Ziraldo ajuda neta a aceitar morte da avó

É sempre um desafio escrever paracrianças sobre perdas, despedidas, mortes. A veterana Ruth Rocha por exemplo, não se acanha em dizer que não abre mão dos finaisfelizes em seus livros e que as crianças não precisam passarlogo pela experiência de ler coisas tristes. O livro maisrecente de outro veteraníssimo da área, o mineiro Ziraldo,lançado durante a Bienal do Livro de São Paulo, em abril,Menina Nina - Duas Razões para não Chorar, é um exemplo deobra eficientemente triste e assumidamente dolorida. Mas é umlivro cheio de vida - afinal, como se sabe, falar de morte é, aomesmo tempo, tratar da aventura de viver. O autor de O MeninoMaluquinho e O Bichinho da Maçã, entre outros hitsinfantis, levou mais de um ano debruçado sobre a missão derelatar a morte de uma avó, amada e adorada pela neta."Reescrevi cada uma das palavras que usei e redesenhei cadailustração uma dezena de vezes", diz Ziraldo. Ele teve maissorte que a protagonista do livro: "Fui muito bem servido deavó, no colo de quem dormi até quase alcançar os 50 anos devida." Um dos trechos mais duros e tocantes do livro é quandoNina desabafa, indignada com a morte de Vovó Vivi: "Vovó, vocênunca disse que queria ir embora assim, sem dizer adeus. Não eraisso, vovó, que estava combinado. E as farras que a gente iafazer? E suas promessas? E os meus segredos? Como é que eu voucrescer sem você me ver crescer?" E a própria menina resume, doseu jeito, o sentimento diante da perda: "Que aflição!" É só um exemplo de como Ziraldo transforma simplicidadeem precisão, de como sabe usar as palavras com sensibilidade demestre. De quebra, o final é uma lição de vida, sem a pretensãodos livros de auto-ajuda. Ziraldo fornece duas bem construídasrazões para que a menina pare de chorar a perda da avó - umaserve para os materialistas agnósticos e outra para quemacredita na vida eterna. "Dos dois jeitos desse adeus é que agente inventa a vida", conclui. Vale a pena conferir - e chorarainda assim. Serviço - Menina Nina - Duas Razões para não Chorar, de Ziraldo.Melhoramentos, 40 págs., R$ 18

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