"Zé do Brasil" desmistifica Anchieta

A história começou no primeiro trimestre deste ano, na Oficina Cultural Amâncio Mazzaropi, quando o grande espectro da dramaturgia nacional, de Anchieta a Zeno Wilde, foi transformado em temas de oficinas do projeto Brasil em Cena (ao todo, 20 oficinas). Atores e diretores convidados falaram sobre Martins Pena, Arthur de Azevedo, Jorge Andrade e Plínio Marcos, entre outros. Ao dramaturgo e diretor Carlos Alberto Soffredini, que comemora 30 anos de carreira, coube devassar a vida e a obra de José de Anchieta. Novas oficinas, de direção e interpretação, foram acopladas no segundo semestre ao processo de pesquisa e produção dramatúrgica sobre o "Apóstolo do Brasil". Desse envolvimento - que reuniu equipe de 50 pessoas em torno do tema - nasceu o espetáculo Zé do Brasil, que estréia hoje, no Teatro Mazzaropi. A peça reúne fragmentos dos autos escritos por Anchieta e cenas criadas por sete dramaturgos iniciantes. O texto final é de Soffredini. "O fundamental dessas oficinas é que elas enfatizam a criação na prática", defende Soffredini, que trabalhou com os dramaturgos, atores, diretores e músicos durante nove meses. "A teoria só entra na hora de organizar o trabalho em andamento." O autor e diretor foi um dos fundadores do Grupo de Teatro Mambembe, na década de 80, estudou interpretação na Escola de Arte Dramática - onde afirma ter compreendido a necessidade do uso da prática antes da própria teoria - e é autor de peças memoráveis como Vem Buscar-me Que ainda Sou Teu, De Onde vem o Verão, Na Carrêra do Divino. No cinema, fez o roteiro de Marvada Carne. O contato com o dramaturgo experiente possibilitou aos autores uma pesquisa voltada à produção textual. A equipe estudou os autos de Anchieta, na história e nos preceitos da Companhia de Jesus - da qual Anchieta fez parte por 44 anos - e na sua biografia. Nascido em Tenerife, nas Ilhas Canárias (Espanha), logo se mudou com a família para Portugal, onde se agregou à Companhia. Foi ordenado padre no Brasil, em 1565. Viveu 63 anos. O Anchieta das cartilhas escolares é grafado como poeta, professor, teatrólogo, criador da primeira gramática tupi, construtor de capelas, benfeitor, pacificador, além de fundador da Vila de Piratininga (hoje Pátio do Colégio, em São Paulo). Mas em Zé do Brasil nasce um Anchieta humanizado, ambíguo e até delirante ao fim da vida, quando escreveu os 6.348 versos na areia. O velho Zé Anchieta acaba por revoltar-se com as condições humilhantes impostas aos índios e atribui parte da culpa à sua omissão como defensor real daquela cultura nativa. "O nosso Anchieta não é santo", afirma o teatrólogo Araldo Casadio Madena, um dos sete autores do texto, com o poeta Santiago Dias, do produtor Valdecir Araújo e do jornalista Gaspar Bissolotti Neto, entre outros. "Queremos desmistificar essa figura de proto-santo", ressalta. "Por isso, a peça dita outro ponto de vista, enfatizando a ótica dos índios", completa Bissolotti Neto. Realmente, ao lado de Anchieta, três alter egos em forma de demônios indígenas acompanham e cobram a coerência de cada ato, gesto e atitude do apóstolo no decorrer de sua trajetória. Indagam sobre suas contradições ao permitir que os índios fossem perseguidos, uma vez que os horrores da perseguição ele conhecia desde a infância, como filho de mãe judia. O espetáculo alicerça um elenco de 40 participantes, entre atores, dançarinos e músicos, que tocam ao vivo no espetáculo (flauta transversal, cello, baixo e violão elétricos, guitarra e bateria). Há uma diversidade de linguagens pontuando a montagem, já que os nove diretores selecionados pela oficina coordenada por Soffredini expuseram suas vocações para o circo, o drama, a comédia. As coreografias são de Marilene Silva e a direção musical, de João Poleto (do projeto Guri), profissionais convidados por Soffredini para integrar o projeto. Zé do Brasil - Direção: Dirce Bernardes. Duração: 1h30. Hoje e sábado, às 20h. Entrada Franca.

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