Zélia Gattai lidera disputa na ABL

Bastou Zélia Gattai passar uma semana no Rio de Janeiro e enviar cópias autografadas de 7 dos seus 12 livros aos imortais para que até alguns dos opositores à candidatura da escritora na disputa pela vaga de Jorge Amado na Academia Brasileira de Letras trocassem de lado. Mesmo antes do fim do prazo de inscrição dos candidatos (outubro) e da eleição (dezembro), Zélia é considerada a dona da cadeira de Machado de Assis até pelo "líder da oposição", o poeta Lêdo Ivo.Ivo apóia o jornalista Joel Silveira, o único dos outros nove candidatos que oferece perigo à viúva de Amado. Mas até ele reconhece que Zélia tem a preferência da grande maioria da ABL. "Acho que a academia já se definiu. Joel vai ficar em segundo lugar e deve receber entre 10 e 15 votos."Como faz parte da tradição, os imortais costumam enviar cartas de apoio aos seus escolhidos, e o fazem enviando correspondência para o candidato ou para a ABL. Arnaldo Niskier, principal defensor da candidatura da escritora, afirma que a academia já tem 18 cartas garantindo votos para a escritora. "Posso dizer que são mais de dez", confirmou Zélia, por telefone, de sua casa em Salvador. No total, a escritora já teria conquistado entre 22 (segundo a oposição) e 28 (para os aliados) votos. Todos os imortais concordam que a escritora está eleita."Não tenho a menor chance. Na verdade, eu nem pensava mais em me candidatar, mas, quando vi aquela mulher se apossar da cadeira do Jorge como se fizesse parte do espólio dele, resolvi entrar na briga. Queria apenas quebrar o serviço dela, como se diz nos jogos de tênis", ataca Silveira. O jornalista conta em cinco ou seis o número de votos que deve receber dos "amigos". "O Lêdo disse que tenho 15 votos, mas isso não é verdade. Ele quer ser gentil."De fato, além de Ivo, apenas quatro ou cinco imortais seriam fiéis a Silveira. Outros três acadêmicos que tinham prometido votar no jornalista mudaram de idéia, como apurou a reportagem. "Acho que alguns podem voltar atrás porque os dois candidatos são bons e ninguém gosta de perder. Mas eu continuo com o Joel. Acho que era a vez dele, mas agora terá que esperar a próxima", afirma o imortal Geraldo França de Lima.Os aliados comemoram. "Eles começam a ver que ela não será eleita por ser viúva do Jorge, mas porque tem obra com valor", defende Marcos Madeira. "Os livros dela são bons", ressalta Marcos Vilaça.Zélia parece a menos preocupada com a disputa. "Essa história da academia me diverte e me faz esquecer um pouco da minha tristeza. Mas não faço campanha e nem peço votos", conta ela. A escritora não se mudou para o Rio, como se chegou a noticiar, continua na Bahia e diz que é lá que pretende ficar até as eleições. "Tenho muita correspondência para colocar em dia. São pessoas que escrevem de todos os lugares do mundo por causa do Jorge. Faço questão de responder tudo. Por isso, não tenho tempo para campanha. A eleição não determina meus passos, vou esperar o resultado aqui, sem mudar a rotina."A única ameaça real para Zélia seria a candidatura, ainda que tardia, de algum nome importante, como Oscar Niemeyer, Rubem Fonseca, Fernando Sabino e outros. "Se um dos que fazem parte da lista dos ´imortais virtuais´, como nós os chamamos, resolvesse disputar a cadeira de Jorge, Zélia poderia correr risco de ter que esperar a próxima cadeira, mas isso não vai ocorrer", diz Niskier.

Agencia Estado,

20 de setembro de 2001 | 16h03

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