Yolanda Penteado é referência nos 450 anos de SP

Há a minissérie, Um Só Coração, Ana Paula Arósio à frente do elenco, texto de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira. Já havia Tudo em Cor de Rosa, a autobiografia, a história real ou, ao menos, o modo como a percebeu sua protagonista. E há agora a biografia assinada por Antonio Bivar. Três olhares sobre a trajetória de uma das personalidades fascinantes do século 20 brasileiro, Yolanda Penteado, fazendeira sensível aos rumos da produção rural no Brasil, amante e incentivadora das artes, mulher pioneira. Na apresentação de Yolanda (A Girafa, 432 págs., R$ 53), Bivar tenta explicar os propósitos da biografia. Sua relação com Yolanda é afetiva, ele não a conheceu mas a leitura de Tudo em Cor de Rosa quase 30 anos atrás, fica claro, tem lugar especial nas lembranças do autor. Daí surgiu a idéia de uma "biografia de bolso", nada "que me obrigasse a ir fundo em buscas, pesquisas, aquela coisa de livro com mil notas de rodapé e uma bibliografia de humilhar qualquer não acadêmico". O livro seguiu sem as notas, mas o projeto cresceu e, com isso, a preocupação. "O compromisso teria que ser maior, eu teria que ir além da despretensão que fora a idéia inicial, isto é, teria que pesquisar, conversar com parentes da biografada e pessoas que a conheceram bem, ir nas bibliotecas, nos arquivos, na internet". O resultado chega agora às livrarias, com a minissérie. Não há nada de sisudo na escrita de Bivar. Nos primeiros nove capítulos - as primeiras 150 páginas -, a organização é cronológica. A primeira ida à Europa, os momentos vividos em Paris, o casamento com Jayme Telles, o divórcio, o modo como surpreendeu a sociedade da época ao assumir os negócios da fazenda da família, a Empyreo, modernizando suas atividades, instituindo práticas que iriam inspirar a grande parte dos fazendeiros brasileiros. Todos estes momentos das primeiras décadas de sua vida guardam um interesse duplo, para o qual chama a atenção o autor. A história de Yolanda Penteado já é fascinante pelas suas conquistas e realizações. Mas há outro componente: o contexto em que viveu, as pessoas com quem privou e o modo como as retratou em sua biografia (uma das principais fontes do livro). A paixão por voar, as dificuldades surgidas com o início da guerra na Europa, a tentativa de cultivar o bicho-da-seda, a relação com os irmãos, a reação à criação do Masp e de seu acervo: a vida de Yolanda vai seguindo e a narrativa de Bivar perde a linearidade, até o momento em que ela conhece Ciccillo Matarazzo Sobrinho, seu futuro marido e, aos poucos, ele começa a explicar sua própria afirmação de que aquela seria uma união que traria imensos frutos para a vida brasileira. Bivar conta, com auxílio do depoimento de Maria Bonomi e outras personalidades, o modo como conseguiram tamanha proeza, desde a sugestão inesperada de Ciccillo à esposa até o lobby feito por Yolanda junto a deputados para aprovar a lei. Mas há muitos outros detalhes, como a visita a André Malraux na tentativa de conseguir com ele ajuda na hora de trazer obras ao Brasil, para não falar, mais tarde, da criação do Museu de Arte Contemporânea da USP, em 1963. Ou, então, da 2.ª Bienal, em 1954, quando, entre outras façanhas, o casal fez com com que fosse trazida ao Brasil Guernica, de Pablo Picasso - a primeira apresentação da obra fora dos Estados Unidos. Ou ainda, do envolvimento nos eventos que marcaram o quarto centenário de São Paulo, em especial com um festival de cinema. Não foram poucas as marcas profundas deixadas por Yolanda, assim como abundam os episódios com personalidades e mesmo de sua vida pessoal, tal como a separação amigável de Ciccillo ou a venda da Empyreo. Bivar passa por elas todas. E, no capítulo final, passeia pela área que restou da fazenda, cortada pela rodovia. No fim, a resposta está mesmo é no relato da vida de uma das construtoras desta São Paulo que completa 450 anos.

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