Zunzum na capoeira

Temas novos de Pinheiro já são cantados nas rodas antes de serem lançados em CD

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

Parte do resultado pretendido por Paulo César Pinheiro - para que o interesse pela capoeira faça brotar dela uma música menos primitiva - de certa forma já vem acontecendo, a partir de seus temas compostos para a peça Besouro Cordão de Ouro, que teve direção musical de sua mulher Luciana Rabello. Alguns deles - Toque de São Bento Grande de Angola, Toque de São Bento Pequeno e Toque de Santa Maria - já estão nas rodas de capoeira de várias partes do País, antes de sair no CD Capoeira de Besouro, transmitidos na melhor tradição oral. "Tantos capoeiristas viram a peça tantas vezes, que aprenderam as músicas. Os meninos que jogam capoeira na peça também estão sempre nas rodas e levaram essa música pra lá", observa o autor. É o Besouro, que tinha uma aura mágica, provocando zunzum.

No CD Pinheiro reuniu as dez canções feitas para o musical, mais quatro que não entraram por não se adequarem ao tempo de duração da montagem e um samba de roda. Para o autor, o grande barato da peça dirigida por João das Neves era "o mistério de Besouro ser o personagem principal sem existir", ou seja, ele nunca aparece em cena, mas sua presença paira no ar. A mesma sensação se tem no CD, uma vez que as canções não perderam a força pela ausência do componente cênico.

Na instrumentação, tanto na peça como no CD, ele procurou a simplicidade das rodas de capoeira. "O único instrumento harmônico é um violão, às vezes um cavaquinho. Queria que o berimbau fosse o condutor, o eixo principal da história. Então chamei o maior craque deles, Mestre Camisa, o sujeito mais importante que a capoeira tem no mundo hoje." Ouvindo discos de capoeira, Pinheiro passou a compor em cima dos toques, "por isso ficou muito bem amarrado". O violão de Maurício Carrilho atua como um terceiro berimbau harmônico. Camisa achou espantoso.

Congada e maracatu. O próximo projeto para teatro musical de Pinheiro já está pronto, só aguardando patrocínio para a montagem, que também será dirigida por João das Neves. Com música baseada na congada mineira e numa canção de Pinheiro em parceria com Sérgio Santos, do disco Áfrico, Galanga Chico Rei conta a rica história do Rei do Congo, por quem o poeta se encantou tanto quanto Besouro Mangangá.

Depois da capoeira e da congada, ele tem planos de se aprofundar em trabalho semelhante sobre o maracatu, fechando o círculo em torno dos três eixos fundamentais da cultura afro-brasileira: Bahia, Minas Gerais e Pernambuco. "Estou mexendo na reserva brasileira", diz Pinheiro, que é neto de índios e promove a mistura racial desde a década de 1970, quando Clara Nunes gravou a obra-prima Canto das Três Raças, parceria com Mauro Duarte.

É interessante como a música de Pinheiro vem caminhando para a realização cênica. De seu livro Atabaques, Violas e Bambus, a parte dos bambus foi criada em cima das lendas indígenas. O paraense Paulo André Barata musicou 14 poemas daqueles e vai encenar em Belém (Pará) uma "ópera popular amazônica". Em 2011 o mais produtivo compositor brasileiro lança o segundo romance em abril, mais um livro de sonetos e outro de contos.

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