todas portadoras de um modo outro de existir que ameaça a bolha narcísica pela qual nos defendemos das diferenças. São presenças incômodas que rondam o sono acomodado dos que evitam saber de si e dos outros.

Um dos textos mais explosivos da autora, que traz a potência desse olhar para os “desviantes”, é a crônica Mineirinho, sobre um bandido morto pela polícia do Rio de Janeiro com 13 tiros, em 1962. “Uma bala bastava. O resto era vontade de matar”, diz Clarice na famosa entrevista à TV Cultura em 1977. Em sua revolta, que ainda reverbera diante de cenas da atualidade, a cronista nos legou uma visão contundente da violência criminosa oculta sob o álibi da lei. E a reversão das posições, traço recorrente em sua obra, faz o leitor questionar a ordem natural das coisas: “Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente”.

O 14.º tiro, portanto, é o de Clarice, que atinge em cheio o leitor desarmado. E o acorda.

É PROFESSORA DE LITERATURA BRASILEIRA DA USP

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A escritora Clarice Lispector Claudia Andujar

Os 10 livros definitivos de Clarice Lispector

Lista reúne principais obras da escritora, cujo centenário é celebrado em 2020

André Cáceres , O Estado de S.Paulo

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A escritora Clarice Lispector Claudia Andujar

Em 2020, comemora-se o centenário da escritora brasileira de origem ucraniana Clarice Lispector. Uma das vozes mais celebradas da literatura nacional, a autora tem diversos livros importantes. Confira uma seleção dos 10 principais livros de sua obra:

Perto do Coração Selvagem (1943)

Primeiro romance publicado por Lispector, ainda aos 19 anos, Perto do Coração Selvagem se destacou em meio ao ambiente literário brasileiro da época, muito marcado pela literatura regionalista e por obras realistas de cunho social. O livro narra a vida da protagonista Joana da infância à maturidade, trazendo conflitos mais íntimos e uma voz mais próxima das vanguardas literárias modernistas em termos de linguagem, como Virginia Woolf e James Joyce.

O Lustre (1946)

Outro romance da juventude de Clarice, O Lustre também emprega os artifícios que a consagraram na literatura brasileira, como o fluxo de consciência, a falta de um enredo linear, a prosa mais impressionista, que se preocupa mais com as percepções do que com as objetividades. Em meio a essa estrutura típica das obras de Clarice, O Lustre narra a vida de Virgínia, uma protagonista mórbida, para quem a morte se anuncia desde a infância. 

Laços de Família (1960)

Vencedora do prêmio Jabuti em 1961, essa coletânea de contos retrata pessoas comuns que vivem situações de epifania em seus cotidianos. Alguns dentre os 13 contos que compõem a obra já haviam sido publicados na imprensa, mas o conjunto das narrativas breves é que faz com que Clarice saia do terreno da ficção e adentre também o terreno da filosofia.

A Maçã no Escuro (1961)

O início da década de 1960 marca um ponto culminante na obra de Lispector, com dois de seus romances mais maduros e mais preocupados com o tom existencialista. A Maçã no Escuro narra a história de Martim, que busca uma nova existência, refutando os valores defendidos por ele até então, após fugir da cena do assassinato de sua mulher.

A Paixão Segundo G.H. (1964)

G.H. é uma dona de casa, mãe e mulher de classe média que demite sua empregada e decide organizar o quarto onde a funcionária morava. Embora o cômodo esteja limpo, ela se depara com uma barata e aí surge uma das mais icônicas cenas da literatura brasileira. A Paixão Segundo G.H. pode ter uma trama banal na superfície, mas esconde muitas camadas sobre a questão da individualidade por baixo desse enredo.

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969)

Nesta obra, Clarice narra a história de amor entre Loreley (ou Lóri), filha de uma família abastada que sai do interior para viver no Rio de Janeiro, e Ulisses, professor de filosofia em uma Universidade. Eles se conhecem por acaso e dão início a uma relação pouco usual, mas de muita entrega. Do ponto de vista formal, a obra inova bastante na linguagem, tanto que começa com vírgula e termina com dois pontos.

