Zweig renasce em ´Morte no Paraíso´

No verão de 1940, o pintor espanhol Salvador Dalí e a mulher, Gala, reencontram o escritor austríaco Stefan Zweig, em um restaurante. Estavam em Londres e Zweig, respeitado autor judeu que estava decidido a se mudar para o Brasil fugindo do nazismo, tenta convencer o pintor a acompanhá-lo. Dalí resiste, alegando horror aos trópicos. À beira das lágrimas, Zweig demora-se, então, ao descrever as dimensões das borboletas brasileiras, acreditando que somente no Brasil o pintor e Gala seriam perfeitamente felizes. Dalí, porém, não dá o braço a torcer: responde que há borboletas grandes em qualquer parte do mundo. "Ele parecia acreditar que nossa ida ao Brasil era uma questão de vida ou morte", escreveu o pintor em seu diário. O flagrante, significativo para descrever a obsessão que Zweig sentia pela perseguição aos judeus na Alemanha, é apenas uma das diversas novidades reveladas pela nova versão de Morte no Paraíso (Rocco, 600 págs., R$ 68,50), livro publicado em 1981 e, depois de reescrito pelo autor, Alberto Dines, sai agora em edição mais completa e encorpada. "Desde a primeira edição, foram divulgados os diários de Zweig e eu recebi inúmeras contribuições, o que justificava a reescrita", conta Dines, que lança o livro amanhã, às 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2.073). Europeu culto, elegante, rico, sensível e, principalmente, pacifista, Stefan Zweig mudou-se com a mulher Lotte para Petrópolis, onde acreditava ter realmente encontrado o país do futuro, título de um dos livros que escreveu (Brasil, País do Futuro), expressão cunhada por ele. Um ano e meio depois daquele encontro com Gala e Dalí, porém, no carnaval de 1942, ele se suicidou ao lado da mulher, tomando uma dose dupla de veneno - o avanço das tropas de Hitler, que capturaram Paris e apontavam para a Inglaterra, elevou sua angústia a um nível intolerável. "Mas Zweig não é apenas o homem célebre que se suicidou no país onde buscou asilo", sustenta Dines. "Ele catalisa os tormentos de uma época, os personagens que focalizou para biografar, o mundo em permanente mutação, o tempo em que viveu." Como prova, ele se lembra da autobiografia que Zweig terminou poucas semanas antes de se matar - o título original era O Mundo de Ontem (em português, O Mundo Que Eu Vivi). "Ou seja, o mundo que caía em 1942 ficou atualíssimo 64 anos depois: Zweig continua um best-seller na Europa porque sua tragédia revive temas eternos, além de problemas e angústias não resolvidas." Dines iniciou o trabalho de reescrita do livro dias depois de publicada a primeira edição, em 1981, quando começou a receber contribuições de pessoas que conheceram ou tinham algo para acrescentar sobre a passagem de Zweig pelo Brasil. Inicialmente, eram informações que renderiam novos rodapés mas, entre uma edição e outra, a quantidade de novidades atingiu um tamanho que justificava o novo trabalho.

Agencia Estado,

29 de agosto de 2004 | 12h19

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