Zero de conduta

Mostra de grupo alemão que mudou a arte no pós-guerra chega em março a São Paulo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2014 | 02h04

Aberta em dezembro na Fundação Iberê Camargo de Porto Alegre, a exposição Zero, que reúne 24 artistas europeus e latinos direta ou indiretamente ligados ao movimento homônimo alemão, criado em 1957, chega em março a São Paulo. A mostra será montada na Pinacoteca do Estado com obras históricas assinadas pelos fundadores do Zero, Heinz Mack e Otto Piene, ambos vivos, e de artistas que tiveram seus nomes vinculados às propostas revolucionárias da dupla alemã, entre eles o francês Yves Klein (1928-1962), o italiano Piero Manzoni (1933- 1963), o argentino Lucio Fontana (1899-1968), o venezuelano Jesús Rafael Soto (1923-2005) e os brasileiros Almir Mavignier e Lygia Clark (1920-1988).

Com curadoria da historiadora de arte Heike van den Valentyn, de Colônia, a mostra integra o calendário da Temporada Alemanha + Brasil 2013- 2014, contando com a parceria do Goethe-Institut da Alemanha e apoio do Ministério NRW e Pro Helvetia. É uma rara oportunidade de comprovar a convergência das propostas do Zero e da arte brasileira de tendência concretista. A relação, porém, não é direta, como bem observa o crítico Paulo Venancio Filho no catálogo da mostra, especialmente se for considerado o período em que surge o Zero, quando o Brasil assume o papel de satélite da cultura norte-americana, escapando aos poucos da influência europeia.

Vanguarda. É certo que a ressonância das ideias da dupla Mack e Piene, estabelecidos em Düsseldorf, atingiu o Brasil num momento em que o abstracionismo informal dava sinais de exaustão na Europa. O País vivia, então, um momento de afirmação de sua modernidade com a construção de Brasília e a sedimentação do movimento concreto. O desenvolvimento tecnológico, segundo Venancio Filho, desempenhou um papel fundamental na difusão do pensamento de Mack e Piene no Brasil. Novos materiais - resinas, plásticos, tinta acrílica - exigiam dos artistas, no fim dos anos 1950, uma sintonia com a realidade industrial. Duas peças que estão na mostra Zero, da artista carioca Lygia Clark, ligada ao grupo neoconcreto, confirmam que não era aleatória a escolha de materiais como o alumínio (usado no "bicho" Relógio do Sol, de 1960, na foto maior desta página).

Na mesma época, outro brasileiro, Almir Mavignier, integrou-se ao grupo alemão em 1961, na sétima "exposição noturna" do Zero (algumas realizadas no pequeno ateliê de Mack e Piene). Três anos antes, Yves Klein, que viria a ser um dos principais mentores do grupo, lá apresentou um de seus trabalhos monocromáticos radicais, de um azul intenso, tonalidade vista pelo crítico inglês John Anthony Thwaites (1909-1981) como um "céu noturno sem dimensão, material ou peso". A criação desse espaço por Klein impressionou Otto Piene. O alemão, conhecido por suas experiências com luz, identificou outro artista, além de Klein, capaz de criar uma nova dimensão espacial: Lucio Fontana. Pesquisador incansável, o artista argentino usava fontes de luz atrás das telas perfuradas dos seus "concetti spaziali" para produzir projeções cintilantes no espaço, como lembra a curadora Heike van den Valentyn.

Mais luz. Fontana acreditava que, ao perfurar a tela, estava criando uma dimensão espacial infinita num suporte tradicional e limitado - além de ilusionista. A desvinculação da pintura gestual do movimento informal, segundo a curadora, tinha o propósito de "formular uma nova linguagem imagética viva, de luz resplandecente". O questionamento do status da pintura foi o marco zero do grupo alemão - e também o zero de conduta de Heinz Mack e Otto Piene, dado pelos críticos conservadores ao radicalismo da dupla. Ambos defendiam a necessidade de ultrapassar a barreira da bidimensionalidade para lançar o míssil da nova arte cinética - e, não por acaso, o movimento atraiu artistas como o suíço Yves Tinguely (1925-1991), criador de esculturas acionadas por motores e representado na mostra por recortes de madeira movidos a energia elétrica (todos dos anos 1950).

No Brasil, seu contemporâneo Abraham Palatnik , nascido três anos depois de Tinguely, hoje com 85 anos, desenvolveu na mesma época uma experiência similar, aprimorando a ideia em peças cinéticas que usavam o circuito elétrico para produzir imagens abstratas com o movimento de lâmpadas coloridas. Palatnik também marca presença na exposição Zero, ao lado de outros brasileiros, como Mavignier e o neoconcreto Hércules Barsotti (1914-2010), que, nos anos 1950, realizava um trabalho monocromático radical, como comprovam as telas da exposição (ele só iria incorporar a cor em 1963).

A arte cinética defendida pelo Zero seria definitivamente consagrada numa exposição do museu Stedelijk, de Amsterdã, em 1961, com mais de 200 obras de artistas como Calder, Duchamp, Tinguely e três dos mais atuantes criadores do grupo: Heinz Mack, Otto Piene e Günther Uecker, que se associou ao Zero justamente nesse ano. A mostra do Stedelijk, apropriadamente chamada Bewogen Beweging (Movimento em Marcha), elegia o movimento como "elemento básico de um novo conceito de arte" e revelou artistas cinéticos latino-americanos como o venezuelano Cruz-Diez, hoje com 90 anos e ainda produzindo, e o argentino Julio Le Parc, de 85 anos, recentemente homenageado com uma retrospectiva no Palais de Tokyo, em Paris.

Deslocamento. À primeira vista, pode parecer deslocada a presença na mostra de artistas como Barsotti, Lygia Clark e a venezuelana de origem alemã Gego (1912-1994), mas a curadora justifica a inclusão: "É possível estabelecer diversos paralelos entre o alemão Zero e o grupo neoconcreto brasileiro". Os neoconcretos, recusando o "objetivismo mecânico" dos concretos paulistas, estariam próximos de Mack e Piene por rejeitar o racionalismo dos concretos europeus - e nunca é demais lembrar que a dupla participou de uma mostra organizada por Max Bill na Züricher Helmhaus, em 1960.

Por essa época, duas tendências marcaram claramente a divisão entre os artistas vinculados ao Zero, segundo Otto Piene: "A tendência idealista, focada em promover a alteração de objetos e seres humanos, do escuro para o claro, e o novo realismo francês (Yves Klein, Tinguely, Arman e outros)". Mack e Piene eram, claro, os idealistas. Juntou-se a eles Günther Uecker. Os três apresentaram, em 1964, um salão de luz na Documenta de Kassel. O trio realizaria ainda outras mostras conjuntas até optar por carreira solo nos anos 1970 (em 1971, Uecker ganharia o prêmio da crítica na Bienal de São Paulo).

O Zero acabou em 1966 com uma performance: um carro em chamas lançado ao Reno. Foi uma centelha legada às novas gerações, um desafio à arte institucionalizada. A estética da luz e movimento deu frutos e pode ser vista até 2 de março em Porto Alegre. A mostra, que passou antes pelo Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, será aberta dia 3 de abril na Pinacoteca, em São Paulo.

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