Água Viva (1973)

Talvez um dos mais indefiníveis livros de Clarice Lispector, Água Viva não é (exatamente) um romance, nem uma coletânea de contos, tampouco uma obra de poemas ou de textos de não ficção. Elaborado a partir de crônicas publicadas na imprensa, o livro radicaliza a experiência de escrita da autora, tornando-se híbrido e sem um tema definido.

A Via Crucis do Corpo (1974)

Nessa obra escrita por encomenda, Clarice Lispector antecipa o percurso de outra escritora fundamental, Hilda Hilst, ao romper as barreiras entre alta literatura e entretenimento, entre filosofia e sensualidade. Na obra de tom erótico, Lispector presta também homenagens formais a autores que desafiaram a moral (e o moralismo) por meio de sua escrita, como Nelson Rodrigues.

A Hora da Estrela (1977)

Último livro publicado em vida pela escritora e sua obra mais acessível, A Hora da Estrela pode ser lido em muitos níveis, o que o tornou tão popular a despeito do subtexto erudito. O livro narra a história de Macabéa, uma simples retirante que leva uma vida banal, mas descobre ser vítima de tuberculose. Ela tenta saber mais sobre seu futuro em uma cartomante, mas as previsões acabam não se concretizando. 

A Descoberta do Mundo (1984)

Paralelamente à atividade de escritora, Clarice Lispector foi jornalista e publicou muitos textos na imprensa. A Descoberta do Mundo reúne crônicas escritas para o Jornal do Brasil de 1967 a 1973 sobre temas dos mais variados, de comentários sobre o noticiário até suas angústias e questões mais filosóficas

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Cena de 'A Hora da Estrela' Transvídeo

A prosa íntima de Clarice Lispector traduzida para a linguagem do cinema

Conheça os filmes baseados na obra de Clarice Lispector, cujo centenário de nascimento será celebrado no dia 10 de dezembro

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

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Cena de 'A Hora da Estrela' Transvídeo

Não é fácil levar a obra de Clarice Lispector (1920-1977) ao cinema. O cinema mostra. É dependente da concretude da imagem. Os textos de Clarice, de modo geral, são intimistas, interiorizados, e mesmo abstratos. Passam-se na subjetividade das personagens, muitas vezes em monólogos interiores. É desafio tão grande quanto adaptar James Joyce ou Virginia Woolf. Difícil, mas não impossível. Tanto assim que várias obras de Clarice, homenageada agora em seu centenário de nascimento, receberam versões audiovisuais competentes - e algumas de muito sucesso. 

Até agora, por certo, nenhuma teve tanto êxito quanto A Hora da Estrela (1985), longa dirigido por Suzana Amaral. O filme ganhou todos os prêmios possíveis no Brasil e ainda um Urso de Prata no Festival de Berlim pela interpretação impecável de Marcélia Cartaxo. Marcélia vive Macabéa, migrante nordestina semianalfabeta que, na cidade grande, dá início a um desajeitado namoro com Olímpico (José Dumont). Mas nada dá certo para Macabéa, literalmente devorada pela cidade grande. 

Também teve êxito O Corpo, de José Antonio Garcia, adaptado do conto homônimo de A Via Crúcis do Corpo. Venceu o Festival de Brasília de 1991 com uma história de “poliamor”, o casamento de Xavier (Antonio Fagundes) com Bia (Claudia Jimenez) e Carmem (Marieta Severo). O tom é o de uma comédia negra (e sarcástica), bastante parecido com o espírito do próprio conto. José Antonio Garcia, clariceano declarado, tinha ideia de adaptar outro conto de Via Crúcis do Corpo, Ele me Bebeu, a ser estrelado por Carla Camurati. Mas morreu em 2005, antes de o projeto se concretizar. 

A mais recente adaptação de uma obra de Clarice, do romance homônimo O Livro dos Prazeres, foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo e deve estrear no próximo ano. Dirigido por Marcela Lordy, põe em cena a problemática personagem Lóri, vivida por Simone Spoladore. Lóri é uma professora de crianças, que se mudou há pouco para um cinematográfico apartamento com vista para o mar, herança do pai. Ela parece entediada e sem rumo. Sexualmente livre, envolve-se com vários homens em casos rápidos, até conhecer Ulisses (Javier Drolas), um professor de filosofia que significará outra coisa em sua vida. 

