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Ziraldo é destaque na Bienal do Livro

Autor vai participar de sete encontros com os leitores no evento que começa nesta quinta-feira

MARIA FERNANDA RODRIGUES - O Estado de S.Paulo,

08 de agosto de 2012 | 03h11

Nos mais de 30 anos em que frequenta a Bienal do Livro de São Paulo, o escritor Ziraldo já presenciou os mais diversos modismos editoriais: esoterismo, autoajuda, padres-escritores, romances históricos, séries de vampiros, anjos ou de crianças e adolescentes que têm de lidar com o fato de não serem nada populares na escola. Viu Paulo Coelho, Lair Ribeiro, Dan Brown, Stephanie Meyer e padre Marcelo Rossi chegarem ao topo das listas de mais vendidos, e, em alguns casos, sumirem. E não saiu de moda.

Ziraldo, 8 milhões de livros vendidos em 32 anos, é o que o mercado editorial chama de autor long-seller. A concorrência, é certo, aumentou nesses anos todos, e se hoje ele não vende mais as quantidades que vendia no lançamento de O Menino Maluquinho, em 1980, quando novas impressões da obra saíam direto da gráfica para a feira para darem conta da procura diária, suas sessões de autógrafos continuam sendo das mais concorridas da Bienal. Em 2010, assinou 1820 livros comprados durante a feira no estande da Melhoramentos; isso, sem contar os volumes que as crianças levam de casa ou os quadrinhos da editora Globo, que não divulga números.

Na edição que começa amanhã e segue até o dia 19, a tradição deverá ser mantida. Já estão programados sete encontros com o escritor no estande das suas duas editoras. Ele lança O Grande Livro das Tias, que reúne três obras já lançadas por ele sobre "o maior amigo do homem enquanto menino": Tantas Tias, Tia Nota Dez e Tia, Te Amo. Autografa também Os Meninos de Marte, quinto volume da série Os Meninos do Espaço, que Ziraldo criou para enganar a morte. Inventou de escrever 10 títulos para essa série e tem saído um por ano. "Já garanti mais cinco anos e até os 85 eu vou", brinca o escritor, que completa 80 anos em 14 de outubro. Outros dois volumes dessa obra já estão na cabeça do escritor: do menino de Vênus e de Saturno. "Eu não sabia que Saturno era um planeta tão confuso e complicado, mas agora já entendi." Na Bienal, vai autografar ainda o aplicativo para iPad As Grandes Histórias do Menino Maluquinho - Ele é o Cara, lançado pela Globo em 2012, mas nunca autografado em São Paulo.

Ziraldo está trabalhando em outros tantos projetos. Quer montar uma exposição no Rio com desenhos que fez de "mulheres bonitas" e não para de escrever e ilustrar. Para o aniversário, em outubro, a Globo, que concentra os títulos dele em HQ, lança Os Zeróis, com desenhos dele inspirados em comics americanos, em fotografias famosas e em quadros de pintores como Picasso e Dalí. Estão previstos, ainda, novos álbuns para os personagens Julieta e Menino Maluquinho.

E ele está empenhado em terminar de ilustrar O Reizinho do Castelo Perdido, que faz parte do projeto que já lançou um livro, O Maior Anão do Mundo, escrito por Ziraldo e ilustrado por Mauricio de Sousa, e que prevê a inversão dos papéis agora. "O Mauricio demorou a me mandar a história dele e ela tem muito súdito, muito castelo e eu tenho muita preguiça de desenhar castelo, mas está ficando bonitinho. É uma mão de obra danada", confessa. Ele conta que o colega pregou uma peça nele ao escrever um enredo tão rico, mas garantiu que termina para o Natal, ou para a Bienal do Rio, em 2013.

Incansável, Ziraldo diz que "trabalha feito um condenado", mas que gosta muito do que faz. "Tudo o que eu sonho em fazer, ao invés de sonhar, eu vou logo fazendo. O tempo que você gasta sonhando você gasta fazendo", comenta. Diz também que tem muito prazer em fazer o traço, cuidar do texto, e que escrever é mais difícil que desenhar. "É a coisa mais difícil do mundo, e por isso acho que dominar a palavra é a grande arte. É a arte da palavra que aproxima o homem de Deus."

Como ele mesmo diz, ficou fascinado pela arte da escrita "depois de velho". Já era homem feito quando começou a escrever para crianças e conta que nada do que tinha feito até lançar O Menino Maluquinho - nem mesmo sua passagem pelo Pasquim - teve tanta resposta. Continuou aceitando as encomendas da Melhoramentos de novos infantis. "Não se mexe em time que está ganhando."

Como só escrever um livro não garante que ele chegue ao leitor - em seu caso as vendas para o Governo ajudam e muito -, Ziraldo participa aqui e ali de eventos literários. Ressalta, no entanto, que não participa desses encontros para se aproximar do leitor ou para vender livro. "Mas é claro que isso me enriquece muito. É impressionante, forte e assustadora a resposta do público." Foi num desses encontros que se viu tendo de responder por que seus livros só retratavam meninos e tratou logo de mudar a direção da sua obra.

O escritor conta que faz essas turnês por escolas e feiras porque acredita estar ajudando a formar um país melhor. "Tive uma infância getulista, essa coisa de ser um bom cidadão, de poder fazer muita coisa pelo seu país." Para ele, um bom futuro passa por uma boa educação e só quem pode ser educado é quem domina a leitura. "A única maneira de abrir a cabeça é lendo, não é vendo televisão. Agora é a hora de botar livro na mão da criança, não é hora de botar internet. É por isso que viajo pelo Brasil. Estudar é muito importante, mas ler é mais importante que estudar."

Nessas andanças, viu mudanças de comportamento nos pequenos leitores, mas, na essência, são todos os mesmos. "Mudou o comportamento mas, como sentem, as coisas não mudaram nada. A criança é encantada do mesmo jeito, sofre do mesmo jeito." Viu também que há uma maior preocupação de escolas e pais com a leitura, logo, mais crianças lendo livros.

Ziraldo preferia não ter sido lembrado dos 80 anos. "É impressionante a vida que eu vivi do ponto de vista moral e técnico. Venho de um mundo mecânico. Agora você move o mundo com um chip. Mais da metade desses meninos que estão aqui vai atravessar o século, e eles não podem atravessá-lo despreparados. Vamos botar livro na mão deles. É isso o que me faz viajar pelo Brasil."

E a festa de aniversário? "Quando fiz 70 anos, minhas filhas e minha mulher fizeram uma festa para mim no Copacabana Palace que foi a maior que o Rio de Janeiro viu. Não vou fazer outra assim, mas o povo de Caratinga, minha cidade, já ligou para saber quantos cabritos vamos assar."

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