João Caldas/Divulgação
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Zezé Polessa e Daniel Dantas sustentam novo ‘Quem Tem Medo de Virginia Woolf?’

Espetáculo sabe explorar o íntimo vínculo entre poder e libido

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

27 de maio de 2014 | 18h21

O teatro norte-americano do século 20 é pródigo em exemplos de autores que transmutaram suas experiências biográficas em material para o palco. Em Longa Jornada Noite Adentro, Eugene O’Neill abordou questões cruciais de sua vida familiar, recriando seus pais nas figuras de James e Mary Tirone. Tennessee Williams também revisitou o passado. Tanto em À Margem da Vida quanto em Um Bonde Chamado Desejo encontramos delineada a figura da irmã do escritor, Rose. Com Edward Albee não foi diferente.

Hoje com 86 anos, o dramaturgo trouxe elementos de sua infância tumultuada - adotado, sempre manteve uma relação distante com os novos pais - para compor suas peças. Entre elas, sua obra-prima, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

O título traz personagens que Albee conheceu bem dentro de casa: A mulher voluntariosa e sem piedade. O homem tolo e fraco. Na montagem, atualmente em cartaz no Teatro Raul Cortez, cabe a Zezé Polessa e Daniel Dantas representar os papéis dos intempestivos Marta e Jorge.

Ambientado nos anos 1960, em uma pequena cidade dos Estados Unidos, o enredo perpassa questões aparentemente superadas, como a independência feminina. Mas ultrapassa as limitações de época e lugar ao mergulhar em problemáticas insolúveis, caso da estreita relação entre poder e libido.

Se as interpretações de lastro biográfico servem ao exame da peça, as que tomam emprestados conceitos da psicanálise são igualmente válidas. Durante a madrugada, após uma festa na casa de seu pai, Marta decide convidar um casal recém-chegado para uma visita. O pai em questão é o reitor da universidade onde o marido de Marta, Jorge, é professor.

Com segurança, Zezé Polessa defende os arroubos dessa mulher atravessada por mágoas e frustrações. Siderada pela figura paterna, ressentida pela falta de ambição do marido, sempre pronta a puni-lo por amá-la. "Você aguenta! Casou comigo para isso", lhe diz. É com argúcia que a atriz expõe o sadismo da personagem. Delicia-se com sua vivacidade. Ainda que, por vezes, pise em falso no pantanoso terreno cômico construído pelo escritor. Não se deixar seduzir pelo riso da plateia surge como um imperativo para quem se aventura por essa obra.

Não se sabe até que ponto o fato de já terem sido casados na vida real pode ter influenciado o desempenho de Polessa e Dantas. Torna-se evidente, contudo, a sintonia entre o par e o despudor com que se enfrentam.

Daniel Dantas entra em cena titubeante, preso em demasia à caracterização do homem bêbado: a voz pastosa, o andar trôpego. Mas cresce imensamente no decorrer da encenação. Um trabalho de ator minucioso, consciente das belezas e armadilhas do texto.

Pela noite adentro, o casal protagonista travará uma cruel batalha verbal à frente dos visitantes. Os embates iniciais podem lembrar comezinhas rusgas conjugais. Mas a virulência dos ataques só fará aumentar. Amainando-se apenas depois que as vísceras desse casamento forem expostas ao escrutínio público.

Ainda que visivelmente desconfortáveis, os novatos Nick (Erom Cordeiro) e Honey (Ana Kutner) decidem ficar. Permanecem como espectadores privilegiados desse suplício. Por que não partem?

Há um sem-número de hipóteses. Mas a proposta cenográfica de Gringo Cardia, em formato circular, e a movimentação desenhada pelo diretor Victor Garcia Peralta parecem oferecer a imagem de um labirinto como resposta. Lá estão todos aprisionados, sem ter o fio de Ariadne entre as mãos.

QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?

Teatro Raul Cortez. R. Dr. Plínio Barreto 285; 3254-1631. 6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 60/ R$ 90. Até 27/7.

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