Como tantas histórias saídas da pena de Clarice, esta também é a de uma personagem em crise e em busca de algum tipo de ascese. Ulisses será ao mesmo tempo objeto de desejo e também estímulo dessa problemática epifania capaz de resgatar a personagem feminina de uma angústia profunda. O filme busca nas nuances de claro e escuro as alterações de humor de Lóri e usa outros recursos da linguagem do cinema para dar conta da enxurrada linguística do original. 

O universo de Clarice chegou também aos curtas-metragens. Clandestina Felicidade, de Marcelo Gomes, de 1998, inverte o título original do conto Felicidade Clandestina. Evoca uma passagem da meninice de Clarice no Recife, com o despertar de sua grande paixão pela literatura. A menina (Luisa Phebo) morre de inveja de uma coleguinha de escola que possui um tesouro - o livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. 

A história é o gosto da leitura na futura escritora, mas também a de outra descoberta, a da maldade humana. Quando, por fim, a garota Clarice se apoderar do seu tesouro, este será sua “felicidade clandestina”, bonita conjunção de duas palavras, substantivo e adjetivo, que define uma vocação secreta. Literária, por certa, mas algo além: “A felicidade sempre iria ser clandestina para mim”, escreve Clarice no original. 

Outro curta é Ruído de Passos (2012), de Claudia Marafeli. O conto em que se baseia encontra-se em Via Crúcis do Corpo e aborda um tema-tabu até hoje: a sexualidade na velhice. A personagem principal, dona Cândida Raposo (Miriam Mehler), tem 81 anos e se surpreende com a sobrevivência do desejo em seu corpo desgastado. Queixa-se ao ginecologista: isso vai até quando, o desejo de prazer? Com franqueza, o médico responde: não há remédio, minha senhora, vai até morrer. 

A dificuldade, nesta narrativa breve, era conciliar a força do tema com a delicadeza no tratamento, desafio vencido pela diretora. 

Essas obras realizadas são amostras de como o rico universo de Clarice Lispector pode vencer a barreira de linguagens e ser transposto para o audiovisual. A sexualidade, a busca de sentido da existência, a opressão masculina, a hostilidade da sociedade, a solidão – tudo isso está nessa prosa íntima, que parece se dirigir diretamente à subjetividade do leitor. Todo esse mundo à espera de cineastas sensíveis, capazes de traduzi-lo para outra linguagem – a do cinema – sem perder sua força na transposição. 

Para finalizar, lembremos do maior dos desafios nessa tarefa, agora enfrentado por Luiz Fernando Carvalho, que levou para a tela a considerada obra-prima da escritora, A Paixão Segundo G.H. A protagonista é Maria Fernanda Cândido, no papel da mulher de classe média alta que, ao visitar o quarto da empregada doméstica, passa por uma experiência existencial das mais radicais. Ainda sem data de estreia, o filme está sendo esperado com ansiedade neste ano de centenário de Clarice Lispector

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A escritora Clarice Lispector Acervo Paulo Gurgel Valente

No centenário de Clarice Lispector, veja 10 frases que revelam fragmentos de seu pensamento

Clarice Lispector, uma das principais escritoras brasileiras, é homenageada em seu centenário de nascimento, no dia 10 de dezembro

Imagem Ubiratan Brasil

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

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A escritora Clarice Lispector Acervo Paulo Gurgel Valente

Uma das mais amadas escritoras brasileiras, Clarice Lispector (1920-1977) deixou uma obra ardente, enigmática e responsável por um movimento ficcional absolutamente novo que ainda desperta paixões. Clarice nasceu na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920. Em comemoração ao centenário da data, diversos eventos estão previstos, entre shows de música, debates com autores, exibição de filmes.

A estreia oficial de Clarice na literatura aconteceu em 1943, quando, aos 23 anos, ela teve publicado Perto do Coração Selvagem, romance que inaugurou uma nova linguagem nas letras brasileiras, na trilha de Virginia Woolf. Foi o ponto de partida de um estilo que se notabilizou pelo modo anticonvencional de organizar uma narrativa, valendo-se de uma escrita intimista, em que “as personagens não são seres excepcionais, antes são pessoas comuns, vivendo em um mundo, por assim dizer, mágico; mas de uma magia diferente, clariciana, feita de enigmas e perplexidades – uma magia nascida da exacerbação da palavra”, no entender do poeta Ferreira Gullar.

