Zaha Hadid, Maxxi arquiteta

Ela faz história ao criar o primeiro museu de arte contemporânea de Roma

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Desde que deixou sua Bagdá natal nos anos 70 para estudar em Londres, Zaha Hadid traçou uma carreira capaz de impressionar até os mais otimistas. Estudou com o mestre holandês Rem Koolhaas, com que foi trabalhar logo após se formar, e venceu prêmios de desenvolvimento de projetos nas maiores cidades do mundo.

Até meados dos anos 90, no entanto, tantos eram os projetos que nunca se concretizavam que ela ganhou fama de ser "a arquiteta do papel". Obstinada, não se deixou abater, continuou projetando e vencendo outros concursos, ganhou o mundo com seu traço forte e sensual e se tornou a primeira mulher a receber o Pritzker Prize (o Nobel da arquitetura) em 2004.

Para completar, passou a desenvolver projetos em vários continentes e se aventurou pela criação de moda e do design. Assinou uma exposição itinerante da Chanel que rodou o mundo, criou uma bolsa Louis Vuitton e até mesmo uma Melissa, a indefectível sandália de plástico brasileira. Hoje, quem tem o privilégio de visitar seu descolado escritório em Londres impressiona-se com a equipe de mais de cem funcionários que não param de criar projetos para diversos países, como, por exemplo, o projeto do Centro Aquático da Vila Olímpica de Londres, sede da Olimpíada em 2012.

Com tal trajetória, Zaha parecia já ter feito tudo. Mas talvez seu maior desafio era provar ser capaz de fazer com que, pela primeira vez na história, o passado de Roma dialogasse com a arte contemporânea. Para isso, em 1999, idealizou o Maxxi e bateu 273 arquitetos do mundo (entre eles, nomes como Toyo Ito, Jean Nouvel e o próprio Koolhaas) em um concurso para a escolha do projeto do Museu Nacional das Artes do Século 21.

Para quem estava já acostumada a ver suas grandes ideias não saírem do papel, os quatro anos de espera até que o governo italiano (mais precisamente o Ministério da Defesa) cedesse um espaço para alocar o museu passaram rápido. Ao todo, foram dez anos de espera, várias crises político-econômicas, seis trocas de governo e quatro ministros da Cultura italiana. "Nem acredito que ficou pronto. Valeu a pena esperar. Este é o maior projeto da minha vida e estou muito feliz", declarou Zaha na cerimônia de inauguração do museu, no fim de maio.

Críticos. O espaço multiartes, que já havia recebido poucos privilegiados em 2009, parece ganhar a cada dia o voto de confiança de personalidades que vão desde os mais céticos críticos de arte e design até os mais leigos dos visitantes. "Esta é a magia da arquitetura. As obras têm de dialogar com as pessoas, sejam elas altamente especialistas ou não", comentou a arquiteta que nasceu no Iraque, mas adotou Londres como casa.

Além de dialogar com seu público, o Maxxi estabelece uma conversa afiada com a área que o recebe, o bairro Flaminio, ao norte da cidade, que serviu de acampamento do Exército italiano durante a 2.ª Guerra. Misturadas às sinuosas curvas de concreto armado de sua fachada (qualquer semelhança com a caligrafia árabe talvez não seja mera coincidência), ainda é possível encontrar algumas antigas barracas militares. "Quando o lugar foi escolhido, a preocupação em manter características locais foi imediata. Se a gente quiser criar algum frescor, tem de pôr tudo em perspectiva, pensar em que contexto a obra se insere", explicou a arquiteta.

O diálogo do Maxxi com o contexto que o abriga vai muito além de seu entorno. Suas estruturas, que se sobrepõem em áreas de múltipla função, servem de metáfora para os tantos diferentes tempos da História que também se sobrepõem em Roma.

Não se deve esquecer que o Maxxi foi criado para abrigar obras de arte e não deveria ser maior que elas. A dúvida, aliás, pairou no ar durante os meses em que o complexo de 21 mil m² era erguido ao custo de 150 milhões. Mas Zaha provou que é capaz de abrigar com funcionalidade trabalhos de artistas como Andy Warhol, Gino de Dominicis e Anish Kapoor, entre outros. Para ela, esse foi um dos pontos mais importantes de todo o projeto. "Em vez de criar um edifício, eu queria um espaço que estivesse no limite entre "prédio" e "objeto", que fosse uma própria extensão da arte, onde se pudesse caminhar com fluidez e se deixar levar pelas obras."

Dito e feito. "As estrutura fluidas do interior do Maxxi contrastam com seu exterior estático e, ao mesmo tempo, parecem se mover com a gente", declarou um visitante que aprovou a ideia e destacou os jogos entre luz e reflexão criados pelos painéis móveis de vidro do teto e da fachada.

Diante da afirmação, Zaha, que não vê a arquitetura como arte, mas trabalho árduo, mostra-se satisfeita: "Meu trabalho tem de trazer algo de excitante para a paisagem. Este museu é simbólico, marca o começo de uma nova era. É a prova de que somos capazes de criar espaços fluidos e funcionais ao mesmo tempo."

QUEM É

ZAHA HADID

ARQUITETA

Nasceu em 1950 em Bagdá. Estudou matemática na Universidade Americana de Beirute. Nos anos 70, mudou-se para Londres, onde frequentou a Architectural Association School of Architecture. Após se formar, trabalhou com seus ex-professores Rem Koolhaas e Elia Zenghelis. Somente nos anos 80, fundou seu próprio escritório.

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