LUIZ BRAGA/DIVULGAÇÃO
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Edyr Augusto prova que viver é perigoso no livro 'Pssica'

Autor paraense empolga com romance sobre tráfico de escravas em que a escrita veloz dita o ritmo da emoção

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

25 de agosto de 2015 | 06h00

Apenas a primeira frase (“Era para ser um dia normal, de aula”) pulsa naturalmente – as demais, até a última, entram em um ritmo enlouquecedor, transformando o romance policial Pssica (Boitempo) em um dos melhores do gênero já lançados no Brasil. A escrita telegráfica, frenética, criada pelo paraense Edyr Augusto provoca um efeito viciante no leitor, inquieto até descobrir o paradeiro de Janalice, a menina que esperava que aquele fosse um dia normal, de aula – envolvida em um escândalo provocado pelo namorado (que tornou públicas cenas de uma transa entre eles), ela é enviada para a casa dos tios onde, certo dia, é raptada na rua e transformada em escrava sexual. 

“Os ratos d’água, extremamente ativos ainda agora, com o tráfico de escravas brancas são bons temas, panos de fundo para os meus livros”, conta o autor em entrevista por e-mail ao Estado. “No entanto, escrevo sobre o sentimento das pessoas, tiradas de seu conforto por algum ato violento, fazendo-as agir. São temas candentes, e, de alguma maneira, penso que chamo a atenção do público sobre isso, pois as autoridades estão fartas de saber.” 

Edyr nasceu no Belém, em 1954. Estreou na literatura em 1998, com Os Éguas. Lançou depois Moscow (2001), Casa de Caba (2004), Um Sol para Cada Um (2008) e Selva Concreta (2012). Sua obra já despertou interesse no exterior onde, além de Inglaterra, Peru e México, foi traduzida para a França, que lhe concedeu ainda o prêmio Caméléon de melhor romance estrangeiro (por Os Éguas, lá batizado de Belém). O motivo é bem explicado pelo também romancista Daniel Galera, autor da apresentação de Pssica: “uma narrativa que nem se dá ao trabalho de arrancar para depois acelerar. O velocímetro está no vermelho no instante em que a sentença de abertura nos informa: ‘Era para ser um dia normal’”.

“Sou da cidade. Gosto do urbano”, observa Edyr. “Minha literatura reflete isso. Esse choque entre essas pessoas que vêm do interior para a cidade grande e vão se adaptando ou não a isso. Moro no centro da cidade, e meu escritório fica a 300 metros. Ando todos os dias, indo e vindo. Conheço toda a fauna que me cerca. Craqueiros, engraxates, camelôs, ‘olhadores’ de carros, motoristas de táxi, ladrões, prostitutas e rappers. Falo com todos. Ouço conversas. Observo sua ação no dia a dia.”

Sem se afastar do gênero policial, Pssica (gíria que significa “maldição”) vasculha assuntos mais profundos, como a consequência do desespero, da maldade e do capricho da mente perversa dos criminosos. A técnica narrativa de Edyr consiste em uma descrição quase fotográfica do que está acontecendo entre os personagens, do contraste entre essa ação e o diálogo (cada um revelando ou sugerindo algo sobre o outro). “Meu texto é veloz para acompanhar o mundo de hoje em seus melhores e piores momentos”, afirma o autor.

Um dos principais escritores de policiais, o americano Raymond Chandler (1888-1959) dizia que a única coisa que perdura na escrita é o estilo. Ele também desprezava a mera trama – independentemente do tema do livro, importa é a maneira como é escrito. “Meus personagens envolvidos com roubo, assassinatos e outras atividades afins, não chegam a ser julgados. Eles são o que são. E, na maioria das vezes, têm outros lados interessantes, de tal forma que nos envergonhamos de torcer por eles em alguns momentos”, comenta Edyr.

Em Pssica, além de Janalice (que logo se tornará a prostituta Jane), a trama acompanha um imigrante angolano que decide vingar o assassinato da mulher e um jovem que herda a função de comandar uma operação de roubo de cargas nos rios sem lei do Pará. Todos com uma missão de vida ou morte. E Edyr não é condescendente, assim como não o é a vida. 

“Não gosto de grandes descrições de cenário e lugares. Prefiro quem vai direto ao assunto, como Brett Easton Ellis e Marcelo Mirisola”, garante. “Não gosto de finais felizes, que desapontam tudo o que vem antes. Viver é difícil. Viver é perigoso.” 

PSSICA

Autor: Edyr Augusto Proença

Editora: Boitempo (96 págs., R$ 28)

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