Nascida em Tchechelnik, Ucrânia, Clarice chegou ao Brasil com apenas 2 anos, acompanhada dos pais e duas irmãs, fugindo da guerra civil que assolava seu país. A família passou por Maceio e Recife até se fixar no Rio de Janeiro. Entre 1943 e 1959, período em que esteve casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, a escritora o acompanhou em suas missões, vivendo em lugares tão distintos como Belém do Pará, Nápoles (Itália), Berna (Suíça), Torquay (Inglaterra) e Chevy Chase, localidade próxima de Washington (EUA).

As viagens ao lado do marido nem sempre foram proveitosas. Vivendo em uma Europa já desgastada pela 2ª Guerra Mundial, cujo final se aproximava, Clarice e Maury foram obrigados a viver em hotéis e consulados brasileiros durante muitos meses. A impossibilidade de montar sua própria residência e, principalmente, o fato de viver longe das irmãs, com quem manteve uma extremada relação de amor e ternura, fizeram com que Clarice sofresse, prejudicando o próprio trabalho da escrita. Mesmo assim, ela estabeleceu novos parâmetros para a literatura brasileira. Especialmente na relação tempo e espaço. Ainda que colaborasse para jornais e revistas, meios de comunicação que se pautam exclusivamente pela realidade, a escritora utilizou as páginas de imprensa também para suas reflexões.

“Sua produção é, a certa altura, chamada por ela mesma de ‘pulsações’, e está pautada pelo questionamento de valores, desconstrução de regras e certezas, movida pelo desejo dramático de narrar aquilo que, no fundo, constata ser inenarrável”, já observou Nádia Battella Gotlib, professora da USP e reconhecida como uma das maiores especialistas na obra de Clarice.

Como diversos outros escritores, também Clarice era obrigada a se desdobrar em outra profissão, notadamente a de jornalista. No início, foram colaborações ocasionais, mas sua fama se estabeleceu no fim dos anos 1960, quando foi convidada a fazer entrevistas para a revista Manchete. E, como se tratava de Clarice, as perguntas, por vezes, eram mais reveladoras que as respostas – ela surpreendia ao fazer questões mais abstratas, estranhas até:  “Qual é a coisa mais importante do mundo?”, “O que é o amor?” e “Qual é a coisa mais importante para uma pessoa como indivíduo?” eram suas favoritas.

Passados 43 anos de sua morte, acontecida em 9 de dezembro de 1977, Clarice continua um enigma – um estimulante enigma. Sua obra ainda inspira criadores a transformar palavras em imagens, ações, sensações, como comprovam os diversos eventos programados para celebrar seu centenário. E é por meio de suas frases que se consegue elaborar um esboço de quem foi essa mulher.

Veja dez frases, ditas ou escritas, em que Clarice revelou fragmentos de seu pensamento

“Escrevo como se somam três algarismos. A matemática da existência”

“Vivo ‘de ouvido’, vivo de ter ouvido falar”

“Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto.”

“Se uma pessoa fizesse só o que entende, jamais avançaria um passo.”

“Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos.”

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

“Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.”

“Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.”

“Fique de vez em quando sozinho, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.”

“Escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos.”

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A escritora Clarice Lispector Acervo Clarice Lispector | Instituto Moreira Salles

Clarice Lispector hoje: lives, leituras, cursos, filmes, musicais, site, peças e promoção de livro

No dia do centenário de Clarice Lispector, nesta quinta, 10, a autora é lembrada por seus leitores - Chico Buarque, por exemplo, aparece em vídeo lendo crônica dela

Maria Fernanda Rodrigues , O Estado de S. Paulo

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A escritora Clarice Lispector Acervo Clarice Lispector | Instituto Moreira Salles

Há 100 anos, nascia Clarice Lispector. Uma das principais escritoras brasileiras, ela é homenageada nesta quinta, 10, com lives, leituras e muito mais, em uma vasta programação realizada por instituições brasileiras e estrangeiras. O Instituto Moreira Salles, por exemplo, lança um site novo dedicado à autora no seu centenário. Chico Buarque lê a crônica Águas do Mar. Mônica, a mais famosa personagem de Mauricio de Sousa, se veste de Clarice.

