Zé Celso abre Oficina à era digital

Embora o mundo inteiro possa caber num palco, certos teatros se assemelham a uma espécie de refúgio onde as rebeliões do mundo real não ecoam. Não é o caso do Teatro Oficina, comandado por Zé Celso. Num ensaio de Os Sertões fica claro que o Brasil repercute no Oficina. Não só por sua arquitetura singular - iluminação solar, interferência de todos os ruídos da rua -, mas principalmente pela linguagem particular do talentoso diretor, que ganhou o Prêmio Multicultural Estadão em 1999.À semelhança do que conseguiu com raro brilho no espetáculo Cacilda! - em que ele reconta grande parte da história do teatro brasileiro a partir da trajetória da atriz Cacilda Becker -, Zé prepara-se para resgatar, com sua adaptação para o livro de Euclides da Cunha sobre os rebelados de Canudos, a história de muitas resistências contra muitas truculências.E, de quebra, vai contar ainda a história do Oficina, um teatro construído para ser uma pista aberta para a cidade, pressionado pelo crescimento desordenado e vertical da urbe, pela especulação imobiliária e pelo estrangulamento financeiro. Mas a história que Zé Celso quer para o Oficina não termina em derrota. Enquanto negocia com o Grupo Silvio Santos, proprietário do terreno que cerca o teatro, uma abertura para as ruas adjacentes, o Oficina cria uma nova e ousada abertura estética, de linguagem - uma abertura para a era digital.A partir desta sexta-feira à noite, com a reestréia de Boca de Ouro, de Nélson Rodrigues, o Oficina inicia um festival com dez peças de seu repertório voltando, em curtas temporadas e a preços populares. Além de dar ao público a oportunidade de rever ou ver alguns dos melhores espetáculos criados pelo grupo Uzyna Uzona, a volta do repertório tem um objetivo definido: todas serão gravadas em DVD e vídeo.Graças ao patrocínio da Petrobras, serão filmadas, com direção de Tadeu Jungle e Dib Luft, ainda neste semestre, Boca de Ouro e Cacilda! - que reestréia no dia 6 de abril com Leona Cavalli e Bete Coelho atuando juntas no papel de Cacilda Becker. Também serão gravados Os Sertões, que deve estrear em agosto, e as outras peças do repertório do Oficina: Ham-let, As Bacantes, Ela, Mistérios Gozozos, Para Dar um Fim no Juízo de Deus, As Boas, Taniko. E nos dias das gravações - 10 e 11 no caso de Boca de Ouro -, os internautas poderão assistir à transmissão direta, em tempo real, dos espetáculos pela internet na tevê UOL.Zé Celso é o primeiro a concordar com aqueles que torcem o nariz para a possibilidade de interação ou transposição entre as linguagens do vídeo e do teatro. "Não gosto de teatro filmado ou gravado em vídeo. Geralmente, isso é feito em estúdio, a atuação não ocorre diante da platéia ou, se ela existe, sua energia não é captada. A tradição de teatro filmado é muito infeliz. Ou se utiliza uma câmera parada ou se trabalha com closes, numa tentativa de aproximação com a linguagem cinematográfica."Zé Celso tenta agora uma linguagem inédita na abertura do Oficina para a era digital. Difícil duvidar do êxito de um diretor que, na década de 60, provocou uma revolução no teatro ao criar uma nova linguagem especialmente para levar à cena um texto como O Rei da Vela, considerado "imontável" mesmo por nosso mais prestigiado crítico, Décio de Almeida de Prado.As filmagens planejadas por Zé Celso vão tentar captar o fenômeno teatral. Ao entrar no teatro, o público assinará, junto com o ingresso, a cessão dos direitos de imagem. A equipe de filmagem das peças do Oficina acompanhará ensaios e todas as apresentações da temporada, mesmo que as gravações para valer sejam captadas em apenas duas das apresentações para o público. A equipe comandada por Jungle e Luft utilizará várias câmeras, que não funcionarão como um corpo estranho, estarão totalmente incorporadas ao espetáculo."Na verdade, o Oficina se prepara para isso há 20 anos. Sou maníaco pela incorporação de todas as interferências", diz Zé. Daí sua insistência pela criação da arquitetura singular do Oficina, um espaço inteiramente aberto, uma imensa