Zé Celso traz de volta ao palco sua primeira peça

'Vento Forte Para Um Papagaio Subir' fez nascer o Teatro Oficina, casa ícone do dramaturgo

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

07 de março de 2008 | 17h03

Latidos de cachorros, voz de criança, som de violão, batida de martelo. De olhos fechados daria para jurar que se está numa pracinha de cidade do interior. De olhos abertos, a impressão se mantém por um tempo. Uns garotos preparam pipas coloridas e sobem na arquibancadas do Teatro Oficina para pendurá-las. Cachorros cruzam o palco, latem, e metem medo em Iris, de 3 anos, que pede colo à mãe, a figurinista Flávia Lobo. Sentadinho a um canto, o ator e músico Guilherme Calzavara subitamente grita: "Achei os acordes que o Zé Celso queria!"  Veja também:Entrevista com o diretor Zé Celso  O que se prepara nesse clima quase familiar? Antes de mais nada, a estréia de Vento Forte Para Um Papagaio Subir, a primeira peça escrita por Zé Celso e dirigida por Amir Haddad, que estreou no mesmo espaço onde os atores agora pisam, mas no então chamado Teatro Novos Comediantes, em outubro de 1958. Mas é apenas ponto de partida de uma série de celebrações. Com a retomada desse texto, agora sob direção de Zé Celso, cria-se um espetáculo singelo, juvenil, como o ensaio acompanhado pelo Estado revela, que abre as comemorações do ‘jubileu’do grupo. Há 50 anos nascia assim o Teatro Oficina. Era um programa duplo - Oficina 58 -, com a peça de Zé Celso e A Ponte, de Carlos Queiroz Teles. O Estado registrou. No dia 2 de novembro, o crítico Décio de Almeida Prado deu provas de boa intuição ao assinalar a importância da estréia "pelo que promete". E aponta excesso de simbologia no texto de Zé Celso. Pois é essa carga "simbólica" que agora dá sentido à montagem de comemoração. "O fato de sabermos o que aconteceu com o personagem modifica o olhar sobre o texto", diz Zé Celso, que evidentemente inspira o protagonista, um garoto que vive numa cidade tacanha do interior e sonha em voar com o vento. Os acordes, que Calzavara achou ao violão, são agora cantados por ele e Zé Celso diante da câmera da TV Estadão, na pista do Oficina. "Hoje eu vou fugir com o vento", começa a canção. "A peça nasceu dessa música", diz Zé Celso. No início do espetáculo, quatro atores saem de dentro de um tecido esticado que Zé Celso chama de útero. A idéia de ‘nascimento’ está presente o tempo todo. O impulso de rompimento do protagonista se confunde com o primeiro vôo cênico de Zé Celso, o primeiro espetáculo do Oficina, o nascimento de um grupo. O personagem João Ignácio quer deixar Bandeirantes, como Zé Celso deixou Araraquara, cidade que aparece no vídeo exibido no espetáculo, que traz imagens como a primeira ida de Zé Celso à escola, filmada pelo pai, o professor Jorge Borges Corrêa. A remontagem de Vento Forte foi feita à convite do Sesc Araraquara, no aniversário de 70 anos do diretor.  Na peça, o garoto (Lucas Weglinsk) que ama poesia tem namorada (Ana Guilhermina) e um melhor amigo, o rico Ricardo (Guilherme Calzavara). Um dia, um vento forte quase destrói a cidade. Enquanto todos lutam para salvá-la, ele se esconde num buraco e deseja a destruição. Bate forte a consciência da necessidade de partir com o vento. E João Ignácio vai decidir após ouvir a história contada por sua irmã Maria das Dores (Sylvia Prado).  "Não fui o único a voar. O Oficina foi feito por muitos. Cada pessoa que passou por aqui se comprometeu inteiramente, deixou raízes", diz Zé Celso. Nessa encenação, há um palco italiano montado no extremo da pista. Sobre ele, semi-oculta sob um filó preto, a mãe do protagonista, vivida por Vera Barreto Leite. "Ela é a mãe presa no palquinho italiano. Manda do filho sair do vento, senão ele vai se resfriar. Mas até ela vai se transformar", diz Zé Celso. Para o diretor, os ventos que bateram forte na década de 50 e 60 voltam a soprar sobre o mundo. "A perda de poder dos Estados Unidos é sinal evidente. Mesmo que Obama não ganhe, o McCain terá de efetuar mudanças na política internacional. São ciclos. Sinto que sopram novamente ventos de liberdade", diz Zé Celso. Vento Forte é só o começo. Este ano ainda, o Grupo Uzyna Uzona vai apresentar no palco do Oficina a adaptação de Zé Celso para Os Bandidos, de Schiller.   Vento Forte Para Um Papagaio Subir. 120 min. 14 anos. Teatro Oficina (350 lug.). Rua Jaceguai, 520, 3106-2818. Sáb. e dom., 19 h. R$ 20. Até 27/4

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