 

Selecionamos alguns eventos e ações em homenagem ao centenário de Clarice Lispector

  • Novo site

O Instituto Moreira Salles inaugura, nesta quinta, 10, um novo site dedicado a Clarice Lispector. Bilíngue, em português e em inglês, o portal reúne fotos, manuscritos, áudios, vídeos, cartas, aulas e textos críticos, em grande parte proveniente do acervo de Clarice, sob a guarda do IMS desde 2004. Entre os destaques está, por exemplo, uma aula em vídeo de Yudith Rosenbaum, professora da FFLCH-USP, na qual ela analisa em detalhes o conto Felicidade clandestina. Por causa da pandemia, uma grande exposição programada pelo IMS para o ano do centenário de Clarice vai ficar para 2021.

  • Livros com desconto e box comemorativo

Títulos selecionados de Clarice Lispector, todos publicados pela Rocco, estão com 10% de desconto até o dia 14 para compras exclusivas pelo site da Livraria da Vila. A editora está aproveitando a efeméride para lançar um box comemorativo com quatro romances de Clarice que ganharam novas edições recentemente. São eles: A Maçã no Escuro, A Paixão Segundo G.H., Perto do Coração Selvagem e A Hora da Estrela. Custa R$ 164,90.

  • Vigília Clarice

A Editora Rocco promove a Vigília Clarice 100 anos a partir das 22h desta quinta, 10. Será um sarau virtual com a participação do público e coordenação de João do Corujão, que vai entrar pela madrugada. Pelo Zoom (ID 4989411569. Senha 1QdDm2)

  • Clarice 100 Ears

Chico Buarque lê a crônica Águas do Mar dentro do projeto Clarice 100 Ears - uma biblioteca sonora criada por Marília Librandi a convite do Brazil LAB, da Universidade de Princeton, para homenagear a escritora a partir da leitura de sua obra. Quem quiser gravar um áudio lendo seu trecho preferido de Clarice Lispector pode fazer pela plataforma. É possível ver o vídeo lá, pelo YouTube ou aqui.

 

  • ​Aula experiência

A The School of Life promove, no dia 10, das 19h às 21h, a aula experiência Como Clarice Lispector Pode Mudar Sua Vida. O evento será conduzido por Simone Paulino, autora de livro homônimo ao evento, e conta com a participação de Maria Fernanda Cândido, Leona Cavalli, Valter Hugo Mãe, Aline Bei, Leonardo Tonus, Nélida Piñon e Wagner Schwartz, entre outros. R$ 157, pelo Zoom, inscrições pelo site da The School of Life.

  • Bienal Virtual do Livro de São Paulo

Dentro da programação da Bienal Virtual do Livro de São Paulo, o Fórum das Letras, de Ouro Preto, promove o encontro O Livro das Horas: a hora das estrelas, com Nélida Piñon, nesta quinta, 10, das 15h às 16h, com transmissão pelo site da Bienal, a partir da sala da Arena Virtual.

  • Live As adaptações literárias da obra de Clarice Lispector para o Audiovisual

Com transmissão pelo canal do YouTube do SescSP, a live, às 16h, conta com a participação de Nicole Algranti, cineasta, indigenista e sobrinha-neta de Clarice Lispector; Taciana de Oliveira, cineasta, comunicóloga e diretora do filme A Descoberta do Mundo; e Teresa Montero, biógrafa, roteirista e autora dos livros O Rio de Clarice, Eu sou uma pergunta – Uma Biografia de Clarice Lispector, entre outros, que fará a mediação.

  • Cem Vezes Clarice

Cem Vezes Clarice é um evento organizado pela pós-graduação em Estudos da Tradução, dentro do Projeto Capes/Print de Internacionalização da Universidade Federal de Santa Catarina. Será a partir do primeiro minuto desta quinta, 10, aqui. Com participação de Alison Entrekin, Aurora Bernardini, Dalit Lahav, Izabela Drozdowska-Broering, Jacques Fux, Leenu Nigu, Li Ye, Luci Collin, Marília Librandi, Mwewa Lumbwe, Nádia Battella Gotlib, Sérgio Medeiros e muitos outros. 

