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Yo-Yo Ma: sons em nome do diálogo

Violoncelista se apresenta nesta segunda e terça na Sala São Paulo

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2013 | 02h08

O tempo ensinou que, com o violoncelista Yo-Yo Ma, nada é por acaso. Na bagagem de um dos músicos mais requisitados e celebrados da atualidade, estão dezesseis prêmios Grammy, mais de uma centena de discos e flertes com um repertório que parece sem fronteiras, e leva seu violoncelo do blue grass ao rock - passando, com excelência, pelos pilares da música clássica. Assim, um programa diversificado como o que ele apresenta hoje e amanhã na Sala São Paulo, pela temporada da Sociedade de Cultura Artística, se faz de mais de um punhado de peças de diferentes autores - e nasce da sensibilidade de um músico que fez do diálogo entre culturas e gêneros a sua marca.

Yo-Yo Ma nasceu em Paris, de pais chineses. Ainda menino, mudou-se com eles para os Estados Unidos, onde estudou na Julliard School com Leonard Rose. Na hora de ir para a faculdade, não quis saber só de música - e, em Harvard, procurou se aprofundar em cursos ligados a outras áreas das ciências humanas. Música, afinal, é uma forma de comunicação - e, além da técnica, é preciso ter o que dizer. "Eu me lembro que, na juventude, meu grande desejo era entender quem eu era e qual o espaço que eu poderia ocupar no mundo. A música é uma língua, como disse Beethoven, que fala de coração para coração. E encontrar o balanço entre a vida interior e a realidade mais amplo do contexto em que ela acontece sempre foi uma das missões da arte", disse ao Estado em 2010, quando fez seu última recital em São Paulo.

Na ocasião, Ma interpretou, com a pianista Kathryn Stott, que o acompanha também nesta nova turnê pelo Brasil, peças de Gershwin, Rachmaninoff, Ennio Morricone e César Camargo Mariano, propondo um diálogo entre autores que de alguma forma estiveram envolvidos com a música feita para o cinema. Desta vez, vai tocar, na primeira parte, Stravinsky (Suíte Italiana), Villa-Lobos (Alma Brasileira), Camargo Guarnieri (Dança Negra), Piazzolla (Oblivion) e De Falla (Canções Populares Espanholas) - ou seja, obras de inspiração latina, que navegam entre o erudito e o popular; e, na segunda, o quinto movimento do Quarteto para o Fim dos Tempos, de Olivier Messiaen, e a Sonata n. 3 para Violoncelo e Piano, de Brahms.

Boa parte deste repertório já foi gravado por Yo-Yo Ma em discos como Obrigado Brazil e Soul of the Tango. São testemunhos do amplo interesse musical do violoncelista, que acaba de ganhar o Grammy com The Goat Rodeo Sessions, disco dedicado ao blue grass, gênero norte-americano que mistura a influência europeia com o jazz e a música country. E, nesse sentido, é bastante significativo o seu The Silk Road Project, coletivo de cerca de 60 músicos de países do ocidente e do oriente, criado no final dos anos 90.

Em uma palestra proferida no Kennedy Center, em Washington, no começo de abril, o próprio Ma explicou seu interesse pela diversidade de repertório. "Eu penso sempre em meu exemplo favorito de criatividade, retirado do mundo da ciência. Na ecologia, quando dois ecossistemas se encontram, como florestas e savanas, por exemplo, o ponto de intersecção entre eles é chamado de 'efeito limite'. Nesta zona de transição, por conta das influências que as duas comunidades ecológicas têm uma sobre a outra, você encontra a maior diversidade de vida, assim como o maior número de novas formas de vida. É ali que essas experiências variadas se encontram, criando uma zona de transição. E esta é uma região menos estruturada, de maior diversidade - e, assim, com maiores possibilidades. Este é um lugar de transformação e movimento."

Na mesma palestra, o violoncelista definiu os três pontos que acredita serem fundamentais para a vida nos dias atuais. "O primeiro é a percepção de que qualquer sociedade é movida por três forças: política, economia e cultura. E uma sociedade vibrante só existe quando os três aspectos conversam entre si", diz. "O segundo: o trabalho artístico não é apenas relevante mas, sim, essencial na vida do cidadão. E, em terceiro lugar: só a arte pode oferecer a capacidade crítica necessária para que nossas crianças possam crescer no século 21, pois permite o desenvolvimento da colaboração, flexibilidade, imaginação e inovação."

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