pista, sem camarins, sem bastidores, um espaço onde a celebração teatral só faz sentido se estiver "aberta" para a cidade. "Aqui os atores aprendem a atuar incorporando tudo, o público, a chuva, o sol, as coisas que caem das janelas dos vizinhos. Aqui, as equipes de televisão podem entrar na pista, as pessoas podem fotografar, tudo é incorporado à cena."Além do reconhecido talento dos diretores Luft e Jungle, a qualidade do trabalho será garantida por um equipamento de última geração. "Estou contente porque será tudo feito profissionalmente e vamos buscar uma linguagem contemporânea, que teatralize a linguagem do vídeo. Dib é o homem da câmera na mão e uma idéia na cabeça, domina a linguagem do cinema novo, um mestre na captação do detalhe. Tadeu faz câmera como quem toca jazz, como um grande trompetista; ele é o Chet Baker da câmera" afirma Zé."Claro que é uma experiência arriscada, estamos inventando, mas temos uma equipe de primeira linha, as imagens serão muito bem captadas visualmente e sonoramente. E vai ser feito um minucioso estudo de som, para que a voz não soe como de costume, o ator fala no palco e, no vídeo, uma voz sai não se sabe de onde." Sem purismos, o diretor ressalta que a linguagem digital está incoporada à vida das pessoas e considera essa interação fundamental para a sobrevivência do teatro."O teatro resistiu muito pouco sem utilizar a luz elétrica. Mesmo Grotowski, mesmo os diretores mais radicais acabaram aderindo. Atualmente, parece muito comum essa utilização, mas imagine a revolução que isso significou para quem acreditava na magia do fogo, das tochas, das velas, na magia do arcaico. Coisa semelhante ocorre com a linguagem digital, mas o teatro não vai sobreviver se não for plugado."Embora admitindo o risco da experiência, Zé prevê que o êxito dessa empreitada pode representar uma revolução na parceria teatro/televisão. "Pode acontecer uma inversão de pólo. A história recente do teatro brasileiro foi marcada pela hegemonia da televisão. O teatro foi obrigado a se submeter a um certo padrão televisivo e até mesmo o ator submeteu-se a um padrão inferior à sua potência. Essa fatalidade pode ser desmontada se o teatro conquista a utilização dessa mídia à sua maneira."Zé destaca a importância do patrocínio da Petrobras, que aprovou o projeto elaborado pelo ator Marcelo Drummond, o protagonista de Boca de Ouro. "Acho significativo que a Petrobras tenha sido responsável por recolocar o Oficina no centro da cultura - porque, apesar de estar não estar na periferia, o Oficina virou periferia pelo estrangulamento financeiro - justamente no momento em que ela corre o risco de virar Petrobrax, que o Brasil corre o risco de virar Brasilex, um produto Brasil, um País produto."Zé Celso considera esse apoio - conseguido graças à sensibilidade dos atuais diretores da área cultural da empresa - uma vitória do Oficina. "Acho que é também uma vitória do Marcelo Drummond. Há 10 anos, ele representou Hamlet e eu o fantasma. Há 10 anos eu era um fantasma. Ninguém acreditava que o Oficina seria reaberto. Minha geração, que hoje está no poder, se furtou a me apoiar. Eles, que tinham sido o público do Oficina, queriam decretar a sua morte, associando-o sempre à década de 60. Eu, o fantasma, passei o cetro do Oficina ao Marcelo. Foi o Hamlet/Marcelo e sua geração - Leona Cavalli, Paschoal da Conceição e muitos outros - que reabriram o Oficina, fizeram surgir aqui um repertório e um público novos."Uma geração que pode ser vista atuando, a partir desta sexta-feira à noite, e até durante todos os dias de carnaval, numa ótima montagem de Boca de Ouro, peça que tem como protagonista uma espécie de poderoso bicheiro de Madureira, subúrbio do Rio, um deus pagão, vivido por Drummond.Boca de Ouro - Tragédia. De Nélson Rodrigues. Direção José Celso Martinez Correa. Duração: 2h20. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. Sessões extras segunda e terça, às 18 horas. R$ 10,00. Teatro Oficina. Rua Jaceguai, 520, tel. 3106-2818. Até 18/3.

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