YO-YO ma em uma noite para não esquecer

Paixão, rigor e talento marcaram apresentação irretocável do violoncelista ao lado da pianista inglesa Kathryn Stott

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2010 | 00h00

Um concerto dominado pelo universo do cinema - foi o que um público entusiasmadíssimo curtiu no concerto de terça na Sala São Paulo. Afinal, estava no palco o mais incensado dos músicos clássicos da atualidade, o violoncelista Yo-Yo Ma. Ele abriu a noite com o famoso Gabriel"s Oboe, melodia sedutora de Ennio Morricone feita para o filme A Missão, de 1986; e fechou com a enorme porém igualmente sedutora sonata para violoncelo e piano do russo Serge Rachmaninov, cheia de melodias matrizes emuladas por compositores europeus emigrados para os EUA responsáveis pelas grandes trilhas sonoras de Hollywood na primeira metade do século 20.

O tema principal do Andante desta sonata, entre vários outros salpicados nos quatro movimentos, justifica sozinho a performance de outro russo na cerimônia do Oscar em 1954. Dimitri Tiomkin, em seu discurso ao receber a estatueta pela música do filme Um Fio de Esperança disse: "Quero agradecer a Brahms, Johann e Richard Strauss, Wagner, Beethoven..." Gargalhadas o impediram de completar a lista. Daí a refinada pertinência do programa elaborado pelo violoncelista.

Aos 54 anos, Yo-Yo Ma é um verdadeiro cidadão do mundo, pois nasceu em Paris, de pais chineses, e cresceu e estudou em NY. É também um músico de todas as músicas. Cisca, de modo genial, na música contemporânea, nas populares e na erudita convencional.

Há três anos, pela mesma Sociedade de Cultura Artística e ainda no teatro da Rua Nestor Pestana já se apresentara com a excepcional pianista inglesa Kathryn Stott. Eles formam duo irretocável, em que vivacidade, rigor e talento convivem em formidáveis proporções.

E como é bom assistir a um músico de exceção exercendo plenamente sua liberdade artística. Executadas sem interrupção, as primeiras três peças - díspares entre si, pois assinadas por Morricone, Gershwin (prelúdio n.º 2 original para piano) e o brasileiro César Camargo Mariano radicado em Nova York (Cristal) - compuseram uma original suíte de danças que relembra a fuzarca habitual dos músicos barrocos. Juntar músicas desse jeito não é só lúdico; mostra afinidades insuspeitadas entre gêneros afastados como as trilhas de Hollywood, a tentativa de soar "clássico" de Gershwin e a ginga de Mariano. Isso sim é importante e vale como abertura de perspectivas, para o público e os músicos em geral.

Ruminando a canção. Brahms estreou como pianista boa parte de sua produção camerística. Costumava enfiar a cabeça no teclado e adorava ruminar as melodias em "bocca chiusa". A elegante Kathryn Stott não chega a tanto, mas é a parceira ideal para o violoncelo de Yo-Yo Ma, capaz de manter um cantabile raro na emissão das frases. Viu-se isso desde o início da sonata em mi menor, no entrecruzamento de timbres do cello e do piano: o primeiro inicia uma longa frase melódica no seu registro mais baixo e atinge uma das notas mais agudas de sua tessitura, acolchoado por acordes solenes do piano.

No "quasi minuetto" central, os dois instrumentos brincaram em ritmo dançável; e no Allegro final a fuga deu o tom de uma execução apaixonada e ao mesmo tempo rigorosa.

L, a peça de Graham Fitkin, foi presente de aniversário para Yo-Yo Ma em seus 50 anos. Fitkin, de 46, nascido no pós-moderno clima inglês apimentado com as aulas com o eclético holandês Louis Andriessen, trafega aleatoriamente, ora por Piazzolla, ora pelas linguagens da vanguarda downtown de Manhattan, liderada por David Lang, Michael Gordon e Julia Wolfe. Deu o chamado "toque contemporâneo" bem-comportado ao concerto.

Bem mais do que a sonata de Brahms, a de Rachmaminov privilegia o piano, com uma escrita complexa e virtuosística, nos movimentos mais longos: o Lento-Allegro moderato inicial e o fogoso Finale Allegro mosso. As longas frases cantantes do violoncelo, porém, dominam o Allegro scherzando e o Andante. Se Stott exibe uma energia revigorada e é exata em sua leitura da tempestuosa partitura, Yo-Yo Ma consegue milagrosamente retirar do instrumento forças para terçar lanças com um piano quase sempre poderosíssimo.

Uma interpretação de altíssimo nível, comparável ou talvez melhor do que a da sua gravação com Emanuel Ax para a Sony, de 1991. A lamentar, apenas, que não tenhamos mais a acústica invejável do Cultura Artística, onde este duo brilhou três anos atrás. Teria faltado ajuste nas placas móveis da Sala São Paulo?

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