Zapeando

Não dá para continuar a ver e ouvir, no close dado pelo noticiário de TV, o único sobrevivente de uma família dizimada pelos deslizamentos de terra e lixo no Rio de Janeiro. As estatísticas que já transformam em números essas famílias e pessoas não apagam - para mim e para, tenho certeza, a maioria de vocês - suas histórias individuais e é muito doloroso pôr-se, mesmo que tão vicariamente, na pele deles. Gente confrontada por vicissitudes terríveis, mas espantosamente forte e capaz ainda, em meio a perdas irrecuperáveis e desnorteantes, de pensar racionalmente, de fazer planos, de ainda acreditar em alguma coisa. Gente de muito mais fibra do que eu, com toda a certeza, que esfrio de pavor só em imaginar achar-me em situação semelhante.

JOÃO UBALDO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Mas o telejornal muda de foco e passa a ouvir as autoridades. Os adjetivos comumente atados à palavra "autoridades", ou seja, "responsáveis" ou "competentes", parecem agora empregados em lugar de seus antônimos, soam como ironia de quem fala. Diz uma dessas autoridades que as chuvas que causaram os desmoronamentos resultaram em catástrofes tão inevitáveis quanto os tsunamis, como se as vítimas destes construíssem residências em palafitas de compensado no meio do oceano, ou qualquer coisa assim. Diz mais ainda que não mandou chover, e suponho que os munícipes devem agradecer por ele se abster de fazer isso, ainda que abdicando de um privilégio singular.

Sim, claro que a responsabilidade não é de ninguém e quem pagou foi quem morreu e seus sobreviventes. Tudo dentro da normalidade, da mesma forma que a outra reportagem que apareceu depois que mudei de canal, desta vez sobre o ex-governador Arruda. Ouço que está muito abatido, talvez em depressão. Lembro das minhas velhas aulas de Medicina Legal, quando me ensinavam que muitos criminosos não ficavam abatidos devido a remorsos pelos seus atos, mas, sim, ao fato de terem sido descobertos ou desmascarados. Não será esse o caso em questão, talvez. Deve atentar-se à circunstância de que o ex-governador não é criminoso ainda, mas apenas suspeito, não só porque não foi condenado nem se sabe se será, como porque aquela gravação em que aparecia metendo a mão na granolina deixa muita margem para dúvida, conforme observado pelo presidente da República. Apresso-me a informar que, acima, usei "criminosos" apenas como força de expressão e também tenho sérias dúvidas sobre aquela gravação. Teriam sido notas de cem, cinquenta ou sortidas? Eram todas verdadeiras, nenhuma falsa? Eram novas ou usadas? Por aí vai, é dúvida demais para continuar a sustentar acusações levianas.

O abatimento do ex-governador deve persistir, talvez com altos e baixos, pelo menos enquanto o julgamento não se realizar, se se vier a realizar. Funciona bastante, aqui no Brasil. O comentário é "coitado, é muito difícil para ele, um homem com poder e status como ele tinha, agora nessa situação, é o castigo mais duro que ele pode receber". É possível. Pelo menos no nosso direito consuetudinário, ficar abatido e deprimido funciona bastante, podendo redundar até mesmo em exclusão de punibilidade. Já vi um delegado explicar a um jornalista que o atropelador bêbedo, por ele preso depois de atropelar cinco ou seis pessoas, aleijar todas e matar uma, tinha acordado morto de remorsos, coitado, um verdadeiro farrapo de sentimento de culpa, vergonha e arrependimento, tanto assim que, mal acabara de ser solto mediante uma pequena fiança, procurara atendimento psicológico e estava sob tranquilizantes.

Mudo de canal, mas que vejo? Brasília é também objeto das notícias deste aqui, só que agora a respeito das novas eleições para governador do Distrito Federal. Eleição disputada, muitos candidatos. Ainda bem que, como nos bons tempos, é indireta, não vai dar muita despesa. Entre os seletos eleitores, um deputado recém-egresso de uma temporada na cadeia de Papuda. Bonito colégio eleitoral, essa nossa capital é um exemplo. Vislumbro nisso mais um tento para nós, na legislação paradisíaca que imaginamos existir no cobiçado Primeiro Mundo. Podemos ser os pioneiros em dar aos presidiários direito a eleger, dentre os outros presidiários, seus representantes no Congresso, sem prejuízo dos que já estão lá, é claro. Os eleitos serão soltos e empossados e, se voltarem a assaltar, sequestrar ou estuprar, estarão novamente sujeitos às rigorosas penas da lei, caso o foro especial a que terão direito os condenar.

Quem sabe, talvez um dos canais anteriores traga notícias que inspirem pensamentos menos inquietantes. Mas não, aqui está o caso do psicopata que matou vários jovens, depois de violentá-los. Como se sabe, havia sido preso e condenado, mas teve a prisão relaxada por bom comportamento. Certamente esse bom comportamento se deveu em grande parte ao fato de não haver meninos na penitenciária. Todo mundo sabe que psicopata não se cura nem se recupera e esse ilustrou isso claramente, quando voltou a matar apenas dias depois de ter saído da prisão. Mas quase ninguém, inclusive, ao que parece, o juiz responsável pela soltura, ligou para isso. E não importa tantos meninos terem sido assassinados, o que importa é que nossas leis são as mais adiantadas do mundo (sempre me pareceu que lei adiantada para país atrasado é que significa atraso, mas deve ser burrice minha) e nossa Justiça funciona.

Tanto funciona que também se noticia que um cidadão que reagiu a um assalto domingo e matou um dos assaltantes ficou preso até a quarta-feira passada. Foi em legítima defesa e a arma era do próprio assaltante, mas somente a Justiça poderá determinar isso, sabe-se lá quando. É o que dá o sujeito reagir a assalto e não morrer. Vai preso, para aprender a não desobedecer à orientação da autoridade. E, libertado, ainda viverá com medo de uma possível vingança do assaltante sobrevivente. É, parece que não adianta muito mudar de canal.

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