Zum e a estética do digital

Revista chega à 2ª edição debatendo as novas linguagens do fotojornalismo

SIMONETTA PERSICHETTI, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2012 | 03h11

Se o primeiro número da revista Zum de fotografia, publicada pelo Instituto Moreira Sales, era mais uma apresentação do panorama da fotografia contemporânea, este segundo número, lançado anteontem no Rio de Janeiro e hoje em São Paulo, está mais voltado para as discussões em torno do documental: "Não foi um critério, nem um ponto de partida, fomos definindo a pauta e esta questão do documental ficou mais forte", diz por telefone o editor Thyago Nogueira.

A Zum, provavelmente, não pode ser definida como uma revista de fotografia e sim uma revista sobre fotografia. Seus textos são, em geral, assinados não por críticos ou jornalistas da área cultural, mas por cineastas ou escritores. "Sempre pensei na fotografia dialogando com outras manifestações artísticas", conta o editor, seguindo a própria gênese da fotografia que já nasceu ligada às mais diversas áreas do saber.

Basetrack. Nesta segunda edição, o destaque fica para o coletivo formado pelos húngaros Balazs Gardi e Teru Kuwayama, pela canadense Rita Leistner e pelo inglês Omar Mullick, que criaram o projeto Basetrack. Em 2010, eles foram ao Afeganistão acompanhar o dia a dia de um grupo de fuzileiros navais norte-americanos. A ideia era aproximá-los das famílias por meio das redes sociais. Os fotógrafos dispensaram as câmeras profissionais e trabalharam apenas com iPhones. "Somos todos fotógrafos independentes. Fomos lá porque nos pareceu que muitos se preocupavam com as questões do Iraque, mas poucos com o que acontecia no Afeganistão", explica Balazs Gardi por telefone, do Rio.

Gardi veio ao Brasil especialmente para o lançamento da revista, aproveitando para fazer duas palestras, uma anteontem, no Rio e outra hoje, em São Paulo. Ele foi pela primeira vez ao Afeganistão logo após o ataque às torres gêmeas, em 2001, e retornou com o grupo dez anos depois. O projeto durou quase sete meses e o que os interessava era ter uma aproximação irrestrita ao batalhão e contar sua vida. "Acho que filosoficamente foi uma aproximação diferente", observa Gardi. "Eles eram os protagonistas das histórias de seu dia a dia."

Dessa forma, uma narrativa do cotidiano foi se formando, rostos, atitudes, situações eram colocados em tempo real nas redes sociais. Claro que não demorou muito para o governo norte-americano se sentir incomodado e pedir a eles que voltassem. Não era a primeira vez que celulares estavam sendo usados para registrar uma guerra ou um fenômeno da natureza.

"O iPhone tem uma câmera excelente e nos facilitou o trabalho", conta Gardi. "Além de termos sobrevivido bem à poeira no Afeganistão, o resultado é um trabalho que parece mais íntimo, um álbum de família, sem por isso deixar de ter importância fotojornalística."

Aliás é esse tema que Balazs Gardi aborda nas suas conferências no Brasil, a nova forma de fotojornalismo que está cada vez mais se tornando habitual. Um fotojornalismo que parece renascer com várias e múltiplas possibilidades, até mesmo nos variados projetos das agências fotográficas em busca de uma estética diferenciada.

Ensaios inéditos. Esta edição de Zum traz também uma deliciosa entrevista com o cineasta Errol Morris, que questiona os teóricos da fotografia, em especial o trabalho de Susan Sontag. Inclui ainda ensaios inéditos da Claudia Andujar, de Mauro Restiffe e do celebrado sul-africano Pieter Hugo, que registrou em Agra jovens trabalhando nos lixões em que são despejados computadores descartados do Primeiro Mundo. Há espaço também para a estranha história do mexicano Enrique Metinides, que se especializou em fotografar acontecimentos policiais e acidentes de carros, e para a trajetória de William Eaglestone, fotógrafo que na década de 1970 levou a fotografia colorida para os museus.

De periodicidade semestral e, de alguma maneira, inspirada na norte-americana Aperture, a Zum não é uma revista para ser folheada, mas sim para ser lida.

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