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Zuza

Vai ser duro nunca mais topar com a pessoa encantadora que foi Zuza Homem de Mello

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2020 | 03h00

Passado o choque da notícia, por pouco não bateu vontade de reclamar do Zuza Homem de Mello: que história é essa, camarada, de nos deixar assim sem mais aquela, na madrugada de domingo, sem aviso prévio que nos acolchoasse o coração? Mas até nisso este cavalheiro em estado puro foi gentil, poupando seus amigos das angústias de uma reta final que poderia prolongar-se. Tinha chegado, fazia duas semanas, aos 87 anos, mas com um pique que desautorizava maus presságios. Poucos dias antes, terminara um livro sobre João Gilberto; e, à beira do infarto que o levaria, participara de uma conversa pela internet com outro baiano de quem sabia tudo, o Gilberto Gil.

Pensando bem, a essa altura o azougue Zuza tinha o direito de dar uma boa parada, ainda que fosse uma boa morrida. E, se assim ele se foi, num solavanco, há de ter sido por merecimento. Quem não sonha com uma vida que seja longa e morte que venha súbita?

Em mim, dói a ideia de que não nos veremos mais. A constatação tardia de que deveria ter buscado o seu convívio mais frequentemente. Resta o consolo da fina qualidade dos encontros que tivemos. O primeiro deles foi há mais de 30 anos. Às voltas com uma reportagem biográfica para um livro que primeiro se chamou Chico Buarque Letra e Música, depois Tantas Palavras, fui bater à porta de Zuza Homem de Mello, de quem tanto ouvira falar e de quem tanta coisa lera, personagem tão discreto quanto apaixonado dos festivais de música popular brasileira que marcaram a década de 1960. 

Quando, no ano passado, fiz parte da bancada que o entrevistou no Roda Viva, da TV Cultura, o Zuza me surpreendeu ao desencavar lembranças, tão nítidas quanto as minhas, daquele encontro, durante o qual lhe pedi que abrisse informações de bastidores do histórico festival de outubro de 1966. Na finalíssima, após dramático processo decisório, longe dos olhos e ouvidos da imprensa e de um crepitante auditório rachado ao meio, o primeiro lugar foi dividido entre A Banda, de Chico Buarque, e Disparada, de Geraldo Vandré

Como foi que se chegou à inusitada decisão de premiar duas músicas - perguntei ao Zuza, lá em 1989 -, se uma delas, qual?, ao que se murmurava, tinha tido mais votos do que a outra? Com a correção ética que era uma de suas marcas, ele não abriu para mim um segredo que se comprometera a guardar. E não o fez, anos mais tarde, sem sinal verde de Paulo Machado de Carvalho Filho, diretor da TV Record, que promovera o festival. Só então se pôde saber que nos bastidores A Banda fora a vencedora, e que se não levou sozinha foi porque o autor achou justo dividir o prêmio com Vandré. Na sua opinião - perguntei no Roda Viva -, qual das duas deveria ter vencido o festival? Admirador de Chico Buarque, nem por isso o Zuza titubeou: “Disparada, disparado!”

Volta e meia nos cruzamos, mas o que nos aproximou em definitivo foi a deliciosa disponibilidade nos desvãos da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Não apenas fortaleci os laços com o Zuza, como conheci e me encantei também por sua amada Ercília Lobo. Dado a graçolas, me ocorreu chamá-los de Zuza & Musa - sem saber que o jornalista Edmar Pereira, outro querido que também se foi, se antecipara na criação do achado. A bem da verdade, mais exato seria falar em Musa & Muso, pois a corrente positiva que os ligava atuava em dupla mão, sem prejuízo das individualidades que faziam daquele um par sem par. Um nutria o outro. E nos dois havia uma jovialidade cativante, a léguas, por favor, da deplorável macaqueação da juventude que não raro se vê entre maduros.

Na companhia deles, foram muitos os momentos para mim inesquecíveis. A festa nem um pouco geriátrica dos 80 anos do Zuza, em setembro de 2013. Um papo que tivemos, ele e eu, no palco do Café Filosófico, em junho de 2014. O lançamento de Copacabana - A Trajetória do Samba-Canção (1929-1958) que, há três anos, congestionou o mezanino da Livraria Cultura. Sua posse, bem pouco convencional, na Academia Paulista de Letras, em agosto de 2018. Ou o dia, já difícil de localizar no tempo, em que ele me ofereceu a honra e prazer de prefaciar Música com Z, suculenta coletânea de artigos, reportagens e entrevistas datados de 1957 a 2017. As tantas ocasiões em que, no rádio, da TV ou de corpo presente, eu o ouvi falar de música, mestre nunca exibido, jamais professoral. Para não falar na paciência, simpatia e generosidade com que tantas vezes ele acolheu minha perguntação, fosse sobre artistas que conhecia bem, fossem simples indicações, por exemplo, de mesa boa (quesito em que me vem de pronto a Cervejaria Ramiro, de Lisboa, da qual falou com especial entusiasmo), de vez que sua sabedoria se espraiava por prazeres outros que os musicais.

Vai ser duro, daqui por diante, nunca mais topar com o sorriso e os braços também literalmente abertos do Zuza Homem de Mello. Sua morte, num momento trevoso como este que atravessamos, me traz aqueles versos de Manuel Bandeira no Rondó dos Cavalinhos, a propósito da despedida de um grande escritor mexicano que fora embaixador no Brasil: 

“Alfonso Reyes partindo

e tanta gente ficando”.


É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DESATINO DA RAPAZIADA’

 

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