Yo, Pad

NOVA YORK

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2010 | 00h00

Há dois meses, afirmei aqui que não estava interessada em primeiras edições de gadgets eletrônicos. Demorei sete semanas para descumprir minha moratória de consumo. Encomendei o raio do tablete de madrugada online, como se contasse com o sono profundo do superego.

Coloquei a caixa com displicência sobre a mesa da sala, em meio ao resto da correspondência. Demorei um dia para abrir. Não comentei com amigos, temerosa de que "comprei um iPad" fosse soar como "comprei um casaco de mink".

A engenhoca se iluminou convidativa ao primeiro toque. Sapequei o bookmark do Estadão no desktop e logo tive um ataque de ira anti-Jobs. Lembrei que o Nero da Apple quer incendiar a companhia Adobe e, por isso, o iPad simplesmente não roda vídeos em Flash, o mais popular software de vídeos do mundo online, usado pela TV Estadão.

Na semana passada, vários conglomerados de mídia deram uma banana para Steve Jobs. No dia em que Apple passou a Microsoft pela primeira vez como a companhia de tecnologia mais valorizada do mundo, empresas como a NBC Universal e a Time Warner disseram que não vão gastar rios de dinheiro reempacotando seus arquivos de cinema e TV no formato que Jobs ditar.

Escrevo na sexta-feira em que as filas para ver a Mona Lisa foram superadas pelas filas para comprar o iPad na loja do Louvre. O tablete foi colocado à venda em mais nove países e a comoção é evidente, com estimativas de vendas de 6 milhões de tabletes até o fim do ano.

Mas os europeus são menos afeitos ao Big Brother corporativo, como atestam variados desafios legais enfrentados pela Microsoft e o Google, ao longo dos anos.

Como reagirão os leitores do Guardian, depois do New York Times, o segundo maior jornal online em inglês, com mais de 30 milhões de visitantes únicos mensais, quando ficarem impedidos de assistir ao replay de um gol dominical no seu custoso tablete?

O zelo controlador de Steve Jobs é conhecido e ele recentemente se engajou numa troca agressiva de e-mails em plena madrugada. Depois de tomar umas e outras, o blogueiro techie Ryan Tate escreveu para Jobs, descontente com o comercial de TV que dizia ser o iPad uma revolução. "Revolução é sobre liberdade", reclamou o inebriado missivista. Para sua surpresa, Jobs disparou de volta: "Sim, liberdade de programas que furtam seus dados pessoais, liberdade da pornografia." Uau, ele zela pela virtude dos viciados em seus produtos.

Se o leitor que não dirige a maior companhia tecnológica do mundo tinha fantasias sobre a glamourosa vida de um executivo lendário, aí está. Às 2 da manhã, Steve Jobs, o homem que descreve o gesto de usar um aparelho como uma "experiência", está surfando a internet em busca de moinhos de vento.

Aqui, um parêntese: pelo menos na minha vida, a empresa do ditatorial Jobs teve um efeito libertador e não me refiro apenas à fluidez de seu sistema operacional. Tarefas que exigiam visita a uma produtora de TV passaram a ser executadas no laptop no meu colo, às vezes instalada no ônibus ou no trem.

Voltando ao duelo de titãs, há um complicador para os planos bélicos de Jobs. O software Google TV vai jogar os vídeo da internet nos aparelhos de TV. E, embora o iPad avance como um Humvee sobre o pedregoso terreno do consumo tecnológico, há vários outros tabletes em produção. Melhor para nós.

Como praticante de uma profissão que merece atenção do Ibama, foi com instinto de sobrevivência que me lancei a um fim de semana de convivência intensa com o tablete de Jobs. Em dezembro passado, o editor nova-iorquino Peter Kaplan disse ao Estado que um "iPod em esteroides" ia resgatar o jornalismo da extinção. "Novo gênio, nova lâmpada", previu Kaplan.

Sim, meu consumo voraz de notícias foi francamente facilitado pelo iPad. Basta um pouco de insônia produtiva e pulo da cama de manhã já versada no conteúdo de jornais britânicos, americanos e brasileiro. Ler livros, como se esperava, é mais confortável para os olhos e desconfortável para as mãos, porque a criatura pesa quase 700 gramas. As Aventuras de Huckleberry Finn baixam grátis, cortesia do domínio público, em poucos segundos, com as ilustrações originais. As obras completas de Shakespeare também estão lá na estante, onde devem ficar juntando poeira cibernética. Mas a loja monopolista nunca ouviu falar em Philip Roth, Jorge Luis Borges ou Roberto Bolaño.

Não estou tendo visões messiânicas, mas, o que será aquilo no fim do túnel? Uma luzinha?

Dislexia. A coluna de 17 de maio saiu com o título Poliformismo Editorial quando o correto era Polimorfismo Editorial. Reli o texto inúmeras vezes e não notei. O leitor José Nagado generosamente me informou da discrepância entre o que se passava na minha cabeça e o que digitei no texto. Uma pena que não encontrei com o José Nagado antes de tomar o ônibus calçando um sapato preto e outro marrom.

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