'Zoe surgiu como milagre'

Céline Sciamma admite que se não encontrasse a atriz, uma garota precoce, não teria realizado Tomboy

LUIZ CARLOS MERTEN , O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2012 | 03h07

Aos 30 anos e com dois filmes no currículo - La Naissance des Pièvres (Lírios d'Água) e Tomboy, que estreia hoje -, Céline Sciamma tornou-se uma das mais interessantes autoras do cinema francês contemporâneo. Ambos os filmes tratam da questão da identidade sexual - o relacionamento de duas garotas lésbicas e uma menina que adota uma persona masculina. Como Céline gosta de dizer que seu cinema, embora não seja autobiográfico, é muito calcado em lembranças e experiências sexuais - e como Tomboy ganhou o Teddy Bear, o Urso de Ouro gay em Berlim, no ano passado -, isso já lhe valeu um rótulo, de cineasta militante. Ela não teme ficar circunscrita ao gueto. Numa entrevista por telefone, de Paris, lembra que Pedro Almodóvar também ganhou o Teddy Bear, mas diz que rotulá-lo como cineasta gay é reducionismo. Se o desenvolvimento futuro de sua carreira lhe proporcionar metade da respeitabilidade de que Almodóvar desfruta, como autor, ela já estará satisfeita.

Céline tem mestrado de literatura. Queria ser roteirista. Virou diretora porque é assim que as coisas funcionam na França. "Aqui, os diretores escrevem os próprios roteiros. É muito rara a figura do roteirista profissional. Escrevi, ainda na faculdade, meu primeiro roteiro. Se não o realizasse, ele iria para a gaveta. Não foi uma decisão que tomei. As coisas aconteceram." Tomboy conta a história de Laure, que enfrenta problemas com os pais que estão em processo de litígio. Quando a família se muda para nova vizinhança, ela se transforma em menino, Michael, para se fazer aceita.

"Não sou Laure nem Michael, mas é evidente que muita coisa no filme faz parte das minhas lembranças de infância. A relação com a irmã, essa sim é inteiramente baseada no relacionamento que tive com minha irmã. Cheguei a reproduzir diálogos, claro que com o filtro da memória." Laure é uma transexual? "Tenho minha ideia sobre ela e poderia dizer o que acredito em que ela se transformará, mas não é importante para o conflito que retrato. Zoe Héran, que faz o papel, é uma menina muito precoce. Conversamos sobre isso porque era necessário que ela entendesse as implicações da personagem. Para ela, trata-se de uma fase. Foi assim que entendeu, e não teve problemas em seguir em frente, naturalmente que assistida por sua família. A mãe permaneceu o tempo todo no set."

Se não tivesse encontrado a atriz certa, Céline admite que não teria realizado o filme. "Quando o dinheiro da produção foi liberado, tudo se fez rapidamente. Sob grande pressão procurei o elenco, as locações. Zoe caiu do céu." A menina tem uma cena de nudez - no banho -, absolutamente necessária para a revelação de sua identidade. Céline não teve medo de ser acusada de abuso infantil? "Isso é coisa dos norte-americanos, obcecados com o politicamente correto. Ela esteve o tempo todo protegida, por nós e sua família."

A menina cortou o cabelo, adotou atitudes masculinas, mas o que a tornou atraente para a diretora é que já jogava futebol e tinha uma maneira muito natural de se colocar à vontade perante os meninos. Para facilitar a rodagem, os amigos de Laure/Michael são os amigos de Zoe na vida. "Deixei-os à vontade para que fizessem as cenas." Essa parte envolveu muita improvisação, mas as cenas de Laure com a irmã são inteiramente representadas. Havia um diálogo a seguir. "Zoe foi maravilhosa." Céline filmou com uma Cannon 7-D. "É uma câmera barata, muito leve, mas que reproduz a qualidade da imagem de cinema. Sua escolha foi uma decisão estética", informa.

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