  • Bienal Internacional do Livro de Pernambuco

A passagem de Clarice Lispector pelo Recife será lembrada nesta quinta, 10, em dois painéis da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. Às 18h, a arquiteta Amélia Reynaldo faz a palestra com o tema A Cidade Sitiada, com Amélia Reynaldo. O tema de Marilene Felinto, às 20h, será Um mundo todo vivo tem a força de um Inferno - em que vai evocar suas leituras da obra de Clarice e retomar alguns temas de A Paixão Segundo G.H., sobretudo a forma como as empregadas domésticas são tratadas nas obras de Lispector. Transmissão pelo site da Bienal.

  • Encontro online

Scortecci, Rocco e UBE/SP promovem um encontro online no dia 10, das 16h às 18h, para festejar o centenário de Clarice e os 80 anos da publicação de sua obra de estreia, o conto Triunfo, na Revista PAN. Com Cristina Campos Rodrigues, Beatriz H. Ramos Amaral, Cris Rezende, Eliaquim Batista, Ieda Lebensztayn, João Scortecci, Luciana Araújo Marques, Maria Fernanda Elias Maglio, Maria Mortatti, Mariana Mendes, Mariângela Alonso, Marlise Vaz Bridi, Nádia Battella Gotlib, Renata Soares Junqueira, Ricardo Ramos Filho e Rogério Duarte. Transmissão pelo Zoom (ID de acesso: 725 467 53 53).

  • Documentário e curta

A partir das 21h desta quinta, 10, o SescTV exibe duas produções em homenagem ao centenário de nascimento de Clarice Lispector: o documentário De Corpo Inteiro, e o curta-metragem O Ovo, ambos dirigidos pela cineasta Nicole Algranti.

  • Na sala com Clarice: peça e palestras

Peça literária on-line de Odilon Esteves em celebração ao centenário de Clarice Lispector, em que o público escolhe, a partir de um cardápio de textos da autora, quais gostaria de ouvir naquela sessão. Em cartaz até 31 de janeiro (com intervalo entre 20/12 e 9/1), tem sessões aos sábados, às 20h, e domingos, às 19h. Apresentação especial nesta quinta, 10, às 20h. Ingressos para o projeto Na Sala com Clarice são distribuídos gratuitamente pela plataforma Sympla. A peça faz parte da programação do Centro Cultural Banco do Brasil em Casa, que promove, ainda, no dia 14, a palestra Clarice Lispector: Tradição e invenção nos modos de contar histórias, de Nádia Battella Gotlib. A agenda continua em janeiro. No dia 11, Noemi Jaffe apresenta o tema A repartição dos pães e no dia 25, Maria Homem faz a palestra Clarice: A casa, a terra e o céu.

  • Dia de Clarice

O Group Dot BR promove, ao longo de toda esta quinta, 10, performance, leituras, exibições de vídeos, curtas, bate papos, painéis e uma exibição especial do espetáculo Dentro do Coração Selvagem com um bate papo com o elenco. A programação começa às 7h e segue até o fim da noite, pelo Zoom e redes sociais do grupo. Veja a programação completa.

  • Turma da Mônica homenageia Clarice

A Mauricio de Sousa Produções presta homenagem a Clarice Lispector no site Donas da Rua, criado para dar visibilidade a mulheres notáveis. A homenagem é destaca também no site Conexão Turma da Mônica, área infantil da Bienal Virtual do Livro de São Paulo.

  • Musical A Hora da Estrela Ou O Canto de Macabéa

Em cartaz antes da pandemia, o musical com Claudia Ventura e Claudio Gabriel no elenco, direção e adaptação de André Paes Leme, direção musical de Marcelo Caldi e trilha original de Chico César, será transmitido ao vivo, a partir do Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil, no dia 20 de dezembro, às 19h, pelo canal da Sarau Agência no YouTube e pelo Canal Arte 1.

 

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