Zé Celso realiza primeira leitura de "Os Sertões"

Nem peru nem panetone. A celebração natalina do Teatro Oficina de José Celso Martinez Corrêa, que já se tornou tradição todo dia 23 de dezembro, às 14h30, vai ser acompanhada neste ano do doce de umbu. Fruto originário do umbuzeiro, árvore típica da caatinga, o umbu (ou imbu, como preferem alguns) não foi uma escolha aleatória, já que Zé Celso e o grupo Uzyna Uzona preparam a montagem de Os Sertões, clássico literário de Euclides da Cunha, sobre a Guerra de Canudos, irrompida na Bahia em 1896. "O século 21 será o dos trópicos e dOs Sertões!", brada o mais dionisíaco dos diretores brasileiros. Experimentos de corpo e voz, baseados na primeira parte do livro de Euclides, A Terra, estão sendo preparados para serem mostrados originalmente ao público. A apresentação de sábado, gratuita, define os primeiros resultados de um trabalho iniciado há dois meses, com a criação de várias oficinas voltadas à montagem. "O público verá um laboratório, com esboços, improvisações e epifanias", afirmou Zé Celso à reportagem do Estado, ao fim de uma entusiasmada tarde de ensaios. "Estamos emocionados, em festa, porque hoje terminamos a leitura conjunta do livro", disse o diretor de Boca de Ouro, Cacilda! e Hamlet, que em Os Sertões comanda uma equipe de cem integrantes, entre intérpretes e os coordenadores das oficinas. É bom lembrar que a data do dia 23 não constitui apenas uma oferenda aos amantes de teatro, desprovidos de opções culturais nesta época do ano. Trata-se de um rito de passagem do próprio diretor, que há 13 anos perdia seu irmão, o também diretor de teatro, dramaturgo e ator Luís Antônio Martinez Corrêa, assassinado a facadas, em seu apartamento no Rio. "Acho que foi a emoção mais forte da minha vida", comenta Zé Celso. "E não teria forças para brindar o Natal novamente, sem passar pelo teatro." Um ano depois da tragédia, em 1988, ele dirigia Lulu, de Frank Wedekind, e sentiu-se compelido a representar na data a protagonista que, como o irmão, morria esfaqueada na cena final. "Foi aí que ouvi o Luís me dizer: Sai dessa!", conta Zé Celso. Foi então que o rito do dia 23 acabou se transformando não em uma celebração de morte, mas em elegia à vida e ao renascimento. Exemplar na mão - "No ano passado, com o Boca de Ouro, achávamos que não viria ninguém. Mas foi uma sessão deslumbrante", alude o diretor. O teatro ficou lotado. Neste ano, Martinez Corrêa convida enfaticamente a que cada espectador leve ao teatro um exemplar de Os Sertões. "Pensamos em escolher um trecho da obra para ler com a platéia", cogita. Para Zé Celso, Euclides da Cunha, escritor carioca que ainda jovem foi morar na Bahia, "encontrou a rocha viva da civilização brasileira no sertão. Ele foi o primeiro parnasiano a se arrebentar com a grandeza de Canudos". A estréia de Os Sertões não tem ainda data definida. Estima-se que vá ao cartaz no início do segundo semestre de 2001. Os ensaios, iniciados há oito semanas, nascem das oficinas de direção (Zé Celso), dramaturgia (Rubens Rewald), música (Zé Miguel Wisnik), iluminação (Cibele Forjaz), além das de direção de arte, comunicação visual, vídeo, percussão e ritmo. A concepção cênica do espetáculo será estruturada a partir dos resultados dessas oficinas. O grupo entende o processo como a criação de uma escultura sobre a obra de Euclides da Cunha, baseada nos resultados das oficinas. Crueldade - Tão bem escrito quanto pouco lido, como costuma acontecer com os clássicos da literatura no Brasil, Os Sertões foi publicado em 1902. Euclides da Cunha havia sido enviado aos campos de batalha em Canudos como correspondente do Estado. Produziu reportagens em 1897, que acabaram dando origem à sua grande obra. Os Sertões levou cinco anos para ser escrito. É um relato contundente da guerra impiedosa ocorrida entre os sertanejos liderados por Antônio Conselheiro e as tropas do Exército brasileiro. Exímio repórter e grande poeta - Zé Celso também ressalta a grande teatralidade no livro e alça sua linguagem ao patamar do verso shakesperiano e à nobreza da criação de Oswald de Andrade e Nélson Rodrigues -, Euclides realizou um estudo profundo dos aspectos geográfico, botânico e zoológico do agreste, e analisou os antecedentes sociológicos do conflito, bem como os seus desdobramentos. A Guerra de Canudos matou 25 mil pessoas, entre civis e militares. Um de seus episódios mais terríveis foi a degola de cerca de 300 sertanejos, incluindo mulheres e crianças, pelos soldados das tropas federais e estaduais. Tentativas - O diretor já havia recorrido à obra euclidiana no fim da década de 80. Em parceria com o ator Marcelo Drummond, havia criado uma primeira adaptação para teatro de A Terra e O Homem. Drummond conta que os atores que ensaiavam com Zé Celso acabaram dispersando-se no momento em que começavam a ensaiar a parte seguinte do trabalho, A Luta. "Não estávamos tão preparados para esse momento de luta como agora", afirma Drummond. O livro sobre Canudos também alicerçou os fundamentos filosóficos de reconstrução do Oficina, na volta de Zé Celso do exílio, ao Brasil. Ele conclamou na época o alistamento simbólico de soldados ("sertanejos, negros, artistas e cidadãos com força para lutar pelo teatro") para reconstruir o local. Drummond defende esse maior preparo com conhecimento de causa. Ao lado de Zé Celso e dos profissionais do grupo, o ator participou nos últimos dez anos de movimentos importantes, encampados pelo Oficina e representando diferentes camadas sociais, dos artistas (Arte Contra a Barbárie) aos sem-terra. "As pessoas estão dispostas a uma transformação. E lutar é a única maneira de sair do bloqueio imposto pela globalização", sublinha o diretor. Emblema - Daí que a encenação de Os Sertões se torna um emblema da atualidade. O Oficina, que recentemente atrelou sua luta à tentativa de preservação da região de entorno ao teatro (tombado pelo patrimônio histórico) - onde o Grupo Silvio Santos pretende montar um complexo de compras, lazer e cultura, com feições de shopping center -, já negocia uma solução com o grupo Silvio Santos, com a intermediação do Ministério Público. A construção do shopping reduziria as possibilidades de expansão do Oficina, como prevê o projeto original arquitetônico de Lina Bo Bardi. "Alguém imaginaria os conselheiros dialogando com a República?", indaga Zé Celso, com otimismo. Ele também sublinha que o momento atual se assemelha à mesma convergência de forças que resultou na abolição da escravatura, no século 19. A depender do otimismo de Zé Celso e de seus cem "sertanejos", a confraternização teatral de sábado será mais uma mostra dessa força que une o artístico ao social. Movida pela epopéia do clássico de Euclides, por alguns ritos e muito umbu. Os Sertões - Leitura em homenagem ao autor e diretor Luís Antônio Martinez Corrêa. Direção José Celso Martinez Corrêa. Duração: 2 horas. Sábado, às 14h30. Grátis. Teatro Oficina. Rua Jaceguai, 520, tel. 3106-2818

Agencia Estado,

21 de dezembro de 2000 | 10h28

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