Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Zona de conforto

Nada mais interessante neste mundo do que essa espécie que o Sebastião Salgado, em sua florida fala messiânica, deu de chamar de “bicho-homem”. Nela incluído, claro, o bicho-mulher – mas fiquemos hoje com o primeiro, dada a insistência com que ele, nos últimos dias, veio bater na porta eletrônica deste bicho-cronista. O motivo foi ter eu contado, em semanas consecutivas, histórias de duas cafetinas, a Suzana Castera e a Olímpia Vasques Garcia, senhoras de boa e má fama que em outros tempos proporcionaram saciedade sensorial a bichos-homens nas praças do Rio e Belo Horizonte.

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

23 de junho de 2015 | 02h00

Em tom nostálgico-testosterônico, leitores maduros deploraram o desaparecimento, ou pelo menos a rarefação, da categoria profissional em que se distinguiram a Suzana e a Olímpia. Onde estão, clamou um deles, as arquiputas e os arquiputeiros de antanho? 

Paulistanos rodados sacaram recordações do La Licorne, da Laura Garcia e de Hercílio Paiva, o Gravatinha, na rua Major Sertório, um desses mocós onde diversão e pecado vêm a ser a mesma coisa. Entre incontáveis celebridades, por lá teria passado, no auge do poder, o secretário de Estado americano Henry Kissinger, não sendo impossível que tenha coincidido no escurinho com o delegado Sérgio Fleury, pois consta que o açougueiro-mor do regime militar ali batia ponto – ninguém é de ferro – entre sessões de pau de arara e choque elétrico. 

O piloto Nikki Lauda fez pit stop sexual no La Licorne, tanto quanto, com sua tez envernizada e dentes de mentex, o cantor Julio Iglesias. E também, pasme, a despeito do sobrenome clerical e de seu democratismo cristão, o presidente chileno Eduardo Frei. Versões delirantes dão conta de que na cozinha da boate da Laura e do Gravatinha teria nascido o Steak à Diana, batizado em homenagem a uma cantora. No La Licorne, informa um veterano, servia-se carne de veado – só no prato, suponho.

Cavalheiros não necessariamente paulistas evocaram a Eny Cezarino, dona de mitológico prostíbulo em Bauru, vicejante sobretudo nas décadas de 1960 e 70 – conforme se pode ler, aliás, na biografia romanceada Eny e o grande bordel brasileiro, de Lucius de Mello, cuja nova edição, revista, ampliada e ilustrada, acaba de sair. O mais graduado dos frequentadores da Casa da Eny foi prova viva de que há políticos capazes de renunciar a tudo, inclusive à presidência da República, mas não aos prazeres prodigalizados por suas eleitas. 

A propósito de política, exatamente, do Rio de Janeiro me chegou a sugestão de que os vereadores cariocas mandem colocar placa no hall de entrada do Edifício São Borja, na Cinelândia, para perpetuar a memória do “Senadinho”, bordel que ali fervilhou durante anos. 

Senadinho, explica o leitor, porque em frente ficava o hoje demolido Palácio Monroe, sede, até a mudança da Capital, do Senado da República. “Era mais fácil”, cicia a víbora, “encontrar os senadores no Senadinho do que no plenário do Monroe...” Foram-se os Poderes para Brasília e, confinados desde então naquela cuia emborcada do Niemeyer, os membros da mais alta casa legislativa do País já não tiveram, assim à mão, onde relaxar depois do expediente, quando não durante. Ao Edifício São Borja, inspirador, em seus melhores tempos, de poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, restou volver a prédio como qualquer outro.

Em Belo Horizonte, onde o poeta viveu e farreou na juventude, há muito se apagaram os traços de sua contemporânea Olímpia Vasques Garcia (nada a ver, vocês aí que perguntaram, com a Dona Olímpia de Ouro Preto, folclórica mas não libertina). E, ao que me dizem, já não existe a casa da Zezé, aonde, nos anos 1960, ia desaguar uma fartura de moços de família – recém-saídos, em brasa, de seus namoros de portão, nos quais, sob estreita vigilância paterna, tudo o que se podia ter de relações em geral se limitava ao verbo relar. 

Na moralidade implacável daquela Idade Média mineira, havia dois tipos de moças: as que eram “pra casar”, e as demais, engaioladas numa desprezível (mas nem por isso pouco requisitada) categoria avícola, a das “galinhas”. Convinha não confundir. Ainda me diverte a desdita de um camarada da minha turma de bairro que, depois de nos entreter semanas a fio com relatos de seus avanços libidinosos, passou pelo constrangimento de se apaixonar pela “galinha” – com a qual, casado na igreja, veio a ter numerosa ninhada. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.