Zezé Polessa mostra talento cômico em peça

Zezé Polessa, sem dúvida, é uma atriz muito talentosa e de repertório bastante versátil. Ora leva ao palco com incrível delicadeza os sentimentos conflitados da poetisa Florbela Espanca, ora opta pela leveza de uma comédia e consegue arrancar gargalhadas da platéia com um humor de tiradas, que jamais ultrapassam o senso comum, sobre os percalços do casamento. Depois de uma temporada de sucesso no Rio, ela estréia amanhã no Teatro Renaissance o espetáculo-solo Não Sou Feliz, mas Tenho Marido, sob direção de Victor Garcia Peralta. O texto é uma adaptação feita a seis mãos - por Maria da Luz, pela própria Zezé e pelo diretor - do livro homônimo da jornalista argentina Viviana Góme Thorpe, traduzido por Mônica Mayer, que em breve será editado no Brasil. No palco, Zezé encarna essa escritora chamada Viviana que, na noite do lançamento de seu livro - um volume que reúne crônicas sobre o seu próprio casamento, que já dura 27 anos -, dá um entrevista coletiva. As perguntas, supostamente, vêm da platéia, uma das boas soluções técnicas do espetáculo. "Nesse tempo todo a senhora já pensou alguma vez em se divorciar de seu marido?", pergunta uma repórter. "Não, em matá-lo, sim", responde rápido, e sorrindo. Esse será o tom do espetáculo, o depoimento de uma mulher que jamais investiu em outra coisa que não fosse o seu casamento e só fez acumular queixas e ressentimentos ao longo da vida. Pesado? Não, pelo contrário. "A leveza é fundamental nessa interpretação. Eu preciso me concentrar para isso. Se por acaso - já aconteceu - eu entrar em cena aborrecida por algum motivo, o espetáculo pesa, fica chato, não funciona." Zezé defende a importância de tocar nesse tema. "A idéia é mesmo vasculhar esse tipo de relação, a um só tempo simbiótica e antagônica", diz. E faz questão de contar o ´retorno´ de uma espectadora, numa das apresentações feitas em Petrópolis, cidade serrana do Rio. "Ela viu com o marido e disse que, ao chegar em casa, eles se beijaram muito." Na peça, a personagem se queixa do sexo sem beijo. Ou seja, o espetáculo serviu de alerta. "Casamento se constrói todos os dias, não dá para se acomodar", observa Victor Peralta. Dizem que um boa atriz consegue fazer bom teatro até de receita de bolo. Exagero, com certeza. Mas é impossível não apreciar o talento de Zezé Polessa que cria, apenas com sua voz e seu corpo, uma miríade de imagens em cena. No palco, concretamente, há apenas (supostas) pilhas de seus livros. Num dado momento da peça, por exemplo, a personagem decide fazer um churrasco, uma de suas ´ousadias´ fracassadas, já que nesse seu lar amargo lar essa é uma tarefa masculina. Mal ela começa, o cachorro rouba a lingüiça no momento em que ela elogiava a si própria para uma amiga, ao telefone. Ela então corre atrás do cachorro até conseguir tomar sua presa. Ali, na platéia, a gente pode jurar que ´viu´ a churrasqueira, a lingüiça e o cachorro, graças à arte dessa delicada palhaça, termo usado aqui no mais pleno sentido dessa arte cômica. Vale lembrar que a coreógrafa Deborah Colker assina a preparação corporal. Da mesma forma é possível ´ver´ no palco o marido refestelado no sofá de controle remoto à mão, ela própria fritando milhares de bolinhos na cozinha, os cuidados excessivos da cara-metade com o automóvel, a festa de casamento, os sogros em visita à casa de campo, a constrangedora visita a um motel. Tudo sem que qualquer objeto cênico sirva de apoio. Há alguns momentos que escapam ao tom geral. "É quando entra em cena o inconsciente que ela vira mesmo uma bruxa", diz Peralta. "Acho que a peça mostra as ciladas em que as próprias pessoas se colocam", argumenta Zezé Polessa. No casamento dessa personagem, ainda há um muro intransponível entre os universos masculino e feminino. Como ela própria diz, há uma nítida divisão de tarefas: "Eu cozinho, ele come." Não Sou Feliz, mas Tenho Marido. Teatro Renaissance (448 lug.). Alameda Santos, 2.233, Cerqueira César, tel. 3188-4151. 6.ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 60. Estréia amanhã. Até 6/8

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