Zimbo Trio Elétrico

Atitude Daniela Mercury tem agora, ao abrir a Virada com uma máquina de ritmo e suingue

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h12

Daniela Mercury é uma mulher destemida. Pois aos 47 anos, cinco filhos, mais de duas décadas de carreira, 3 milhões de cópias vendidas apenas de um de seus álbuns, ela decide fazer um anúncio de ordem íntima que pode surpreender os preconceituosos: Daniela Mercury vai cantar ao lado de Amilton Godoy.

O pianista do Zimbo Trio que fez história criando o samba jazz nos anos 60 e colocou Elis Regina no mapa da música brasileira com um suingue explosivo sustentado por ele, pelo baixista Luiz Chaves e pelo baterista Rubinho Barsotti já ensaia com a mulher que levantou as cortinas da axé music quando cantou O Canto da Cidade, em 1993. Um encontro de certo risco pelas naturezas de seus protagonistas.

Uma análise subjetiva e adiantada diria que Daniela tem de subir a guarda para não se perder nas harmonias habilidosas de Amilton e que Amilton tem de se segurar para não fazer o samba reggae da moça virar samba jazz. "Tenho de tomar cuidado para não descaracterizar o que ela faz", diz Amilton. "Mas eu sempre me descaracterizei mesmo", responde ela.

Ao lado de um pianista de formação erudita como Amilton, a sensação de Daniela não é diferente daquela que vivenciou ao anunciar sua relação afetiva com a jornalista também baiana Malu Verçosa. "Não separo a mulher da artista. Sou livre, e minha música também é livre." Daniela e a atual formação do Zimbo Trio, com Amilton Godoy, o baterista Percio Sápia e o baixista Marinho Andreotti, farão o show de abertura da Virada Cultural de São Paulo, no próximo dia 18, às 18 h, no principal palco da festa, o Julio Prestes.

Um mês depois do anúncio de seu relacionamento com Malu, a cantora diz que, hoje, as pessoas prestam mais atenção no que ela fala. "Aquilo acabou virando um manifesto de liberdade contra o machismo. Muitas pessoas me procuram para dizer que tiveram coragem de assumir suas condições depois que ouviram eu dizer o que eu disse."

Assim que deixou o encontro com o Estado, na tarde de sexta-feira, Daniela e Malu seguiram para o Teatro São Pedro, onde a cantora recebeu um prêmio dos formadores de opinião da Parada Gay de São Paulo e fez seu discurso mirando o deputado federal Marco Feliciano, polêmico presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, que assume atitudes contra os homossexuais. "Esse homem parece que persegue a gente. Mas quanto mais ele fala, mais levanta a bola para nossa causa. Obrigada Feliciano."

Daniela diz que não é apenas agora que sai do armário da axé music para mergulhar em um repertório de música popular brasileira clássica. Entre as músicas que ela e Amilton estudam levar para o palco estão as que fizeram parte de seus anos como crooner de boates em Salvador, como as encrencadas Ponta de Areia, Fé Cega Faca Amolada e Maria Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant. E ainda Marambaia, Upa Neguinho, Wave e Madalena. Uma salto sem paraquedas do qual ela só escapa se sair voando nas asas de Amilton. Mas também as suas O Canto da Cidade e O Mais Belo dos Belos. Um mergulho de Amilton no oceano de Daniela em que ele pode se dar bem se souber boiar no ritmo da baiana.

Os dois começam a falar de música e Daniela se empolga. "Só os angolanos e o povo de Cabo Verde entendem a divisão rítmica dos brasileiros. Quando peço para os italianos baterem palmas em meus shows, um samba vira tarantela. Quando peço o mesmo aos portugueses, o samba se transforma em vira."

O repórter pergunta a Amilton quais suas estratégias para entrar no universo de Daniela, mais rítmico do que harmônico, mais samba do que jazz. E Daniela volta a falar. "Meus discos não têm pouca harmonia, não. Pegue os meus discos pra você ver. No segundo, harmonizamos tudo com berimbau. Uma música vai de um tom maior para um menor o tempo todo. Nenhuma música se parece com outra." E revela uma história de bastidores curiosa. "Quando fui cantar O Canto da Cidade com a orquestra de Quincy Jones (compositor norte-americano e produtor de Michael Jackson), em 1995, eles não conseguiram entender a divisão da música, a síncope do axé. Foi uma dificuldade. E mesmo brasileiros aqui de São Paulo ou do Rio de Janeiro não conseguem tocar o que eu faço. Não tem jeito, tem de ser baiano."

O encontro com o Zimbo Trio não deve ser gravado. A princípio, Daniela e Amilton não pararam para pensar no assunto. "Gravar CD pra quê? O que vou fazer com eles? Ninguém mais quer comprar", ressalta a cantora. Seu disco novo, no entanto, está pronto para ser lançado. "Registrei 18 músicas em 20 dias." Sobre outro projeto, um documentário para mostrar as várias faces do axé da Bahia, Daniela fala com mais entusiasmo. "Vou mostrar as diferenças entre os vários tipos de ritmos baianos, as variações do estilo. Tem muita coisa."

Um pouco mais de conversa e o encontro se revela menos inusitado do que parece. Daniela diz ter "todos os discos do Zimbo Trio" e demonstra conhecimento profundo da carreira de Elis. "O Zimbo levou a quebradeira para ela. Associo muito o grupo ao suingue que ficou com Elis para sempre." / COLABOROU NATALY COSTA

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