Zorn do underground à fama

No auge da canonização de sua obra, o compositor traz ao Brasil seu renomado Masada Quartet

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

02 de março de 2012 | 03h09

Em 1994, durante um surto de criatividade, o compositor e saxofonista nova-iorquino John Zorn escreveu cerca de 300 peças que repensavam a tradição musical judaica em um contexto de free jazz contemporâneo. Não eram meras adaptações de escalas do oriente médio a voos vanguardistas, mas sim a concepção de um universo em que nuances da música Klezmer, dos sofridos trejeitos melódicos aos ritmos, foram combinadas com o vocabulário de um saxofonista versado em música erudita do século 20, de Bartók a Cage, delineando estruturas de improvisação a serem exploradas pelos músicos. O resultado foi uma enciclopédia musical conhecida como as composições Masada, batizadas com o nome da banda que Zorn formou para interpretá-las, o Masada Quartet, que toca em São Paulo, no Cine Joia, no próximo dia 17. Trata-se de uma visita ao País de craques do jazz moderno (o trompetista Dave Douglas entre eles) liderados por um ícone do underground nova-iorquino que, nos últimos anos, tem sido canonizado pelos círculos mais tradicionais de música erudita da cidade como um dos compositores essenciais do erudito contemporâneo.

"John ouviu uma sonoridade muito particular que utilizava todos os nossos talentos", conta Joey Baron, baterista do Masada. "Ele engrenou e começou a escrever centenas de peças que buscavam aquele som. Quando apresentava a música, ia sempre além, buscando apresentá-la em diversos formatos, com grupos de câmara, bandas de rock ou com o nosso quarteto", explica.

Reunidas no que Zorn chama de The Book of Angels, a profusão de peças seria a base para uma série de gravações, em diversas combinações musicais, que se destacariam como um dos braços mais férteis da obra de Zorn na década seguinte (de 1994 a 2007 foram cerca de 20 títulos lançados). Uma resenha de um show ao vivo do Masada feita pelo crítico Nate Chinen, do New York Times, comparou as peças a um continente dentro do universo da obra de um compositor prolífico: depois de algumas viagens ao lugar, reconhece-se os sotaques da língua, as variações climáticas, a topografia definida por Zorn. "Em todo esse tempo de estrada, desenvolvemos uma linguagem. É uma coisa que se faz em qualquer contexto musical: você estabelece um molde de comunicação e busca trabalhar com ele sem seguir os outros, sempre trazendo um toque pessoal à música", conta Joey por telefone da Alemanha, onde faz pit stops entre turnês para compor suas própria obras.

A vinda do Masada Quartet ao Brasil acontece ao mesmo tempo em que a música de John Zorn tem deixado - durante a última década - o downtown nova-iorquino para se estabelecer entre os círculos menos radicais da música erudita contemporânea. O processo tem sido gradual e transformado Zorn de pária em vaca sagrada da música contemporânea. Em 1998, a Filarmônica de Nova York tocou uma de suas peças. No início dos anos 2000, um de seus concerto para violino foi indicado ao prêmio Pulitzer. Em 2006, o compositor recebeu a cobiçada bolsa MacArthur para músicos. "Eu sempre fui o esquisito, o cara que eles chamam quando querem algo bizarro", contou o próprio ao New York Times, no ano passado. Na ocasião, a sua obra para soprano e orquestra La Machine de l'Être fazia sua estreia na New York City Opera ao lado de obras de Arnold Schoenberg e Morton Feldman, gigantes da música erudita do século 20 que, no mesmo programa, ressaltam o tipo de importância que tem sido dada à música de Zorn nos últimos anos (o Alla Scala, de Milão recentemente mostrou interesse em comissionar uma obra).

A história não foi sempre esta. Nova-iorquino nato, Zorn forjou seu talento em botecos e lofts que abrigavam a cena free de Nova York nos anos 80, e passou anos nas sombras do downtown até alcançar o status de promessa com um corpo de obras abrangente, que transita por pop kitsch e virtuosismo de câmara com o mesmo afinco.

Suas primeiras obras eram conceituais. Adaptavam, por exemplo, ideias de jogos de tabuleiro à regência de um grupo musical. Em Cobra, de 1984, e uma série de outras obras que a antecederam, Zorn lidera mudanças de tom e atmosfera no grupo partir de instruções escritas em placas de papel. O intuito das peças era obter mudanças abruptas como as que acontecem em trilhas sonoras, uma das maiores influências na música de Zorn. Esta linha de pensamento que culminou em The Big Gundown, disco de 1985 que estabeleceu Zorn como um dos compositores em ascensão da cena nova-iorquina com releituras de composições de Ennio Morricone. O tipo de vanguardismo associado a Zorn desde os anos 80 tem uma aura mítica: um músico incansável em suas explorações, que nunca abriu mão de sua liberdade criativa, consegue se estabelecer sem fazer concessões. Deixando de lado a sempre questionável recepção de um rebelde pelo status quo, tem sido uma história de sucesso: Zorn se transformou na marra em uma das vozes mais importantes da vanguarda, e junto com isto construiu um oásis de música livre com sua gravadora, a Tzadik, fundada em 1995, e o espaço The Stone, no downtown de Nova York, em que tocam seus parceiros musicais.

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